21.4.26

O agente secreto – arte, história e memória*

 

O agente secreto – arte, história e memória* 

Há duas semanas, assisti O agente secreto. Resolvi escrever e demorei para finalizar o texto, porque o filme me envolveu muito. O agente secreto conta a história de Marcelo, professor universitário, que sofre perseguição política durante a ditadura e se refugia em sua cidade natal, Recife.

Um dos pontos positivos do filme é sair do lugar comum, em películas sobre a ditadura (enfoque sobre a perseguição a militantes políticos e membros da luta armada), e se voltar para pessoas que não se levantaram contra a ditadura diretamente, mas que a mera existência e profissão eram uma ameaça ao regime. Marcelo, o protagonista, é um professor universitário, um pesquisador, um cientista e é perseguido exatamente por sua atuação profissional dentro de uma universidade pública. Essa escolha não é gratuita. Depois do golpe contra Dilma, e principalmente durante o governo Bolsonaro, inúmeros projetos de pesquisa foram descontinuados, servidores perseguidos e exonerados de cargos de direção de instituições públicas, por não compactuarem com o governo de então. Marcelo representa diretamente os intelectuais e cientistas perseguidos por regimes totalitários, sejam eles instituídos através de golpes de estado ou através do sistema eleitoral constitucional.

Também ha originalidade em foi falar sobre as redes de apoio e solidariedade para perseguidos políticos. O filme mostra, de maneira muito sensível, esses espaços, seus personagens e as relações estabelecidas entre eles. Esse é um tema pouco abordado em filmes sobre a ditadura e, mais uma vez, o diretor conecta passado e presente. Quem não se sentiu solitário e podado durante o terrível governo bolsonarista? Quem não se sente ainda meio deslocado e até desconfiado por conta da explosão reacionária ocorrida após 2016 e sua escalada até os dias atuais? Nesse cenário, estar entre nossos pares, é um oásis, um alívio e um lugar de solidariedade e segurança.

Kleber Mendonça insere, ao longo do filme, situações acontecidas na atualidade, ou seja, ele reconta essas situações durante a ditadura. O que o diretor/roteirista quer mostrar? Que preconceito, racismo, injustiça social e violência permeiam a sociedade capitalista de herança escravocrata, seja numa ditadura ou numa democracia. Porque o racismo, o preconceito, a misoginia e a injustiça com os mais pobres fazem parte da estrutura política, social e econômica de nossa sociedade. E casos hediondos como a negligência de uma mulher (branca) que levou a morte uma criança de 9 anos, filho de sua empregada doméstica (negra), poderia ter acontecido em outros tempos também.

A fotografia do filme é excelente. Mendonça usou cores quentes puxadas para o vermelho, o que remete tanto a época em que o filme se passa – nos anos 70 os processos de revelação puxaram para cores quentes – e também para a luz da região Nordeste. A inserção de uma lenda urbana do Recife dá uma quebrada no clima tenso e humaniza a história. Mas, a lenda urbana é relacionada ao cenário de violência, como um lembrete que não há inocência no mundo.

Outro ponto interessante são as referências culturais da época através de música e principalmente do cinema – Tubarão, A profecia, e um filme francês com o Jean Paul Belmondo que eu não consegui identificar. Mas esses elementos são inseridos de forma tão natural que parece estarmos vendo realmente um filme dos anos 70. Há tomadas memoráveis como a vista do Recife pela janela do cine São Luiz. Ou uma cena noturna de um bloco de carnaval, quando o protagonista deixa uma reunião onde recebeu informações importantes e, ao mesmo tempo, aterradoras sobre sua situação política. Enquanto a luz tênue está sobre os foliões, o protagonista segue adentrando a escuridão da noite.

O roteiro é bastante original também. A impressão que temos é que a história é contada como flashes de memória, porque as situações são mostradas de forma meio fugidia e pouco amarradas, com pouca profundidade levando a várias lacunas. Porém, as partes narradas dessa forma são aquelas em que o protagonista está atuando, ou seja, é a versão dos perseguidos, é a memória cotidiana que vai se perdendo no dia a dia, se perdendo da lembrança e só retorna quando resgatada, mas esse resgate também é fragmentado, muitas vezes pela falta de fontes. Já a parte em que os agentes do regime são mais atuantes, tudo está muito claro. Como se essa parte representasse a “história oficial”, a versão dos fatos que ficou para a posteridade, publicada e recontada a exaustão como verdades inquestionáveis.

 Aí reside uma metáfora sobre a memória e a relação que a sociedade brasileira estabelece com seu passado político e como essa memória se torna história. Memória é o que lembramos, e é construída através das situações que nos afetam de alguma forma. Ao mesmo tempo, ela também é construída através do grupo ao qual pertencemos, ou seja, o que o grupo “escolhe” lembrar, o que o grupo “escolhe” esquecer. E aí a memória se torna história. A questão é, como ocorre essa “escolha”? Que elementos o grupo possui para construir sua memória sobre os fatos e então produzir a "história"? Que fração de classes, que segmentos sociais, estão envolvidos nessa “escolha”?

O filme deixa um sentimento de vazio, de apagamento. Apesar da anistia, apesar do fim da ditadura, e da euforia geral com o movimento das diretas e a volta dos exilados políticos, não houve reconhecimento imediato de que o Estado ditatorial foi um Estado terrorista e assassino. Não houve nenhuma atitude imediata de punição dos generais presidente, dos responsáveis pela máquina de tortura estatal. As iniciativas nesse sentido, muito tênues e tuteladas, surgiram na segunda década dos anos 2000, mais de vinte anos depois do fim da ditadura. E acabaram tendo seus trabalhos desestruturados e abreviados pelo golpe político institucional contra Dilma, em 2016. Estamos falando da Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada em 2011 pela Lei 12.528/2011.

Isso não aconteceu apenas em relação a ditadura. O fim da escravidão também foi seguido por um “não vamos mais falar sobre isso”, pela falta de qualquer atitude por parte do Estado de integração da população de ex-escravizados. A primeira lei a reconhecer e punir o crime de racismo foi criada apenas na década de 1950 do século XX ( Lei Afonso Arinos, Lei nº 1.390/51) , mais de 50 anos depois do fim da escravidão.

Que memória esse país pode ter de si mesmo? Uma memória cheia de furos, situações mal esclarecidas, ou não esclarecidas, uma memória que nega as injustiças, a violência, o racismo, o autoritarismo e que abre espaço para a apatia, o desinteresse e insensibilidade em relação as questões sociopolíticas, ou para as ideias reacionárias, autoritárias e fascistas que vimos emergir desde 2016 (e que só ganharam força desde então).

O agente secreto é um filme contido e triste, o que é meio contraditório porque tem um título de efeito, então a gente vai ao cinema esperando um filme impactante. Não entendi porque seguir tal caminho? Emocionar não é apenas o choro fácil, frases de efeito ou cenas feitas para fazer o espectador chorar. Emocionar é sensibilizar o público para as questões abordadas no filme, fazer o espectador se sentir na pele de Marcelo, sentir suas perdas, seus medos, tristezas, angústias, raiva. Sentimos isso no filme? Sim, mas de maneira muito tênue, rápida e fugidia. Talvez a contenção de emoções seja uma marca do diretor que opta por uma narração contida com alguns breves momentos de tensão, que não chegam a um clímax.

Wagner Moura também se mantem contido, o que me aprece uma forma de demonstrar o nível de exaustão do personagem. O cara só quer salvar a própria pele e retomar a vida em segurança. Ele é um dos tantos anônimos perseguidos pelo regime, que se perderam no curso da história e da memória coletiva e particular. Há um clima de desalento, de impotência frente ao gigante que é o Estado ditatorial.  

No geral eu adorei o filme. Sim, pela originalidade, pelo clima de desalento, pela infeliz tragédia que vivemos coletivamente durante a ditadura e que respinga em nós, até hoje. Gostei do semblante cansado e entristecido de Wagner Moura. E quase chorei no final, por conta da nossa miséria política e histórica. 

*(Escrito em 06/11/2025, revisado hoje, 21/04/2026.)

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