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8.12.09

I Encontro Nacional de Divulgação de História e Ciências Sociais

Pessoal, vai rolar na Casa da Ciências, centro de ciência da UFRJ, nos dias 10 e 11 de dezembro o 1º Encontro Nacional de Divulgação de História e Ciências Sociais.
Deixo a programação do evento, o baner* e os links para quem quiser se inscrever.


Programação:

Dia 10
10:00 Abertura: Propostas para um diálogo
Ildeu Moreira – doutor em Física, professor da UFRJ e diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia
Luciano Figueiredo – doutor em História, professor da UFF e editor da Revista de História da Biblioteca Nacional

11:00 Conferência de abertura: Porque divulgar História e Ciências Sociais?
Ildeu Moreira

13:00 Mesa Redonda 1: Ciências Sociais, estatuto científico e divulgação
Maria Alice Rezende – doutora em Sociologia, professora da PUC-Rio, membro do Conselho Editorial da Revista Ciência Hoje e da Revista Ciência Hoje para Crianças, presidente da ANPOCS
Manoel Salgado – doutor em História, professor da UFRJ e da UERJ
Marieta Ferreira – doutora em História, professora da UFRJ, coordenadora do programa de livros didáticos da Fundação Getúlio Vargas - RJ, editora da Revista Brasileira de História, publicação oficial da ANPUH

15:00 Painel 1: Jornais e revistas
Ana Lúcia Azevedo – jornalista, editora da coluna “História” do jornal O Globo
Paul Jürgens – coordenador de Jornalismo / Comunicação e editor da revista Rio Pesquisa (FAPERJ)
Luciano Figueiredo

17:00 Painel 2: Exposições, Itinerários, cidades
Ildeu Moreira – organizador da expedição Caminhos de Darwin
Claudia Beatriz Heynemann – doutora em História, curadora de diversas exposições no Arquivo Nacional
Rualdo Menegat – doutor em Ciências na área da Ecologia de Paisagem, professor da UFRGS, curador geral da exposição Visões da Terra
Cristina Meneguello – doutora em História, Diretora Associada do Museu Exploratório de Ciências da UNICAMP e coordenadora da 1ª Olimpíada Nacional em História do Brasil

19:00 Conferência e relançamento de livros de Eugênio Bucci
Em Brasilia 19 horas, da editora Record, e A Imprensa e o dever da Liberdade, da editora Contexto.


Dia 11
9:00 Conferência
Ângela de Castro Gomes – doutora em Ciência Política, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais do CPDoc / Fundação Getúlio Vargas

10:00 Mesa Redonda 2: Experiências de divulgação em Ciências Humanas
Mary Del Priore – doutora em História, autora de vasta bibliografia
Charles Feitosa – doutor em Filosofia, professor da UNIRIO
Cecília Cotrim – doutora em História da Arte, professora da PUC-Rio, organizou edições sobre arte moderna e contemporânea e participou das experiências do Café-Filô
Iara Lis – doutora em História, professora da UNICAMP, especialista em arte e novas midias.

13:00 Painel 3: TV, cinema e documentário
Silvia Fiuza – mestre em Antropologia Social, é gerente de conhecimento do projeto “Globo Universidade” da TV Globo
Ancelmo Gois – jornalista, apresenta o programa “De lá pra cá” na TV Brasil
Nelson Pereira dos Santos – cineasta, membro da Academia Brasileira de Letras, sua vasta filmografia inclui documentários sobre os livros "Casa Grande & Senzala" e "Raízes do Brasil". (a confirmar)
Renato Lessa – Ciência Política/UFF, experiência do Instituto Ciência Hoje

15:00 Painel 4: Internet e Rádio
Andre Urani – doutor em Economia, professor da UFRJ, foi comentarista do “Jornal da Futura”, da TV Futura, e da rádio CBN
Bruno Leal – historiador e jornalista, criador e coordenador da Rede Social Café História, na internet
Keila Grinberg – doutora em História do Brasil pela UFF e professora da UNIRIO, mantém a coluna mensal "Em Tempo" na revista Ciência Hoje on-line e dedica-se à redação de livros de divulgação de História para o grande público.
Bernardo Esteves – jornalista especializado em ciência, mestre em História das Ciências, é editor do site Ciência Hoje On-line

17:00 Balanço final dos trabalhos
Luciano Figueiredo


*Não gostei desse baner. Tem uma estética muito dura, observada no formato da fonte utilizada bem como na distribuição do texto e os elementos gráficos, além do homem vestindo terno. Isso tudo sugere uma idéia de "objetividade", uma reflexão "objetiva" e "científica" a cerca do tema. Ficou parecendo um desses prospectos de MBI em administração de empresas. Por que tanta formalidade? Achei desnecessário.

** Não sei por que, lembrei da Lua Nova. Revista de cultura de política. A revista surgiu nos anos 70, e o perfil era bem político e popular com poucas análises acadêmicas. Na virada dos anos 80 para os 90 a Lua Nova adquiriu um perfil mais acadêmico que ficou muito evidente tanto no conteúdo - os artigos tornaram-se mais extensos, problematizados, contendo notas e bibliografia, caracteristicas de artigos acadêmicos - como na estética da revista (diagramação, fontes, divisão das sessões etc, tudo isso ganhou um imagem mais "limpa", e diga-se, mais agradável aos olhos!).

4.7.09

Eu não sou cachorro, não

"O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses.

Não tinha pelo menos um cozinheiro com ele?

Filipe da Espanha chorou quando sua Armada naufragou.

Ninguém mais chorou?"


Bertolt Bretcht*



Nessa semana que passou, voltei a ler um livro que já tinha lido há uns cinco anos mais ou menos. Eu o li quando trabalhava com um amigo que é cego - eu era ledora - e talvez se não o lesse por esse motivo jamais teria a oportunidade de conhecer um trabalho historiográfico tão bem cuidado e bonito. O livro em questão chama-se "Eu não sou cachorro, não", numa clara referencia ao clássico rit de Waldick Soriano, cantor que fez muito sucesso na década de setenta cantando boleros e músicas conhecidas como de "dor de cotovelo" e trata exatamente dessa produção musical, e todo o processo que envolve sua marginalização e esquecimento pela sociedade e consequentemente pela historiografia.
Trabalhando com conceitos como memória e esquecimento e lugar social , Paulo César de Araújo, desvela todo o processo de marginalização da produção cultural cujo lugar social é o das classes populares.
Muito se fala da resistência a ditadura expressa em letras bem trabalhadas de cantores e compositores consagrados como Chico Buarque, Caetano Veloso, Taiguara e tantos outros. Paulo César de Araújo nos diz que esse tipo de música foi designada pela critica da época como Musica popular brasileira (MPB) e é proveniente de um lugar social muito específico, é produzida por uma classe média universitária intelectualizada e por vezes de esquerda. Por esta razão, expressam uma visão de mundo relacionada ao lugar social de sua produção. Tanto envolvendo a temática de protesto, quanto temática social, ou romântica os códigos contidos nessas canções remetem a forma de ver o mundo, a experiência de vida da classe média.
Da mesma forma a produção cultural tachada de "brega", "cafona", "musica de empregada", também possui um lugar social de produção, está associada ao universo da gente comum, das classes populares; os valores expressos em suas letras possuem elementos do universo cultural desse extrato social, difuso, composto por aquelas pessoas que não vivem no meio rural, mas na periferia das grandes cidades ou nos subúrbios. Esta produção cultural, longe de ser banal expressa sim código de valores, experiências cotidiana, percepção da realidade e formas de resistência dos setores populares.
Entretanto, essa produção cultural nunca é mencionada em estudos historiográficos, muito pelo contrário, a tendência da intelectualidade sempre foi vê-la com uma certa antipática e até ironia. Da mesma forma a sociedade lembra desses cantores pejorativamente - "musica de empregada".
Esse processo de esquecimento da música "brega", não é algo gratuito. Paulo César Araújo relaciona a marginalização da musica "brega" a todo um processo de profilaxia estética que envolvia a produção de uma imagem de um Brasil moderno, imagem essa afinada com os interesses políticos do regime de então - a ditadura militar. Estendendo sua análise aos programas televisivos, mas sempre enfocando a produção musical, o autor relaciona ao surgimento da Rede Globo - patrocinado pelo regime - à abertura de um espaço de divulgação entre as massas do trabalho de artistas provenientes da classe média, a imposição de um padrão estético "moderno", relacionado a sociedade urbana industrial. Nesse sentido aponta as novelas, veiculadas em três horários como a grande vitrine do padrão estético e meio de divulgação da produção musical da classe média. Não era interessante para o regime que a televisão - veículo de comunicação que se popularizava na época - mostrar as mazelas do Brasil, muito menos dar espaço para as manifestações culturais e políticas desse outro Brasil tão distante do modelo idealizado pelo regime.
Ao narrar e comparar o caso dos irmãos Dom e Ravel, que ao gravarem "Eu te amo meu Brasil" em pleno governo Médice, auge da repressão, e foram perseguidos e alijados do meio artístico, ao episódio da comemoração do sesquicentenário da independência do Brasil, onde Elis Regina gravou a chamada e participou de tal evento, patrocinado pelos militares, o autor sinaliza para um terreno espinhoso - a questão classista. Se Dom e Ravel foram execrados por uma crítica identificada como esquerdista que não podia tolerar manifestações de apoio à ditadura por parte dos artistas, o mesmo não se deu com Elis Regina, devidamente anistiada após enviar alguns cheques para o movimento sindical do ABC e gravar várias músicas de protesto contra a ditadura. A indulgência em relação a Elis, segundo o autor diz respeito a uma "solidariedade de classe", uma vez que Elis fazia parte da classe média, da qual também faziam parte seus críticos, ao passo que Dom e Ravel eram representantes autênticos do “populacho”.
Cruzando informações de uma variedade de fontes que vai desde documentos oficiais referentes a censura, até depoimento dos artistas da época, e sem poupar nenhum nome, o resultado é um trabalho conciso, inovador e que preenche uma lacuna historiográfica, gerando polêmica e até mesmo um mal estar, pois o livro questiona nossas atuais convicções e modo de vida.
Um outro ponto interessante é que os conceitos com os quais o autor trabalha ficam muito bem explicados e o livro é de fácil leitura, sendo atraente não somente para o público acadêmico, mas também (e isso é muito importante) para o público geral. Por fim, é uma ótima leitura.

* * * *

Confesso que a primeira vez que li esse livro, fiquei profundamente incomodada, e decidida a rebater todos os seus argumentos. Estava, isso sim, imersa em preconceito e arrogância. Mas depois de passado o estranhamento inicial e tendo percebido que ali estavam retratadas varias e varias pessoas que eu conhecia, de familiares meus, dei o braço a torcer e reconheci que é uma ode a musica popular de verdade, aquela feita pelas pessoas comuns que sustentam esse país e que nunca são lembradas, estão sempre em último lugar nas prioridades políticas e sociais. Na ultima quarta, quando voltei a lê-lo, lembrei de meu avô. Meu avô veio do interior do estado do Rio, da cidade de Madalena. Chegando na cidade grande fez de um tudo. Foi pedreiro, entregador de sorvete e por ultimo embalador em uma firma de mudanças. Tinha o sonho de comprar um sítio e voltar para o interior, quando se aposentasse. Nunca realizou seu sonho. Vitima de uma cegueira repentina, teve sua aposentadoria antecipada, não via mais gosto na vida. Recuperado da depressão e de uma anorexia nervosa, viveu até 2003, quando então partiu. Vários dos artistas citados no livro eu escutei na casa dos meus avós quando era criança e por isso, passado o estranhamento inicial, eu me toquei que quando negava o valor da produção musical dos "bregas" eu estava negando o valor do meu avô, justamente uma das duas pessoas mais simples e bacanas que eu ja conheci nessa vida. Foi impossível não chorar.
Esse texto é para o meu avô, meu querido avô...


*Citação contida no início do livro.

Eu não sou Cachorro, não. Música popular cafona e ditadura militar.
Paulo César de Araújo
Rio de janeiro: Record, 2002.

16.10.08

História...

No início de setembro, participei de um workshop sobre mediação em centros e museus de ciências, organizado pelo Museu da Vida, Fio-Cruz. Evento interessante onde muito se falou em educação, inclusão social, divulgação e difusão da ciência e cidadania.
Desde que comecei a trabalhar nesse meio – faço estágio na Casa da Ciência, centro de ciência da UFRJ (centros de ciência são instituições que organizam, promovem e recebem eventos, entre os quais exposições, de divulgação científica; a diferença entre um centro de ciência e um museu é que o museu possui acervo próprio e o centro de ciência não) – eu me pergunto: por que não há a mesma mobilização no meio historiográfico? Por que não há uma mobilização dentro da academia no sentido de divulgar o que é feito no meio acadêmico e dessa forma popularizar a história, estimular o interesse da população em saber sobre seu passado, o passado da sociedade em que vivemos, como ela foi construída?
A questão é importante. Há apenas uma revista respeitável de divulgação em história, acessível ao grande público, que é a Revista de História da Biblioteca Nacional. As demais são revistas que patinam na visão romanceada e permeada pelos mitos da história. Um bom “advogado do diabo” diria “Bom, mas nas ciências exatas e naturais também só há uma boa revista de divulgação cientifica, que é a Ciência Hoje, editada pela UFRJ”. Sim, é verdade, mas existem diversos centros e museus de ciência no Rio e pelo país divulgando ciência; há acadêmicos na área das exatas e ciências naturais pensando sobre formas de divulgar e popularizar a ciência.
Infelizmente o mesmo não acontece nas faculdades de história. O que é pesquisado chega para o público através das redes de ensino, ao adotarem esse ou aquele livro e, às vezes, quando o professor ainda mantém vínculo com a universidade. Mas isso acontece com defasagem de anos. Na verdade, não há uma preocupação no meio acadêmico em escrever para o grande público, e eu me refiro não somente a professores, mas falo dos graduandos também. Isso que é algo muito triste, porque não compreendo qual o sentido de estudar algo sobre a vida das pessoas, se pensarmos em termos de sociedade, e o que foi estudado nunca chegar a essas pessoas, nunca retornar a essa sociedade, ou alcançar apenas uma parte privilegiada dela. Esse conhecimento que foi produzido acaba circulando apenas num determinado espaço, o espaço dos especialistas ou dos eruditos, e com o tempo torna-se estéril pois não tem sentido social algum. Não estou dizendo que o conhecimento deve ter utilidade, não é isso, só estou dizendo que seriam muito mais gratificante se boa parte da sociedade pude compartilhar do conhecimento produzido com paixão – bom, tem que ter muito tesão para passar quatro anos da vida produzindo uma tese de doutorado – dentro dos meios acadêmicos.
Acredito no conhecimento e na história para a percepção de nós mesmos dentro da sociedade e no mundo e para a mudança – sim, está fora de moda pensar assim, mas eu sou fora de moda mesmo, e penso dessa forma – acredito que só nos conhecendo e tendo consciência de nosso lugar na sociedade podemos mudar essa sociedade para o que desejamos, para uma realidade mais justa. O conhecimento só poderá ser instrumento de mudança quando for democratizado, quando todos tiverem acesso a ele. Enquanto ficar trancado dentro das instituições, como livros que ninguém lê, esse conhecimento será apenas ferramenta para a manutenção das desigualdade sociais e para a manutenção do poder entre poucos.


* * * *


Um início de mudaças começa a ser percebido no laboratório de história antiga - LHIA - da UFRJ. O LHIA, sempre teve uma postura muito bacana no sentido de dar suporte ao estudante. Divulgando e promovendo eventos, cursos, inclusive cursos instrumental de linguas. A professora Regina Bustamante, organizou uma oficina com alunos da graduação, com o sentido de aproximar o "fazer história" do público estudantil. Como é uma idéia nova e experimental as atividades didáticas são aplicadas em grupo de alunos do CAP, da UFRJ. A primeira oficina foi sobre moedas, feita com a ajuda do Museu Historico Nacional, situado na praça XV, que possui uma fantástica coleção de moedas antigas. A segunda será sobre cerâmicas e contará com a parceria com o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, que possui em seu acervo a coleção de cerâmicas doada ao museu pela Impertriz Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II. É um trabalho muito bonito, que, como já disse, está em fase experimental mas no futuro pode render bons frutos se for igualmente aplicado em outras escolas, com realidade diferente da do CAP.



*1a. imagem: capa do livro Apologia da Historia. Ou o ofício do Hitoriador, de Marc Bloch. Um dos meus livros preferidos.
*2a. imagem: folder do LHIA para sua segunda oficina, a qual tem como tema as cerâmicas antigas e conta com a parceria do Museu Naciona da Quinta da Boa Vista.