O agente secreto – arte, história e memória*
Há
duas semanas, assisti O agente secreto. Resolvi escrever e demorei para
finalizar o texto, porque o filme me envolveu muito. O agente secreto
conta a história de Marcelo, professor universitário, que sofre perseguição
política durante a ditadura e se refugia em sua cidade natal, Recife.
Um
dos pontos positivos do filme é sair do lugar comum, em películas sobre a
ditadura (enfoque sobre a perseguição a militantes políticos e membros da luta
armada), e se voltar para pessoas que não se levantaram contra a ditadura
diretamente, mas que a mera existência e profissão eram uma ameaça ao regime.
Marcelo, o protagonista, é um professor universitário, um pesquisador, um
cientista e é perseguido exatamente por sua atuação profissional dentro de uma
universidade pública. Essa escolha não é gratuita. Depois do golpe contra
Dilma, e principalmente durante o governo Bolsonaro, inúmeros projetos de
pesquisa foram descontinuados, servidores perseguidos e exonerados de cargos de
direção de instituições públicas, por não compactuarem com o governo de então.
Marcelo representa diretamente os intelectuais e cientistas perseguidos por
regimes totalitários, sejam eles instituídos através de golpes de estado ou
através do sistema eleitoral constitucional.
Também ha originalidade em foi falar sobre as redes de apoio e solidariedade para
perseguidos políticos. O filme mostra, de maneira muito sensível, esses espaços,
seus personagens e as relações estabelecidas entre eles. Esse é um tema pouco
abordado em filmes sobre a ditadura e, mais uma vez, o diretor conecta passado
e presente. Quem não se sentiu solitário e podado durante o terrível governo
bolsonarista? Quem não se sente ainda meio deslocado e até desconfiado por
conta da explosão reacionária ocorrida após 2016 e sua escalada até os dias
atuais? Nesse cenário, estar entre nossos pares, é um oásis, um alívio e um
lugar de solidariedade e segurança.
Kleber
Mendonça insere, ao longo do filme, situações acontecidas na atualidade, ou
seja, ele reconta essas situações durante a ditadura. O que o
diretor/roteirista quer mostrar? Que preconceito, racismo, injustiça social e
violência permeiam a sociedade capitalista de herança escravocrata, seja numa
ditadura ou numa democracia. Porque o racismo, o preconceito, a misoginia e a
injustiça com os mais pobres fazem parte da estrutura política, social e
econômica de nossa sociedade. E casos hediondos como a negligência de uma
mulher (branca) que levou a morte uma criança de 9 anos, filho de sua empregada
doméstica (negra), poderia ter acontecido em outros tempos também.
A
fotografia do filme é excelente. Mendonça usou cores quentes puxadas para o
vermelho, o que remete tanto a época em que o filme se passa – nos anos 70 os
processos de revelação puxaram para cores quentes – e também para a luz da
região Nordeste. A inserção de uma lenda urbana do Recife dá uma quebrada no
clima tenso e humaniza a história. Mas, a lenda urbana é relacionada ao cenário
de violência, como um lembrete que não há inocência no mundo.
Outro
ponto interessante são as referências culturais da época através de música e
principalmente do cinema – Tubarão, A profecia, e um filme
francês com o Jean Paul Belmondo que eu não consegui identificar. Mas esses
elementos são inseridos de forma tão natural que parece estarmos vendo
realmente um filme dos anos 70. Há tomadas memoráveis como a vista do Recife
pela janela do cine São Luiz. Ou uma cena noturna de um bloco de carnaval,
quando o protagonista deixa uma reunião onde recebeu informações importantes e,
ao mesmo tempo, aterradoras sobre sua situação política. Enquanto a luz tênue
está sobre os foliões, o protagonista segue adentrando a escuridão da noite.
O
roteiro é bastante original também. A impressão que temos é que a história é
contada como flashes de memória, porque as situações são
mostradas de forma meio fugidia e pouco amarradas, com pouca profundidade
levando a várias lacunas. Porém, as partes narradas dessa forma são aquelas em
que o protagonista está atuando, ou seja, é a versão dos perseguidos, é a
memória cotidiana que vai se perdendo no dia a dia, se perdendo da lembrança e
só retorna quando resgatada, mas esse resgate também é fragmentado, muitas
vezes pela falta de fontes. Já a parte em que os agentes do regime são mais
atuantes, tudo está muito claro. Como se essa parte representasse a “história
oficial”, a versão dos fatos que ficou para a posteridade, publicada e
recontada a exaustão como verdades inquestionáveis.
Aí
reside uma metáfora sobre a memória e a relação que a sociedade
brasileira estabelece com seu passado político e como essa memória se torna
história. Memória é o que lembramos, e é construída através das situações que
nos afetam de alguma forma. Ao mesmo tempo, ela também é construída através do
grupo ao qual pertencemos, ou seja, o que o grupo “escolhe” lembrar, o que o
grupo “escolhe” esquecer. E aí a memória se torna história. A questão é, como ocorre essa “escolha”? Que
elementos o grupo possui para construir sua memória sobre os fatos e então produzir a "história"?
Que fração de classes, que segmentos sociais, estão envolvidos nessa “escolha”?
O
filme deixa um sentimento de vazio, de apagamento. Apesar da anistia, apesar do
fim da ditadura, e da euforia geral com o movimento das diretas e a volta dos
exilados políticos, não houve reconhecimento imediato de que o Estado
ditatorial foi um Estado terrorista e assassino. Não houve nenhuma atitude
imediata de punição dos generais presidente, dos responsáveis pela máquina de
tortura estatal. As iniciativas nesse sentido, muito tênues e tuteladas,
surgiram na segunda década dos anos 2000, mais de vinte anos depois do fim da
ditadura. E acabaram tendo seus trabalhos desestruturados e abreviados pelo
golpe político institucional contra Dilma, em 2016. Estamos falando da Comissão
Nacional da Verdade (CNV), criada em 2011 pela Lei 12.528/2011.
Isso
não aconteceu apenas em relação a ditadura. O fim da escravidão também foi
seguido por um “não vamos mais falar sobre isso”, pela falta de qualquer
atitude por parte do Estado de integração da população de ex-escravizados. A primeira
lei a reconhecer e punir o crime de racismo foi criada apenas na década de 1950
do século XX ( Lei Afonso Arinos, Lei nº 1.390/51) , mais de 50 anos
depois do fim da escravidão.
Que
memória esse país pode ter de si mesmo? Uma memória cheia de furos, situações
mal esclarecidas, ou não esclarecidas, uma memória que nega as injustiças, a
violência, o racismo, o autoritarismo e que abre espaço para a apatia, o
desinteresse e insensibilidade em relação as questões sociopolíticas, ou para
as ideias reacionárias, autoritárias e fascistas que vimos emergir desde 2016
(e que só ganharam força desde então).
O
agente secreto é
um filme contido e triste, o que é meio contraditório porque tem um título de
efeito, então a gente vai ao cinema esperando um filme impactante. Não entendi
porque seguir tal caminho? Emocionar não é apenas o choro fácil, frases de
efeito ou cenas feitas para fazer o espectador chorar. Emocionar é sensibilizar
o público para as questões abordadas no filme, fazer o espectador se sentir na
pele de Marcelo, sentir suas perdas, seus medos, tristezas, angústias, raiva.
Sentimos isso no filme? Sim, mas de maneira muito tênue, rápida e fugidia. Talvez
a contenção de emoções seja uma marca do diretor que opta por uma narração
contida com alguns breves momentos de tensão, que não chegam a um clímax.
Wagner
Moura também se mantem contido, o que me aprece uma forma de demonstrar o nível
de exaustão do personagem. O cara só quer salvar a própria pele e retomar a
vida em segurança. Ele é um dos tantos anônimos perseguidos pelo regime, que se
perderam no curso da história e da memória coletiva e particular. Há um clima de
desalento, de impotência frente ao gigante que é o Estado ditatorial.
No geral eu adorei o filme. Sim, pela originalidade, pelo clima de desalento, pela infeliz tragédia que vivemos coletivamente durante a ditadura e que respinga em nós, até hoje. Gostei do semblante cansado e entristecido de Wagner Moura. E quase chorei no final, por conta da nossa miséria política e histórica.
*(Escrito
em 06/11/2025, revisado hoje, 21/04/2026.)
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