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25.12.08

A Corrente

“Sim, senhora!” “Tenha um feliz natal, senhora!” “Volte sempre, senhora!” As frases saiam automaticamente, como uma gravação. Ela não percebia mais o significado das palavras, apenas respondia de forma gentil, com um sorriso discreto e superficial – mas não impessoal, pois uma das técnicas que ensinaram no treinamento era exatamente manter o verniz da atenção individual, por isso ela olhava nos olhos das senhoras e senhores que atendia. Não procurava nada naqueles olhos, também não tinha nada nos seus. O brilho era falso, o tom de proximidade era falso, o sorriso era falso e todos sabiam disso, tanto ela quanto os clientes. Mas o atendimento tinha de ser feito d’aquela maneira e ela, às vezes, se perguntava o porquê daquilo? Entretanto, seus questionamentos não duravam mais que alguns segundos, logo se esvaiam entre um “Obrigada, senhora” ou “Pois, não, senhor”.

Naquela quarta-feira ela só queria ir para casa. Conseguiu trocar de horário com uma colega da tarde. Sairia como quase todas as pessoas normais, às 17:00 horas. Na hora do lanche, surgiu o burburinho de que alguém tinha sido demitido e alguém teria de cobrir o horário do alguém demitido.

“Caramba, mas é Natal!” - exclamou.

“Não tô nem aí se é natal ou não, quero ir pra casa! Nem adianta vir com a conversar que paga extra. Tenho muitos extras pra receber, o de hoje eu não quero. Estou louco pra sair daqui e tomar todas”. Respondeu um colega.

Ficou preocupada. Quem faria o extra? Não podia e não queria ficar num horário que não era o dela, mas também não era bom se insurgir. Voltou ao seu caixa. As horas se arrastavam, as pernas ardiam, a coluna doía e já estava cansada da falsa educação. Faltando cinco minutos para às 17, viu o supervisor. “Ai, meu Deus. Tomara que passe direto por mim”. Parou nela bem no momento em que atendia uma cliente, e ela não pode nem responder nada. Só ouvi um murmúrio do qual apenas entendeu o essencial “...extra até as 10:00 da noite”, ao mesmo tempo que respondia mais um “boa noite, senhora”. Sentiu os olhos queimarem, a impotência de resistir, de dizer “não”. Ela atendia uma mulher jovem, talvez da sua idade, com uma menina pela mão, talvez da idade de sua menina. O carrinho ia cheio de compras, brinquedos, roupas, louças... Ela entraria em seu carro e em alguns minutos estaria em sua casa. Comeria a ceia feita pela empregada, enquanto a caixa se amassaria num ônibus entre outros caixas, vendedores, empregadas domésticas, donas de casa pobres e uma infinidade de pessoas, por mais de uma hora. E sabe lá quando chegaria em casa?

“É a vida”, “o sol não nasceu pra todos”, ouvia sua mãe, que ouviu de sua avó, a qual ouviu de sua bisavó. O sol nasceu para todos, mas o seu brilho varia de acordo com o cheque do cliente.

A moça se foi e muitas e muitas outras chegaram e se foram, e chegaram crianças, e senhores e senhoras idosas, adolescentes, jovens, engravatados, esportistas, militares, surfistas. “Sim, senhor”, “sim, senhora”, “sim, senhor”, “sim, senhora”. Ela já não olhava mais a hora, já não pensava mais na saída, os minutos eram um continuo, a noite era uma torrente que não se sabia quando cessaria. Sentiu-se qual um afogado, levado pela maré, vencido pelas ondas que lhe batiam.

Às 21 horas, todos saíram, e o shopping estava silencioso. O grupo de empregados foi se dissipando pelo corredor principal. Antes de chegarem à grande porta de saída, passaram pelas escadas rolantes onde a decoração de natal alcançava seu auge, com enormes pinheiros cobertos de neve, renas, trenó, gnomos do Papai Noel e um trenzinho cercado de neve e presentes. Ironicamente, o suposto dono da festa não estava presente. O presépio fora substituído pelo “bom velhinho”. Ficou parada por alguns instantes olhando, meio perdida... Neve no calor do Rio de Janeiro... Nada daquilo fazia o menor sentido, nada! E tudo era tão ridículo... O tumulto das compras, os sorrisos mecânicos, trenós e neve falsa, um enorme cenário sem qualquer sentido. Ela sabia que no próximo ano seria tudo igual: primeiro o dia das mães, depois dos namorados, depois dos pais e das crianças e novamente o natal, a coroação da corrente de consumo. Aqueles pensamentos surgiam em flashes e ela nem se dava conta direito.

Subitamente teve vontade de atirar o embrulho enorme e cor de rosa, que trazia na sacola – a casa da boneca mais badalada da indústria de brinquedos – no meio dos presentes falsos do trenó. Mas não teve coragem. O que diria à filha? O que deveria ter dito durante todo o ano a respeito de presentes, brinquedos, datas, solidariedade? O que, na verdade, ela ensinava a sua filha? Era tarde para remediar o mal feito. Entendia agora que ela também, de alguma forma, contribuía para a corrente. Mas os pensamentos surgiam e desapareciam como flashes.

Encaminhou-se para a saída onde o vigia a aguardava, impaciente por fechar o shopping. Agora, só pensava em pegar o ônibus. Dali a dois dias, tudo começaria novamente.

 

2.11.08

Almoço, macacos e hienas africanas...


Almoços de família são ocasiões lindas e sentimentais somente em filmes americanos, ou em seriados tipo Brothers and Sisters. De maneira geral, os almoços de família são sempre uma boa oportunidade para se lavar a roupa suja, para jogar farpas, para fofocar da vida dos outros ou expor os infindáveis planos futuros para os filhos ou os seus próprios. Naquela tarde de domingo, não poderia ser diferente. Helena engoliu em seco e entrou em casa, já estavam todos esperando por ela. Ela se sentia um peixe fora d’agua. Ah, água doce, ela ansiava sim era por estar de molho em sua piscina Tone de 2 mil litros no quintal de sua casa, ou em uma banheira de hidro, mas essa há algum tempo não curtia. ‘Vacas magras’, o marido dizia. Esperava o aniversário de casamento, esperava o dia dos namorados, mas as vacas estavam sempre magras... "Quando elas finalmente estiverem como ele quer, eu é que terei esquecido como é trepar!", pensava. "Trepar mesmo, e não aquela rapidinha antes de ir pro trabalho, ou aquela transa cansada quando a gente vai dormir".

Bom, mas Helena engoliu em seco e entrou na casa da mãe, a coitada estava na cozinha, mais de sessenta anos e ainda estava pilotando o fogão. Por que não contratava uma cozinheira, uma diarista, uma empregada, qualquer coisa? Não era a falta de dinheiro, mas sim a arraigada idéia de que era ela quem tinha que preparar o almoço, mesmo que fosse resmungando e pedindo ajuda a quem se aproximasse para as mais pequenas coisa como acender o fogo do fogão.

O pai com o rabo pregado na poltrona da sala, cerveja numa mão, controle na outra, e na tv um filme de “pau-puro” com um brucutu austro-americano dando porrada e explodindo Deus e o mundo. Ah, aquele seria um grande domingo!

Entou carregando Lia no colo e Rodrigo pela mão. "Cadê seu maridão?!" Foi a primeira pergunta. "Hum, levou trabalho pra casa, vai passar o domingo trabalhando". Que nada, Elton tinha era arranjado uns relatórios atrasados para terminar, algo que ele faria em menos de uma hora, como desculpa para ficar em casa e se livrar da ocasião familiar. Ele poderia ter ido pelo menos para ajudar com as crianças, mas nem o apelo a responsabilidade paternal o fez mudar de idéia: "Ah, não Lena, dá muito bem pra levar os dois, e eu tenho muito, muito trabalho... Além do mais eles precisam visitar os avós, tem quanto tempo que eles vão la, hei...?" "Uma semana." "Tá vendo, ó, muita coisa! Eu fui criado vendo meus avós quase todos os dias...” Ela não deu mais atenção ao discurso, pegou as crianças amarrou nas cadeirinhas e foi embora.

Nessas horas tinha uma vontade louca de fumar um baseado, um daqueles que ela consumia avidamente na época da faculdade... Bom, pelo menos pensar no baseado a fazia relaxar um pouco, pelo menos nos meandros de sua cabeça, bem lá no fundo ela ainda se dava o luxo de sonhar com um baseado.

Mas nem tudo no almoço de família eram lamurias. A parte boa era o bate papo com irmãs, tias a cunhada, pelo menos quando o assunto era homem e sacanagem, mas quando a coisa deslanchava para o lado das feminices, começava a ficar chato. "Eu gosto de passar", "eu gosto de conzinhar", "ah, roupa lavada na máquina não está limpa" – "essas mulheres so sabem ser donas de casa, não sabem ser mulheres" pensava e saia de fininho, ia para a área fumar um cigarro comum mesmo, e apensa no baseado...

Mas o ápice do acontecimento, o clímax ainda estava por vir. Era a hora do almoço, a hora da comilaça, o momento em que todos se encaram e põem as vísceras para fora. Ela jurou pra si mesma que dessa vez se comportaria, que não afrontaria ninguém com seu sarcasmo agridoce, que não retrucaria de língua afiada nenhuma afronta, que se comportaria como uma boa e educada mulher de quase quarenta anos e com dois filhos no colo – afinal tinha que dar o exemplo, afinal a proposta da ocasião era a harmonia e união familiar, afinal ela não queria estragar o resto do domingo que já era enfadonho, com gritos, grosserias e verdades atiradas nas caras uns dos outros feito nacos de carne a leões de circo. Sim, todos se pareciam leões de circos ou hienas da savana africana.

Helena sentou-se à mesa e escutou pacientemente as alfinetadas dos pais (meus Deus, como ainda estavam casados?!), as fofocas das tias, a gritaria das irmãs e seus filhos que não queriam comer, ou pelo menos não queriam comer como ‘gente civilizada’, preferindo jogar comida uns nos outros. Escutou com desdém as colocações políticas quase nazi-fascistas do pai a respeito da política econômica brasileira, dos índios que deveriam ser obrigados a prestar serviço militar, sobre a Colômbia e a Bolívia e que o país tinha que fechar as portas e viver da terra e do petróleo – “O Brasil é auto-suficiente”, “O Brasil é o país do futuro!!!”

Ignorou até mesmo quando o papo voltou-se para ela e o fato de ganhar pouco , de fazer serviço comunitário, e morar de aluguel ao invés de entrar num financiamento, de não ser casada de papel passado. Foi então que percebeu que estava na quinta caneca de vinho, entendeu o motivo de sua indiferença quase altista e entendeu porquê estava vendo todos feito macacos, perturbando uns aos outros e posando de oradores. “AH, MACACOS DE CIRCO, MACACOS ORADORES!!!!” Falou, elevando a voz e caindo na gargalhada. Ninguém entendeu nada e ficaram entreolhando-se meio perplexos enquando ela continuava a repetir enquanto gargalhava “MACACOS DE CIRCO, OS DOZE MACACOS, MACACOS ORADORES...”

Alguém a tirou da mesa, ou ela própria saiu andando. Quando acordou estava na rede da varanda dos fundos. A voz de Elton ao longe a deixou na dúvida se estava sonhando. Não estava, ele tinha ido buscá-la e as crianças.

Depois das despedidas, as piadas dos sobrinhos e o olhar preocupado da mãe, foi embora. No carro, Elton ainda fez troça dela e de sua dor de cabeça, sim porre de vinho dá dor de cabeça, e enquanto ele a sacaneava fazendo os trocadilhos e piadas mais infames que de tanto faze-la rir a deixavam com mais dor de cabeça, ela pensava ‘eu preciso é andar com uns baseado na bolsa, para ocasiões como essa. Pelo menos baseado não dá dor de cabeça’.

25.9.08

Meus Gatos...



Meus gastos nunca fizeram mal a ninguém, sempre foram dóceis, carinhosos, fiéis e amigos, criaturas socegadas. Tirando o Yok, que apareceu na nossa porta há uns dois anos, os outros não eram nossos, eles foram aparecendo, e eu apenas os alimentava, cuidava deles. Quando abria a porta de manhã e eles vinham logo comer a ração que eu trazia no saco. As vezes entravam e ficavam no braço do sofá da sala – a Cinza tinha esse hábito; o Yok tinha o estranho hábito de comer pão, ele adorava pão, a Tigrinha miava como uma desesperada por comida e depois que comia se refestelava em cima do carro do meu pai, ou no em frente a porta.
Na terça feira quando saí de casa eu os vi pela última vez. Ontem quando voltava pra casa tarde da noite, a Cinza não veio me receber como de costume, nem a Tigrinha que sempre aparecia pedindo comida; mas a Cinza estava “balaiuda”, cheia de gatinhos por nascer, eu imaginei que provavelmente ela estaria em algum lugar dando a luz (ou eu quis me convencer disso). Hoje quando acordei e estranhei a ausência deles, o silêncio - não vi nenhum dos gatos e o Yok, que estava dentro de casa, escapou para o quintal. O Yok não voltou, a Cinza não apareceu, nem a Tigrinha e só no fim da tarde eu achei a Siamesa, que eu tratei de guardar dentro de casa.
Pois é...Eles nunca fizeram nada de mal pra ninguém, mas encontraram alguém para lhes fazer mal. Meus gatos estão mortos, mortos por envenenamento. Eu não posso fazer nada, só posso chorar por eles e, se descobrir quem fez a maldade, denunciar a algum órgão governamental, mas acho que isso não dá em nada, embora pense que é fundamental fazer alguma coisa. Nada disso trás meus bichos de volta. Nada. Nada disso me deixa menos triste, principalmente quando penso no Yok, que tinha que ir hoje ao veterinário para fazer revisão, ou na Cinza, cheia de gatinhos por nascer, deitada no braço do sofá - acho que nunca vou esquecer essa imagem.
É nessas horas que eu acho que alguns seres humanos são assassinos em potencial, se não houvesse punição para o assassinato sairiam matando qualquer um que pisasse nos calos.






*Essa, aí ao laso, era a minha gata Cinza. Infelizmente, só hoje eu me dei conta que não tenho nenhuma foto do Yok.

7.12.07

Segunda...

Não precisou abrir as cortinas para perceber que eram mais de cinco da manhã. Luciano, pulou da cama ao ver a claridade. Tarde de mais! Seis! Seis horas! Tinha perdido a hora. O despertador não funcionou, ou talvez ele não tivesse mesmo escutado. Ficou sentado na beira da cama olhando para a janela...Estava a mais de seis meses sem emprego e toda segunda feira era a mesma historia: acordar às quatro da matina, engolir um café e qualquer coisa sólida que encontrasse na geladeira. Sair de casa antes das cinco geralmente em direção ao Centro da cidade, mas em qualquer canto que oferecesse emprego la estava ele, o primeiro da fila. Entretanto, naquela segunda, não acordou na hora, não conseguiu. Domingo saiu com os amigos e gastou os últimos reais que restavam do auxilio desemprego. "Porra, sou filho de deus! Preciso me divertir, tomar umas cervejas, trepar com minha garota!"
Foi pensando dessa forma que no domingo esqueceu do desemprego, da falta de grana e torrou o que tinha restado. Foi uma boa noite! Papeou com os amigos, levou a menina num motel mediano, coisa que não fazia desde que perdera o emprego, e deixou-a bem satisfeita, voltou pra casa no meio da madrugada e dormiu até as seis. Agora, olhando a claridade de mais uma segunda feira, entrando por sua janela, sem pedir licença, pensava: e agora? O que fazer? O que mais posso fazer?
Puxou um cigarro da mesa de cabeceira, acendeu, e ficou olhando e pensando. "Até você, meu amigo, terei de abandonar por um tempo..." Sorriu de lado com o cigarro no canto boca, achando graça do próprio pensamento. Mas em seguida ficou sério, pensando numa forma de arranjar dinheiro.
Dinheiro...Apenas um papel. Lembrou-se da história do dinheiro, que tinha aprendido na escola, em alguma série do segundo grau (ensino médio). Antes do dinheiro surgir, as coisas eram trocadas: 5 molhos de alface, por uma dúzia de ovos; uma dúzia de ovos por dois litros de leite; um litro de leite por meio quilo de batatas...O dinheiro, segundo o livro, surgira como um vale: uma moeda verde vale 5 molhos de alface, uma dúzia de ovos, dois litros de leite (um litro valia meia moeda verde) e um quilo de batata. Sendo assim, não era necessário ir ao verdureiro levando seus ovos, ou batas, ou jarras de leite, bastava levar o vale – moeda verde – e trocá-lo pela mercadoria. Quem ficava com a moeda verde, trocava-a pelo que precisasse e assim por diante. Pronto: assim surgiu o dinheiro! Um papelzinho que vale muitas coisas. Um papelzinho que foge quando mais precisamos; que temos que guardar no bando onde ele é multiplicado, mas nós não vemos esses lucros, quem os vê são os banqueiros, e os embolsam como pagamento por guardar nossos papeiszinhos em segurança.
Era desse papelzinho que Luciano precisava naquele exato momento. Tragou e soltou a fumaça. Ainda olhando a claridade.
Levantou e foi até a cozinha. A mãe fazia café. Levou um susto ao vê-lo entrar pela porta, descabelado, com cara amassada, sem camisa e cigarro na boca:
"Luciano? Pensei que já estivesse longe!"
"Perdi a hora..."
"Não acende esse troço aqui, sabe que detesto! Como perdeu a hora?! Não tinha que procurar emprego?"
"Sim..."
"Então?"
"Eu perdi a hora..." – disse pausadamente, de forma impaciente – "Há mais de seis meses que faço sempre a mesma coisa, toda segunda feira! Hoje, infelizmente, eu perdi a hora! Pronto! Só isso."
"E vai continuar sem emprego se perder a hora sempre..."
Luciano teve uma vontade louca de mandá-la a merda, mas controlou-se. Era sua mãe.
"Tem café?" Perguntou já olhando o bule e se servindo.
"Nossa que hálito! Agora entendi porque perdeu a hora! Credo! Por favor, não fique como seu pai, está bem!"
Ficou olhando a mãe parado encostado na beira da pia, muito sério, com o cigarro entre os dedos. Teve vontade de responder, mas a vontade morreu quando percebeu que aquilo se transformaria numa discussão para o dia todo, e ela estava pedindo por isso. Não para perturbá-lo, mas para desabafar toda frustração, rancor e tristeza que sentia pela vida que levava. Então ao invés de raiva, teve pena. Não sabia o que era pior, raiva ou pena da própria mãe.
"Que foi? Por que esta me olhando assim?"
"Nada, mãe...nada..."
Abriu a bica e apagou o cigarro. Jogou a ponta no lixeirinha da pia e seguiu de vagar para o quarto.
"O que vai fazer se não vai procurar emprego?" Gritou a mãe da cozinha atrás dele.
"Não sei...Vou ver..."
Bateu a porta do quarto. Sim o que faria nessa segunda feira tão incomum? Era uma boa pergunta. Talvez fosse visitar o pai. Não, essa não era uma boa idéia. Ele provavelmente só estaria de pé, após o meio dia, e ainda meio bêbado da noite anterior. Pensaria sobre isso. Tomou banho se vestiu e saiu, sem dar conta a mãe de onde ia. Ela sairia para o hospital em alguns minutos, e só estaria em casa à noite, mesmo.
Caminhou pelas ruas, sem perceber muito por onde andava. Era tão bom estar na rua, respirar. Sua casa era claustrofóbica. A mãe sempre cobrando, sempre reclamando...Ás vezes, Luciano sentia-se um peso para ela, outras vezes um apoio para suas frustrações, mas de uma coisa tinha certeza, ele estava longe de ser o filho que ela queria, simplesmente porque aquela não era a vida que ela queria.
Engraçado como as coisa são... As pessoas se casam, tem filhos, pra descobrir no meio do caminho que fizeram merda e, então, ao invés de dar um jeito – sei lá (...), aceitar a merda e tentar mudar d’ali pra frente –, não, se afundam mais na merda e levam quem não tem nada a ver. Ela era enfermeira, casou-se com seu pai, sabendo de seu vício. Ao perceber que tinha feito uma bobagem, separou-se, mas sentindo-se frustrada descontava tudo no filho, às vezes sob cobrança, outras vezes com brigas e comparações com seu pai. Luciano, respondia de forma irônica sempre. Essa era uma característica que herdara dela, e que usava contra ela, para defender-se e para ferí-la. Mas ultimamente, andava cansado desse jogo de gato e rato com a própria mãe. Já não era mais um menino e aquilo o cansava, não tinha necessidade de provar nada a ninguém, muito menos a ela. Ela que pensasse o que quisesse dele!
Saiu de seus devaneios quando percebeu que estava na frente da loja onde Roberta trabalhava e deu de cara com ela.
"Oi! Você aqui? Que houve? Não foi procurar emprego?"
"Não. Perdi a hora."
"Mas tinha um anúncio legal ontem. Não lembra?! Uma vaga de técnico em eletrônica..."
"Ah, Roberta! Por favor! Até você agora me cobra esse caralho de emprego?!" Disse sentando no meio fio. "Porra, minha mãe nem me deu bom dia hoje, perguntou o mesmo que você!"
"Desculpe...desculpe...Só achei esquisito você por aqui a essa hora."
"É...esquisito...Tudo bem!" Levantou e virou-se.
"Onde vai?"
"Sei lá...andar...O que mais tenho pra fazer?" Respondeu sem se virar para olhá-la.
Saiu andando. Perdera a calma com Roberta. "Cacete, por que ela tinha que fazer essa maldita pergunta?" Pensou. Já estava puto com a mãe, e agora Roberta!
Roberta trabalhava na loja de conveniências do posto próximo a sua casa. Não tinha nada a ver com o local. Tinha dois piercings nas orelhas, um cabelo pintado de preto e verde, e algumas tatuagens bem a mostra. Só ficou com a vaga, porque aceitou ganhar menos e precisava de um emprego. Qualquer emprego. A noite freqüentava um pré-vestibular. Não sabia que curso faria, só queria um diploma para trabalhar menos e ganhar mais. Ou, pelo menos, trabalhar menos. Eles se conheceram no Caverna rock, um bar onde tocava rock aos fins de semana. Roberta tocava – muito mal – guitarra numa banda de rapazes (o irmão mais velho e dois primos). Ela o chamou para bater papo e a noite terminou no quarto dele. Isso já tinha uns dois anos...Nunca pensou que ficaria tanto tempo com uma garota, mas ficara. Ela tinha muita personalidade e ao mesmo tempo uma doçura que o atraiu. Entretanto naquela manhã, ela conseguiu emputecê-lo. Pareceu sua mãe lembrando-o do emprego. Emprego, emprego, emprego!!!! Estudo, estudo, estudo...!!!! Ela também o cobrava, cobrava que estudasse. Dizia "Se não pelo conhecimento, pelo menos para arranjar um emprego melhor." Ele concordava – "Sim, vou fazer isso, ano que vem entro num curso" Mas o que adianta entrar num cursinho, sem saber o que vai fazer na universidade? Além do mais com o que ganhava não daria. O dinheiro seria todo para pagar o tal curso, como ficariam as despesas em casa? Então, prometia que entraria no cursinho, até pensava no assunto, mas a idéia acabava se perdendo na rotina.
"Vou ver meu pai! O velho deve estar bebum, mas, pelo menos, não vai me atormentar." Pensou. Caminhou, agora menos chateado e até mais animado com a perspectiva de ver o pai.
Tocou a campainha e ouviu a voz baixa perguntado quem era. Só respondeu o nome e ouviu o barulho do portão gradeado abrindo. O pai morava sozinho, no cento e um de um prédio velho de três andares. Separou-se da mãe de Luciano ha 10 anos, o menino tinha 12 na época. Não a maltratava, mas não parava em emprego nenhum, não pagava as contas e todo o dinheiro que conseguiam era para pagar o boteco da esquina. Ele nunca pagou pensão, alegou em juízo que não tinha condições e sua mãe acabou aceitando a situação – ah...como ela gostava de lembrar disso...Luciano, entrou, seu pai estranhamente estava na cozinha fritando ovos.
"Oi filho! Quer pão com ovo?"
"Oi pai!" Respondeu achando aquela situação muito estranha, pra não dizer bizarra. Andou até a cozinha e estacou no portal entre a cortina de contas meio espantado. Seu pai não apresentava sinal de bebedeira, muito pelo contrario, parecia bem sóbrio e ha bastante tempo. Fritava ovos com habilidade...
"Bom te ver, Luciano. Olha o seu ovo."
"Pai, posso perguntar uma coisa? O que é que houve contigo?"
"Como assim? Não houve nada, estou bem. Andaram dizendo que estava doente?"
"Não, não é nada disso...é só que...bom...não sei...você esta...tão....tão..."- Não sabia exatamente como dizer a seu pai que era estranho ele estar sóbrio antes do meio dia.
"Ah, sim. Estou sóbrio!"
"È, está" – disse Luciano, com um sorriso amarelo meio aliviado pela resposta do pai.
"Luciano, tem muito tempo que não nos vemos, hein! Estou freqüentando os alcoólicos anônimos, filho. Duas semanas sem beber." O pai virou-se pra ele sorrindo, colocando o outro ovo no prato. "Vamos comer?!"
Ele, talvez, pela primeira vez viu algo nos olhos do pai. Um brilho, uma vivacidade...Não sabia exatamente o que era, mas o emocionou ver aquilo, ver alguém dentro daquele corpo. "Meu Deus, não deixe que isso se perca." Pensou, de forma inconsciente e se surpreendeu ao perceber esse pensamento. Nunca pensava muito em Deus e nem lhe pedia nada.
"Sim, pai, vamos."
Os dois tomaram café conversando. O pai lhe contou sobre as duas ultimas semanas; como decidiu repentinamente freqüentar o grupo e que estava se sentindo muito feliz. Luciano também ficava feliz por ele. A última vez que conversaram foi para o pai lhe dizer que fumar maconha era "feio". Ah, sim, e uma outra, quando a mãe o pegou no quarto nu sobre Roberta, num dos melhores momentos de uma transa. A mãe exigiu que o pai o aconselhasse, já que esse deveria ser o papel dele enquanto pai e bla, bla, bla...O pai, lhe disse pra tomar cuidado, perguntou se a menina era virgem, e que tinha que ver com que garotas andava, e era necessário se prevenir...e bla, bla, bla....Tudo o que ele já estava careca de saber e mais algumas bobagens do tempo em que seus pais eram jovens...Ele escutava tudo fazendo cara de interessado. Mas para agradar o pai, que nessas ocasiões estava sóbrio, barbeado e com a roupa bem passada. E ele também não lhe dava lição de moral, apenas tentava fazer seu "papel".
Nesta segunda-feira inusitada, porém, a conversa foi outra.
"E você, como esta no emprego?"
"Pai...eu não estou...tem mais de seis meses que me demitiram..."
"Ah, que pena...Mais de seis meses?!..." Perguntou meio constrangido de não saber. "Mas você esta procurando, não é?"
Luciano teve vontade de perguntar por onde ele tinha andado, mas a conversa estava tão inusitada que apenas sorriu e respondeu.
"Sim, todas as segundas, saio pra ver os anúncios de domingo."
Terminaram o café, conversaram por mais um tempo e Luciano achou que era hora de partir...Despediram-se e ele ganhou a rua novamente. Ficou pensando sobre seu pai...A quanto tempo não ia ao apartamento dele? Provavelmente a mais e um mês. Será que a mãe sabia do tratamento do pai? Talvez sim, mas não disse nada porque não levou fé. Melhor, mesmo, ela deixar o velho em paz. Muito ajuda quem não atrapalha.
Caminhou, caminhou sem destino, dando voltas pelo bairro, andando por ruas onde já tinha passado naquele dia, ruas por onde ele passou a vida toda, pensou em ir a casa de algum amigo, mas todos estavam trabalhando àquela hora. Acabou indo parar novamente na loja de Roberta. Ela estava no balcão. Ele do lado de fora acenou. Ela o mandou entrar. Sinal que a chefe não estava.
"E aí?"
"Beleza..."
"Mais calmo?"
"Sempre tô calmo."
"Desculpa hoje de manhã. Não estava te pressionando..." – a voz dela agora, estava doce, suave...
"Tudo bem. Só passei pra te dar um beijo." Ele também suavizou a voz e o olhar.
"Sem beijos...olha as câmeras..." – ela indicou as câmeras com os olhos.
"Caralho, e tem isso!"
"Pois é..." Respondeu ela com um sorriso malicioso.Ela adorava provocá-lo.
"Mais tarde passa la em casa..."
"Vou sim..." ela respondeu com o mesmo sorriso malicioso.
Saiu sem beijar Roberta, mas feliz pq eles se veriam no fim da tarde. Ainda faltava o dia todo pra isso. Um dia inteiro ruminando uma forma de arranjar dinheiro, uma forma de arranjar emprego, o desejo de trepar novamente com Roberta. Ah, mas não restava outra alternativa, a não ser voltar para a casa. Retomou a caminhada, guardando as ansiedades num envelope imaginário...Deveria ser meio dia...
Chegou em casa, olhou os bilhetes da mãe na geladeira. Muitos pedidos, mas um bilhete peculiar. "Seu pai esta freqüentando o AA!" Ela já sabe...Bom, espero que não atrapalhe. E um outro: "Fiz um salpicão pra você". Era a forma dela pedir desculpas. Ele sorriu de lado.
Jogou-se no sofá... Ainda pensava no emprego...Andou durante toda a manhã, mas aquele pensamento estava enraizado em sua mente. O pior era a sensação de que todos pareciam achar que era falta de esforço dele, e, às vezes, ele próprio pensava assim. Era como um estigma, uma marca: desempregado=desocupado; marginal. "Ah, estou ficando paranóico!", pensou. Ficou ali parado fitando o nada por alguns instantes...Agora o sol já queimava, e não havia um canto da sala em que a luz não tivesse entrado e posto a nu. Era meio dia...sim...meio dia...Melhor controlar, não pensar e fazer o que a mãe lhe pediu. Na quarta tem novas ofertas de emprego, no próximo domingo também...levantou-se com o maço de recados na mão. "Bom, por onde começo?!"

24.7.07

O lugar dos mortos





Eu caminhava numa pequena e fina via. A minha volta, várias estátuas. Por mais que encarasse como obras de arte, minha cabeça não parava de me perguntar se gostaria de ser enterrada num lugar como aquele, ou num campo gramado como o Jardim da Saudade. Eu realmente não sabia e queria, mesmo, que aquela pergunta descabida saísse de minha cabeça. Fazia frio e ventava. Arvores magras agitavam seus galhos nus ou mal vestidos de folhas secas. Era bonito, muito bonito e triste. Lembrei-me dos cemitérios em lugares pobres, onde já tinha ido em enterros de amigos ou parentes. É engraçado. Na frente os menos pobres, ostentando lápides cuidadosamente limpas, ornadas com flores. Às vezes estão decadentes, meio quebradas, ou são revestidas de ladrilhos. Tudo que possa denunciar algum orgulho, algum bem. Há fotos de família, velhos, jovens ou crianças mortas. Fotos de trinta, cinqüenta ou cem anos. São amontoados de lembraças, glórias e pequenos orgulhos. Para os fundos, os mais pobres ou miseráveis. Um ou outro indigente perdido com uma cruz de madeira marcando o lugar. Esta parte sim é um grande mausoléu de desalentados, de existências desvalidas e esquecíveis. Formigas e escorpiões passeiam entre as tumbas ou no meio da terra revolvida. O capim lastra e de vez em quando, um dos poucos funcionários do cemitério arranca o excesso. Parece um lugar esquecido e inglório.
Entretanto, aquela terra onde eu, então, caminhava não era uma terra qualquer, onde os escorpiões e formigas fazem casa e banquete. Era a terra dos eleitos. Só tradicionais famílias estavam ali. E mais uma vez minha cabeça oscilava entre a contemplação do silêncio, que embalava o sonho eterno dos mortos, a beleza fria e tranquila daquele cemitério, e a indignação pela existência desigual de um lugar como aquele. Por que, até na hora da morte, os ricos têm o direito de dormir tranqüilamente sem o inconveniente dos bichos peçonhentos, sua casa é admirada e transforma-se em objeto de desejo dos vivos, ao passo que os pobres devem se resignar com a terra afofada por bichos escrotos.
Mas era uma visão linda, esteticamente linda. Eu seria capaz de sentar num dos bancos de pedra que decoravam o lugar e ler um livro tranqüilamente, numa tarde de sol. De escrever contos e poemas sob a sombra de anjos e santos de mármore. Sim, eu ja imaginava como seria aquele lugar em dias de verão, ou tardes de primavera, as arvores ostentando folhas verdes ou florindo. Mas ainda me incomodava pisar ali, como se eu fosse uma intrusa, principalmente por conta de, estivesse me rondando e me dizendo que não era certo perturbar os mortos com tais questionamentos. Entretanto essa minha cabeça que me perguntava onde queria ser enterrada, que guardava os ensinamentos da catequese, e questionava a ordem social do mundo, não podia se furtar a refletir sobre aquele lugar. Que me perdoem as autoridades celestiais, mas foi inevitável!
Depois de fumar um cigarro e me torturar com tais pensamentos – sim, reflexões são torturantes, pois nos conduzem a um beco sem saída, onde as respostas não nos satisfazem e no fim nos quedamos com mais perguntas, mas há um tempo na vida em que nos importamos em não achar respostas e então somos forçados e nos resignar - saquei a máquina e achei melhor deixar tanto a contemplação, quanto a indignação de lado e começar o trabalho.
Tive orgulho de minhas fotos. Realmente ficaram lindas. Mas nunca me saiu da cabeça o contraste entre aquele lugar e os cemitérios suburbanos. Tive a certeza do quanto o mundo e a vida podem ser tristes, cruéis e áridos, até mesmo na morte. Na verdade, havia muito da vida que se vive naqueles locais de morte.






22.5.07

Iluminação


Ele acompanhou lentamente o papel cair no chão. Lembrou de vários filmes que já tinha assistido, com cenas em que coisas caiam bem devagar e pela primeira vez na vida viu uma coisa cair bem devagar na sua frente. Foi um momento impar, único, em que a vida lhe passou pelos olhos como os filmes que ele já tinha visto, só que esse filme era seu. Ele viu os dez anos que passou ali, naquele trecho, lembrou do primeiro dia, o sol quente, e como todos os outros foram sempre iguais, sempre iguais vairando apenas se eram dias quentes ou frio, dias de sol ou de chuva. Os transeuntes, as meninas correndo no calçadão, turistas se atirando ao mar, embevecidos com um mar que nesse instante para ele não era nada de mais. O curioso é que nos dez anos que revia, aquele mar foi tudo para ele, era um sonho, seu sonho de Domingo, sair de sua casa na baixada fluminense e se atirar naquele mar que bainhava ricos, e pobres, gringos e conterrâneos, celebridades e a maioria desconhecida. Ele olhou aquele mar e este não lhe pareceu mais que uma grande poça cheia de gente deslumbrada! Onde esteve por tanto tempo? Por onde tinha andado? Será que tinha existido. Sentiu uma sensação estranha, como de alguém que estava vendado e de uma hora para outra lhe descobrem os olhos. A luz vem entrado de uma vez, acendendo tudo, invadindo os mais tênues espaços de escuridão, descobrindo tudo e ao mesmo tempo queimando, fazendo chorar. Ele agora se via, via o seu entorno e gostava de se ver, sentia um alivio grande, o alivio de uma pergunta que nem ele sabia que existia dentro de si, que so tinha percebido naquele instante, mas também sentia a frustração da realidade, da respos. A verdade que transbordava agora em cada canto escuro que se iluminou. Sua cabeça processava tudo que via, filtrava tudo que via em fração de segundos. E em segundos ele entendia seu lugar em tudo aquilo.
O papel parou no chão. Era uma pequena embalagem de bala, uma moça jogou após ele passar a vassoura. Ele viu o papel caindo, caindo. Não soube dizer porque a surpresa, pois já tinha visto isso acontecer outras vezes, mas naquele dia, ele viu de fato e foi então que as luzes. Viu que ninguém o via, e talvez nem ele próprio se via. Parou, olhou o entorno, olhou a praia, os prédios como gigantes lhe fazendo sombra naquele horário. O colega o fitou meio perplexo, sem entender o que estava acontecendo. Várias pessoas esbarraram nele na rua, algumas reclamaram outras nem se deram conta e prosseguiram. Ele tentou olhar no rosto de cada um que lhe esbarrou, mas não viu nada, não via nada, eles simplesmente o ignoravam ou desviavam o olhar. O colega se esforçava em varrer e juntar as folhas – teve vontade de rir, não sabia se de raiva ou achando graça do coitado, no dia seguinte fariam o mesmo trabalho, sob o mesmo sol e sob a mesma sombra dos gigantes. Seriam esbarrados pelos transeuntes a quem diriam um "desculpe" baixo, sem levantar os olhos e prosseguiriam a varreção, recolhendo papéis de balas de onde já haviam varrido. Era um trabalho inútil, repetitivo, idiota mesmo. Talvez ele fosse um idiota então, talvez por toda a sua vida fora tirado por idiota e se fez de idiota por não conhecer outro caminho, por não se conhecer. Deu uma última olhada ao seu redor, pegou a vassoura e recomeçou o trabalho inútil. O colega pareceu satisfeito por vê-lo retomando o serviço.
Segui para a casa. Ônibus, trem. Por todo o caminho percebia tudo, sentia tudo com clareza. Podia entender cada conversa mantida no vagão onde se amontoava com tantas outras pessoas. Conversas triviais do dia a dia. O vagão ia abafado, o cheiro de gente amontoada, do calor dos corpos, dos desodorantes borrifados em excesso para espantar o suor e o mal cheiro inevitável pelo calor. Tudo aquilo estava bem vivo para ele. Era como o primeiro dia – ou talvez o ultimo pensou.
Chegou em casa e encontrou os netos dormindo, os filhos vendo tv na sala, e a mulher na cozinha fazendo palavras cruzadas. Pela primeira vez a admirou por não compartilhar do entretenimento idiota que os filhos consumiam vidrados na escuridão da sala, etretenimento ao qual ele várias vezes tinha consumido e achava bobagem a mulher sempre reclamar tanto. Talvez ela ja tivesse tido se momento de iluminação antes dele - pensou. Sentou a mesa, comeu com vigor o prato que ela lhe serviu. Pela primeira vez percebia sua comida, o quanto era gostosa o quanto ela caprichava e elogiou. A mulher achou estranho, o marido não era de elogios. Deitaram-se e ele a procurou. Com vigor, mas em perder a delicadeza a possuiu, como nunca tinha feito. Conversaram sobre a vida, e sobre coisas que a muito não conversavam ou que nunca tinham conversado. A mulher achou estranho mas ficou feliz com aqueles momentos que estava passando, coisas que nunca tinha passado, e nem deu importância ao fato do marido estar diferente. Dormiram. E aquele escuro do quarto, o som da boca da mulher estalando um beijo na sua antes de dormir, foram as ultimas coisas que viu e ouviu. Fechou os olhos e rezou. Rezou de verdade e agradeceu a Deus, que ele naquele instante se perguntava se existia ou não, por essa clareza súbita, por perceber coisas que ele nunca tinha percebido. Ele não sabia como seria sua vida no dia seguinte, ele nem sabia se no dia seguinte estaria como naquele instante, mas agradeceu por essa oportunidade, sem deixar de perguntar porque isso só lhe acontecera agora e por quê isso lhe acontecera . E esses foram seus últimos pensamentos.





30.3.07

A filha do mar


Todos diziam que era estranha e por isso muitos a viam com desconfianças. Ela adorava a água, principalmente o mar. Talvez porque nasceu num regato. Sim, a mãe, já com nove meses bem vividos, pariu num regatinho quando voltava da lavagem de roupas. Não deu tempo de chamar ninguém, embora algumas mulheres, que lhe acompanhavam, os outros filhos tivessem corrido à aldeia para pedir ajuda. A mãe disse que a criança já nasceu nadando, e nem chorou. Todos acharam isso muito estranho e pensaram logo em mal agouro. O fato foi que nada aconteceu nos dias e meses após o nascimento da pequena e toda a aldeia respirou aliviada, concluindo que fora apenas uma cisma.
A menina foi crescendo, e sua ligação com a água se estreitava. Era capaz de ficar horas no mar ou nos rios e sua pele permanecia a mesma. Entre todos dos colegas, era a que tinha mais fôlego, e conseguia mergulhar mais fundo. Nadava a noite, à lua cheia, brincava na água. Conhecia todos os peixes e podia vê-los a luz da lua. Cardumes azuis, verdes, prateados, estrelas do mar, navios naufragados...Sua própria beleza se misturava a do oceano e de seus habitantes. Costumava sentar-se nos corais e de lá observar o trabalho dos pescadores na praia, a preparação das redes, os barcos entrando no mar prontos para abrí-lo, sangrá-lo...No que ela pensava? Ninguém sabia, só se sabia que nadava a lua cheia, sentava-se no banco de corais a observar a praia e andava pela cidade com um colar de conchas no pescoço e outro no tornozelo, das mais variadas que pegava na profundidade do oceano.
Era chamada "a filha do mar", para desgosto dos pais que já pressentiam problemas com a menina. Era provável que por conta de seu comportamento tão indolente e amalucado nunca arranjasse marido. Nenhum pescador pensava em aproximação com ela, embora todos a achassem muito bonita. Ela também não se interessava por esses assuntos, pois ainda era muito menina a pesar de sua beleza e de seu corpo que já começava a se formar. O que noutra situação deixaria os pais tranqüilos, despertava, agora, de maneira contrária, preocupação. Se não arranjasse marido seria um peso morto na família.
Até que passou por aquelas banda um desconhecido, um homem velho e mal pousou os olhos na menina a desejou. A desejou ferozmente, como um lobo deseja uma gazela, queria possuí-la, de tê-la, de deflorá-la. Demorou-se na aldeia mais tempo do que se podia esperar de um forasteiro rico. Em geral eles não só passavam, levavam um peixe ou tomavam uma pinga na venda. Ele andava pelas ruelas espreitando a menina, observando-a com olhos famintos e mãos nervosas. Todos na aldeia perceberam que havia algo errado naquela permanência tão longa, todos sabiam que tinha a ver com a "filha do mar", mas nada fizeram a respeito, na verdade observavam como espectadores ansiosos pelo próximo passo, pelo próximo capítulo, conjecturando por entre olhares e risos maliciosos. Olhares desejosos por trás da observação, como voyeres se deliciavam com aquela perseguição silenciosa, aguardando o espetáculo do desfecho. Outros, principalmente a mulheres diziam que era o que ela, com seu comportamento voluntariosamente diferente, queria. Os pais, fizeram vista grossa, finalmente havia a perspectiva da filha arranjar finalmente um casamento, ou talvez de alguma forma o forasteiro a levasse e sustentasse. Estariam livres de uma responsabilidade.
Até que numa tarde quando voltava para casa da lavagem de roupa, numa tarde amarela e quente de verão seus colares foram arrancados e suas conchas esmagadas, num casebre velho nas proximidades da aldeia. Ninguém a ouviu gritar, e chorar, e talvez se ouvissem fizessem ouvidos moucos. Sentiu dor da defloração, o medo e a humilhação de quem é agredida e estuprada sem chance de defesa.
O forasteiro sumiu sem deixar rastro e a noticia correu como um raio. Os olhares maliciosos rodavam de um para outro no bar, as línguas faiscavam de vivacidade, delirantes como chicotes açoitando a vitima, sorridentes entre uma lambada e outra. Sim quase toda a aldeia entre murmúrios e silêncios especulava, agora, qual seria a sorte da menina, qual seria a sorte de sua família, e sentiam um prazer extremamente humano com a desgraça alheia.
Ao chegar em casa, suja de sangue e com as roupas rasgadas, os pais lhe deram uma boa surra – por andar feito uma "puta", solta pela cidade, na certa isso provocou o homem. Rezavam a Deus que ela não pegasse barriga, pois seria mais uma boa a comer.
Ela não entendeu os motivos dos pais lhe surrarem, nem por que seu comportamento teria motivado o abuso, mas percebeu o quanto as pessoas podem ser cruéis e intolerantes. Então, a dor física passou a ser dor na alma, uma dor profunda e aguda para alguém tão jovem. E olhando o mar que cantava se batendo na areia ainda mais bonito em ondas mansas, de um azul profundo, teve vontade entrar. Ele era seu mundo, seu lugar. E foi assim que no fim daquela tarde causticante, em que entendeu muito da vida, mais, que se tivesse vivido uma vida inteira, ela desapareceu no meio do mar.
Os pais se arrependeram e choraram a morte da filha, foram consolados pelos outros aldeões que lhes diziam, "ela era mesmo filha do mar". A aldeia continuou existindo, prosperou, definhou e morreu, consumida pela especulação imobiliária, pelas grandes companhias de pesca e pela poluição. A menina nunca mais foi vista, seu corpo nunca foi encontrados, mas dizem alguns marinheiros que caíram ao mar, e náufragos, que puderam ver em algum momento de submersão, uma linda garota, ornada de colares e pulseira de conchas e coroada de estrelas do mar das mais variadas cores, brincando em meio a cardumes de peixes cintilantes.

7.1.07

"Por que temos que ver tia Vera?"

Ia dirigindo calmamente. A filha no banco de trás brincava de boneca, de repente fez a pergunta bombástica. “Por que temos que ver a tia Vera? Eu queria brincar na pracinha”. Ela não respondeu. Continuou no volante. Sim, por que tinham que ir ver tia Vera? “Porque é uma ocasião familiar!” Respondeu sua mãe, no dia anterior, quando ela fez a mesma pergunta que a poucos instantes a filha tinha feito.
“Você já esta tão distante...Nessas ocasiões pelo menos tem de aparecer!” A mãe era assim, dramática. Ela tinha se distanciado. É claro, se distanciou desde que começaram a falar mal dela quando ficou grávida. Sabia que a tia Vera, iniciaria o interrogatório de sempre: “Como esta o seu marido...como é mesmo o nome dele...Marcos, não é?” “Não é meu marido tia, a gente não se casou...” “Ah, claro é mesmo..Lembro que ele era músico, não é isso...E o negócio, engrenou? A Juliana, termina esse ano odontologia e já tem consultório montado.”
Seu estomago começou a doer, provavelmente não comeria nada nesse almoço. Teria que aturar os comentários e o olhar da tia, recheado com uma suposta piedade (o que não deixava de ser detestavel!), mas que na verdade guardava uma satisfação terrivelmente humana e cruel, de ver alguém se dando mal, de tirar alguém por fracassado. No fundo, bem no fundo, tia Vera se deliciava com a brincadeirinha de encurralar a sobrinha com tais indagações – sobre as quais, já sabia muito bem as respostas –, como um gato perseguindo um rato.
Por que tinha que ir nesse raio de almoço, então? Porque a mãe lhe pediu. Porque não fugiria das investidas infernais de tia Vera. Porque queria mostrar, que apesar de ser mãe solteira, do pai de sua filha ser um idiota que não dava notícias a mais de um mês, e ela ter de sustentar a filha e a si mesma sozinha, como tradutora e fazendo outros mil bicos, apesar de tudo isso ela não estava nem aí para o que a merda da família pensava! Não, não era por nada disso - nem pela mãe, nem por seu próprio orgulho. Era porque ainda mantinha o velho grilhão imaginário que a prendia a esse resto de família.
Se fosse por orgulho, o que a impediria de dar uma boa resposta a tia, quando esta a jogasse no beco sem saída de suas perguntas mordazes? O que a impediria de dizer: “pois é tia, é uma pena que eu tenha me formado em letras, não é? Mas nunca tive vocação pra ficar olhando a boca podre de dondocas fumantes e muito menos vocação pra puta, como a Juliana, que deu pra todos os coroas ricos da zona sul. Só assim ela conseguiu montar o consultório e sustentar essa cobertura no Leblon, porque seu salariozinha de merda de aposentada da prefeitura não dá pra tanto, não é?!” Sim, várias vezes pensou em dizer isso à tia, mas não podia. E por que não podia? Porque essa lógica familiar, que faz as pessoas perdoarem até o imperdoável, estava enraizada nela.
Antes de pensar na humilhação que faria a tia, uma sexagenária, passar, antes da certeza de que essa lavada de roupa suja não mudaria sua vida, nem mudaria a forma de pensar de sua tia, ou faria dela uma pessoa melhor, em resumo, antes de concluir que não faria a menor diferença na vida de ninguém, falava mais alto uma obrigação familiar. Uma cumplicidade muda, que permeava os relacionamentos, que segurava uma família. Romper com isso era desestruturar a instituição, por abaixo o castelo de cartas, e desestruturar sua própria vida, que se apoiava, em algum grau, na dependência psicológica desses laços já puídos. Percebia, claramente, que era tão hipócrita participando do teatro, quantos seus atores mais antigos. Quando é que esqueceria isso, quando é que se libertaria?
O carro parou na frente do prédio. Olhou para a filha, no banco traseiro. Ela ainda brincava distraída com a boneca. Um flanelinha já lhe fazia sinal para ocupar uma vaga. Ela olhou o prédio, se inclinou mais e mirou a cobertura. Piscou, rápido. Só tinha uma coisas a fazer: ficar ou sair. “É mãe, dessa vez não vai dar. Fico te devendo essa.” Deu marcha-ré, manobrou a Fiat e saiu pelo mesmo caminho que chegou. Desligou o celular, tinha certeza que a mãe ligaria. “Ah, não, amanhã a gente se entende.”
Dirigiu até chegar ao Leme e parou para beber água de coco. O barulho do mar, das ondas arrebentando na praia, a deixava mais calma, mais serena. Sentia-se leve agora. Olhou para filha, que tomava água no canudo com um ar solene. Passou os dedos nas bochechas da garota que lhe sorriu um sorriso banguela, largando o canudo. Aquele sorriso era tudo. “Não, ela não viverá essa hipocrisia, a menos que queira”, pensou. “Vamos à pracinha, filha?!” Seguiram felizes para o carro, era uma viagem longa até o Meyer. Atrás delas o mar, infinito, enorme, ainda se batia na areia.

20.11.06

Existências


Quando chegamos em casa, voltando da escola, tinha um mundo de gente no quintal, um carro de polícia e outro dos bombeiros na frente. Mamãe tinha metido um balaço na cabeça. A vizinhança toda estava la. Eu e minha irmã, no início não entendemos nada, mas senti meu sangue gelar, eu não queria chorar, queria saber o que estava acontecendo, queria na verdade ver que estava tudo bem, que ela só tinha passado mal, mas estava legal. Não, não foi isso. Ela tinha se matado. Meu pai falava com o policial no meio da sala. Ele tinha chegado minutos antes de nós. Estava muito sério, uma seriedade de medo, quando a gente tem medo e para espantá-lo ficamos sérios fechamos a cara. Papai estava assim e eu também. Eu só vi minha mãe no fim do dia seguinte, no enterro. Essa foi a ultima vez que a vi.
Aquela manhã, fora estranha. Mamãe estava feliz de mais, radiante como nunca estava. Muito diferente das habituais manhãs, quando ela sempre estava com olheiras, arrastava-se até a mesa, tomava café com o olhar perdido no nada. Nos é que a beijávamos e íamos para a escola. Quando chegávamos ela estava no sofá da sala ou em seu quarto deitada fumando. Era assim desde que me entendia por gente. Sempre voando, às vezes chorava convulsivamente. Tomava uns remédios, que hoje sei do que se tratava: antidepressivos. Nunca fizeram efeito nenhum. Até que um dia ela resolveu parar. Parar com tudo. A imagem que fui construindo através dos anos é que minha mãe estava feliz naquele dia porque finalmente tomou uma decisão em sua vida: decidiu deixar de viver. E estava feliz porque pelo menos isso ela faria direito. Estava feliz porque conseguiria dar uma resolução para seus problemas. Por isso estava arrumada, nos serviu o café, nos levou até o portão, nos beijou e mandou-nos para a escola. Por isso ela olhou pra gente com uma felicidade desesperada nos olhos. Nunca esqueci aquele olhar, e por muito tempo ainda me senti culpada por não perceber a loucura nele.
Os dias que se passaram foram pesados. Ficamos um tempo na casa de minha avó, ela não falava o nome de minha mãe, só dizia “a falecida”, revirava os olhos e batia na boca, como se dissesse algo que não devia. Eu e minha irmã, não falamos sobre o assunto, até que, uma semana depois, quando fomos dormir, minha irmã perguntou: “o que vai acontecer com a gente agora?” “O que vamos fazer?” “Ora, nada, continuaremos vivendo”, respondi. Eu não sabia o que dizer porque eu mesma me fazia essa pergunta ha dias. Naquela noite eu demorei a dormir. Sentia falta de mamãe e não entendia porque ela fez aquilo.
Por muito tempo eu senti raiva de dela. Era raiva, saudade, culpa, medo ...tudo junto. Minha irmã, eu não sei, talvez sentisse só saudade. Nessas horas eu queria ser como ela. Sentir saudade e só. Chorar até não ter mais forças e assim expulsar todo o sentimento ruim, toda mágoa, toda a dor, tristeza, desespero, tudo...E poder sentir só saudade de mamãe. Mas eu não era como minha irmã, eu era dura e queria ser forte, não queria ser vítima de nada, e para isso eu me distanciava das situações de dor.
Quando voltamos para casa, tudo estava diferente. A casa tinha sido pintada, cortinas e moveis trocados e o mais intrigante, não havia um retrato de minha mãe em lugar algum da casa. Era como se quisessem apagar a lembrança dela. Aquilo foi tão estranho, apagar a existência de alguém. Por que? Talvez quisessem nos poupar das lembranças, ma isso só vez aumentar mais minha angústia. Eu também comecei a temer falar o nome dela e ate pensar nela. Passei alguns dias com medo de dormir no meu quarto, era como se não fosse a minha casa. Nas horas que estava la dentro eu andava de um cômodo para outro, como se procurasse algo, ou fugisse de algo, por fim ia para o quintal e ficava la até anoitecer. E então voltava pro quarto que não era o meu, para um monte de lembranças e angustias que só eu sabia e não podia falar com ninguém.
Dois meses depois, papai nos apresentou sua “nova” namorada. Uma loura, alta bonita, colega da repartição, muito simpática e muito intima de papai para alguém que se acabou de conhecer. Eu e minha irmã nos entre olhamos e eu encarei meu pai o resto do jantar, ele ficou tão incomodado que logo levou a moça pra casa. Nunca conversamos sobre isso, ou qualquer outra coisa e a partir desse dia fui me afastando dele e só restou entre nos uma relação de obrigação entre dois indivíduos que são pai e filha e uma fina magoa que nós dois sabíamos o motivo. Alguns meses depois ele se casou com a loura, vovó não se cansa de exclamar que estávamos superando muito bem a tragédia e que seria ótimo uma mulher em nossa casa. Devia mesmo estar feliz pelo filho ver-se livre da maldita depressiva, reconstruindo sua vida.
O tempo passou... Passou rápido pra mim. Quando se tem 16 anos e a mãe se suicida tão, ou a gente pira, ou amadurece, ou segue vivendo esperando que um dia as coisas melhorem – minha irmã fez essa última escolha, eu na concepção do meu pai pirei. Fui estudar engenharia, numa época em que mulher não estudava isso, saí de casa e fui morar numa república, onde rolava de tudo e eu provei de tudo. Nesse tempo abandonei minha família, só tinha contado com minha irmã, que sempre foi meu porto seguro. Acho que somente ela eu considerava família, os outros, incluindo meu pai, eram parentes distantes e as vezes dispensáveis. Virei a vergonha deles e eles me esqueceram. Participei de tudo quanto foi ato contra a ditadura militar e quase fui presa uma dezena de vezes, só não participei de organização porque sabia que aquilo acabaria mal. No meio da faculdade mudei de curso e fui fazer jornalismo.
Dez anos depois de ter ido embora eu voltei a minha antiga casa. Era aniversário de 50 anos de meu pai e ele faria um jantar, eu não fui ao jantar, apareci na tarde do dia seguinte. A casa tinha passado por algumas obras eu só não sabia ao certo o que tinha mudado. A mulher de meu pai já não era tão linda e viçosa, engordara e na cabeça tinha cabelos brancos junto com a lourisse, me recebeu como sempre – sorriso de boneca de uma orelha a outra. Eu fiquei sentada na sala, enquanto ela ia chamá-lo. Existia um ar de decadência no ambiente, as paredes estavam mofadas e tudo cheirava a mofo, cheguei a ficar feliz por não ter ido ao jantar de aniversário, imagina, comer com um cheiro daqueles no nariz. Meu pai entrou em minutos, apoiado numa bengala – alguns dias antes tinha levado um tombo. Conversamos sobre a vida, ele me perguntou como eu estava, o que fazia e tal.
Por fim eu falei.
“Pai, eu vim ver como você estava, tem tempo que não apareço nem você aparece...” “E eu queria te pedir uma coisa. Quero as fotos da minha mãe.”
Meu pai pareceu engasgar, baixou os olhos, olhou para os lados, senti que ele diminuía. Ah...a velha magoa entre nós...Silêncio...
“Pois é pai, desde que ela morreu eu não vi nenhum retrato dela, imagino que você tenha recolhido e guardado, então ...”
“É só isso? Estão aqui.” Levantou, foi ao bufet que ficava na sala puxou uma gaveta e pegou um envelope gordo, pardo, muito velho e oxidado. Eu não acreditei que estivessem ali.
“Aqui esta.”
“Obrigada.” Eu não abri o envelope, não tinha coragem de abrí-lo. Na verdade estava em choque. Achei que ele me enrolaria, me daria uma lição de moral e tal...mas nada ele me entregou as fotos como quem entrega uma revista. Eu fiquei sem jeito, sem graça. Levantei apertei a mão dele e fui embora, sem dizer se voltaria e ele sem me pedir para voltar.
O pacote foi queimando na minha mão e eu não conseguia pensar em mais nada. Chegando em casa liguei pra minha irmã e pedi a Mirian que fosse no meu apartamento para abrirmos juntas o pacote.
Ela chegou duas horas depois e nessas duas horas eu recordei em flashes minha vida desde a morte de mamãe. Eu tinha 33 anos e não tinha superado aquilo. Fiz de tudo na vida, tentando fugir da dor, mas ela esteve presente em cada minuto de minha existência desde aquele fato. Eu via isso claramente agora.
Mirian e eu abrimos o pacote juntas e o que vimos foi uma sucessão de fotos de família e não só mamãe estava nelas, mas sim todos nós. Eram fotos de aniversários, festa de parentes, tios, amigos...Fotos de mamãe quando era muito mocinha....Nessas, ela parecia feliz, em outras já estava com o mesmo ar perdido de sempre. A cada foto que víamos, íamos recordando acontecimentos, recordando um tempo sem sombras, um tempo em que tudo era mais leve, um tempo em que éramos crianças e ainda não sabíamos muita coisa do mundo dos adultos, da vida.
Naquela noite, rimos e choramos muito, mas soubemos que uma página arrancada, e esquecida numa gaveta, estava sendo remendada e posta no lugar. Não havia mais lacunas no passado, pelo menos para mim. Eu procurei um terapeuta, o que já queria fazer a muito tempo, mas não tinha coragem, e assumi meu relacionamento com Cláudio, que sempre me pediu, mas eu negava com medo de me envolver com alguém.
Não sei onde mamãe esta, agora que a libertei. Sim ela sempre esteve comigo, durante quase vinte anos. Acho que agora ela realmente esta em paz. Eu ainda lembro do olhar dela, o último olhar. Não mais o interpreto como um olhar louco, ou me sinto culpada. Vejo-o como um olhar de despedida, de alguém que acha que será mais feliz morrendo. Eu ainda não entendo por quê ela pensou assim. Eu ainda sinto sua falta.
Obs.: minha mãe esta muito viva e é uma pessoa cheia de vida e otimismo. rs... É uma das pessoas que mais amo e admiro neste mundo.

12.11.06

A Caneta



Tinha acabado de receber a encomenda. Vinha de outro estado, de São Paulo. Uma caixa com as coisas de sua avó paterna. Não a tinha conhecido. A avó e seu pai haviam sido separados quando ele era uma criança. Então, não sabia quem tinha sido aquela avó. Há algumas semanas, recebera uma ligação, que na verdade era para seu pai. A partir de então, soube que tinha outra família, que vivia no interior de São Paulo e queria comunicar o falecimento de dona Olga. Foi uma tia quem ligou, comunicando, também, que enviaria alguns pertences, que dona Olga queria que fossem entregues ao filho perdido.
Achou aquilo tudo muito estranho. Uma avó que surgia do nada, de quem seu pai nunca havia falado. Enfim, já que seu pai tinha falecido, sua mãe, desde a separação, não se envolvia nos negócios dele e por ser filha única, ela assumiu a responsabilidade de receber a encomenda. Não pensou mais no assunto, mas, naquele instante, quando recebeu o pacote, pensou: o que será que tem dento?!
Deixou a caixa sobre a mesa. Tentou não dar muita importância, afinal o que poderia ter ali dentro? Velhos pertences de um velho fantasma. Sim, aquela avó era um fantasma. Era provável que fosse um fantasma até para seu pai, se este ainda fosse vivo. Por que ele nunca falou nada? Nunca comentou que tinha mãe? E se ele nem soubesse? Se tivesse sido abandonado? Não, isso não podia ser, ele tinha pai, ela viu as fotos do avô. Fazia todas essas especulações enquanto lavava a louça e percebeu que não sabia nada da vida de seu pai. Sentiu um respingo frio na perna, a pia entupira e transbordara, molhando o chão. "Merda de pacote!", pensou.

Passou a tarde na cozinha, limpando, lavando, arrumando, cozinhando, então, quando anoiteceu, e não havia mais nada o que fazer lá, foi até a sala. O pacote sobre a mesa parecia esperar por ela. Pensou: "não seja idiota, abra logo!". E pegou o pacote rasgando todo o papel, como se tivesse medo que ele escapasse de suas mãos. Arrancou o papel que cobria a caixa, quase com raiva e, por fim, abriu-a.

Uma caneta, apenas uma caneta. "Que porra de brincadeira é essa?" Olhou atentamente. Era uma caneta de metal, preta, pesada, lisa, velha, gorda, bonita, boa de pegar. Observou-a. Era tão lustrada, que podia ver seu reflexo. Dentro da caixa, só a caneta, nenhum papel. “Eu, hein! Velha louca! Nunca deu as caras e manda um presente póstumo ao meu pai: uma caneta velha!” De repente, a caneta desencaixou e de dentro dela caiu um papel amarelo. "Ai, meu Deus, o que será agora?"
Tinha uma inscrição:
"Meu filho, não te conheço, nunca vi teu rosto. Você era muito pequeno quando foi levado de mim. Hoje é teu aniversário e eu te comprei essa caneta. Ela ficará guardada, como todos os outros presentes que te comprei nesta data: brinquedos, roupas, camisa de time de futebol. Mas esse é um presente especial, pois, na idade que você tem hoje, é provável que já tenha se formado, que seja um advogado, um médico ou um professor. Feliz aniversário, filho! Te amo muito!”

Leu o pequeno bilhete com dificuldade. As letras eram pequenas e quase apagadas pelo tempo. Deveria ter, mais ou menos, uns 30 anos. Ficou olhando para ele, revirando, vendo se tinha alguma outra informação. Nada, não tinha nada. Ficou imóvel, calada, sem saber o que fazer. O que significava tudo aquilo? Por que seu pai e sua avó tinham sido separados, quando ele era tão pequeno? Ele não tinha ninguém, a não ser uma meia dúzia de amigos tão bêbados quanto ele. Diferente do que imaginou a avó, ele não se formou em nada, mal terminou o secundário, empregou-se numa repartição pública, na base da “peixada”, e foi tocando a vida. Conheceu sua mãe na repartição, casaram-se, tiveram uma filha e sete anos depois se separaram. Durante os sete anos de casamento, foram parar na delegacia mais de dez vezes, por conta das brigas entre eles. Após a separação, viram-se muito pouco, somente no fórum para acertar a pensão – que ele nunca pagou direito – e nos aniversários da filha. Foi consumido por uma cirrose, que o matou aos 55 anos. Mesmo assim, não tinha mágoa do pai.
Ele era divertido. Tinha paciência com ela, nunca lhe bateu, sempre ia às festas de aniversário. É claro que, na maioria das vezes, já tinha entornado umas pelo caminho, ou chegava no fim da festa.
Sorriu pensando nele. Nos últimos meses, não tinha sorrido muito. Tudo estava muito difícil e ela sentia-se sem eira nem beira, como um “João bobo” balançando sem direção. Por mais que não soubesse nada do passado de seu pai, ela o sentia mais próximo que sua mãe. Era como se tivesse perdido o melhor amigo. Percebeu que chorava. Nunca tinha chorado por ele, nem quando estava sozinha. Ficou imaginando: e se ele tivesse sido como a avó pensou? Será que sua vida seria diferente? Provavelmente, quem abriria esse pacote seria ele mesmo.
Mas e se ele não fosse o filho perdido de Olga? Como a família dela o tinha encontrado? Pelo bilhete, Olga não conhecia o filho e não possuía informações sobre ele. Por que, somente agora, depois da morte dos dois, ocorreu essa espécie de reencontro? E se tudo isso fosse um engano? Subitamente, teve medo de que alguém ligasse dizendo que tudo não passou de um equivoco. Então, quem seria seu pai? Novamente, cairia no abismo de um passado vazio. Ouviu um barulho. Era a mãe, rodando a chave na porta. Limpou a mesa, jogando os restos do pacote fora e guardando a caneta, com o bilhete, no bolso.
”Olá! Ai, meu dia foi um inferno! Fica cada vez mais difícil voltar pra casa. Ah, e a encomenda?! Chegou? O que era?”
”Só uma caneta, mãe, mais nada”. Caminhou para a cozinha e, antes que a mãe pudesse dar continuidade ao assunto, gritou: “Fiz panqueca e está quente, vamos jantar!”


Sim, elas ainda conversariam sobre o insólito presente durante o jantar, mas sua mãe logo esqueceria aquele episódio, como esquece tudo o que vê indo ao trabalho ou voltando para casa – os detalhes do cotidiano. Aquela história faria parte da rotina, que se apaga de minuto a minuto. Mas ela jamais esqueceria, guardaria aquela caneta e não contaria sobre o bilhete. Agora, conhecia uma parte da trajetória de seu pai, ironicamente uma parte que nem ele conheceu. Talvez esse passado, tornasse o presente menos áspero e apaziguasse a falta e a saudade que lhe era tão difícil deixar fluir. Aceitou a caneta como uma verdade. Sim, era melhor essa verdade que nenhuma outra, que o silêncio de um passado sem identidade, sem história.



Viviane Magalhães
Niterói, fevereiro/2006

24.10.06

Da paixão e muitos demônios


Isso aconteceu nos primeiros anos da escola de artes há muito e muito tempo. Ela chegou numa tarde, com pouco sol, dois dias após a publicação do anúncio. Um sobretudo e um vestido monocromático, verde água. Os cabelos, passando um pouco dos ombros, eram pretos e amarrados para trás. Não era uma mulher que chamasse a atenção a primeira vista. Não sabia a idade dela, devia ter talvez uns 25 ou mais um pouco, não sabia de sua profissão ou sua vida, com quem morava, se era casada...nada. Combinaram que ela chegaria sempre às duas horas. Era um horário bom para ambos. Para ele porque tinha bastante luz e poderia praticar após a soneca de uma hora após o almoço, poderia fica até duas ou mais horas observando e desenhando-a. Para ela: ? Ele não sabia. Ela somente disse que era o melhor horário também. O pagamento: pouco para uma profissional, o que ela certamente não era; a medida certa para um estudante.
Às duas horas do dia seguinte ela tocou a campainha. Ele não entendeu por que se sobressaltou e tinha as mãos suadas. Ela foi entrando, deslizando pela sala. Perguntou onde deveria ficar. Ele disse que ali mesmo. Seu rosto não tinha qualquer expressão e ele achou mesmo que era uma profissional, por conta da naturalidade com que tirou a roupa. Mas quando percebeu que ele observava seu corpo nu, pareceu se incomodar. Sua pele arrepiou, a respiração tornou-se rápida e nervosa, os seio incharam tornando os bicos salientes. Ela pareceu encolher-se e enrijecer. Houve um momento de um tênue constrangimento entre ambos e ele não entendia por que sentia-se constrangido, não era a primeira vez que desenharia um nu feminino. Tentou agir com naturalidade e pediu a ela que ficasse como achasse melhor. Ela então ficou de perfil contra a luz da janela, sentada sobre o divã com as pernas flexionadas, os cotovelos sobre o joelho, e os olhos fitando o nada. Uma pose tímida, mas ele podia ver os seios ainda salientes. Ela ficou nesta pose por alguns dias até ele terminar o retrato.
No fim de um mês, pode ver todo o corpo que ela tinha vergonha em mostrar. Não era esbelta nem proporcional. As nádegas, mais fartas que os seios, barriga levemente saliente, o sexo farto em pelos, sempre bem aparados. No dia em que a viu completamente nua, mais uma vez sentiu um constrangimento inconveniente. Ela já parecia mais descontraída, em seu rosto um leve sorriso, sua pele estava morna, tão morna que ele podia sentir mesmo de longe. Mas ela não o encarava e ele temia, mesmo, que ela o fizesse e não entendia o motivo desse temor, pois já havia visto várias modelos, ela não era a primeira.
Ele já observava seu olhar, seu jeito, a forma como chegava e se despia, o pudor disfarçado numa falsa naturalidade. Se perguntava no que ela estaria pensando enquanto ficava deitada despida, ou sentada numa cadeira ou no divã mesmo, com o olhar perdido, vagando, vagando... Ele chegou a odiá-la por manter-se sempre tão silenciosa, e nunca revelar mais que seu corpo e o olhar distante, sempre direcionado a qualquer objeto menos a ele. Sim, ela era capaz de olhar, por horas, uma parede lisa, mas para ele nada, nem um rabo de olho.
Irritava-o a indiferença e abominou a idéia de ter contratado uma modelo para praticar. Pensou em mudar o enfoque das poses. Deteria-se, apenas, em desenhar braços, pernas, pés, mãos, mas era mais forte que qualquer razão o desejo de desenhá-la inteira e nos mínimos detalhes.
Para castigá-la (ou lhe chamar a atenção), resolveu que iría usá-la como bem lhe conviesse. Já que durante toda a tarde seu corpo era dele, decidiu retratá-la em poses não mais delicadas ou casuais, mas eróticas, obscenas. Ela, tal qual seu papel de modelo, obedeceu às suas ordens e parecia, com essa indiferença, testá-lo e ele não sabia se era por maldade ou era a indiferença de todas as modelos. Sim, talvez ela tivesse aprendido a proteger-se da vergonha natural de expor-se a um desconhecido, sob a indiferença, e isso o matava, pois sabia que por esta razão, para ela, ele não era mais que uma parede lisa, um vaso ou um cinzeiro.
Em meses, ele já não conseguia disfarçar o desejo de encontrá-la todas as tardes. Ansiava pelo término das aulas e nem se importou quando foi o melhor da turma, em desenho de figuras humanas. Sim ele a desenhou com perfeição, mesmo sem vê-la. Ela estava em sua cabeça, em seus olhos, em suas mãos, ao riscar o carvão na tela.
Numa tarde, tentando respirar, a dispensou. Nem a deixou entrar no prédio, pediu que o porteiro a despachasse na calçada e acompanhou a conversa, da janela. Pensou ter visto seu rosto decepcionado, o que o deixou satisfeito, mas quando ela rodou os calcanhares e se foi, desaparecendo na esquina, sua esperança morreu. Não, deveria estar feliz por ter a tarde livre. Ele saiu e foi visitar uma de suas “amigas” e sua frustração, que ele não sabia explicar de onde vinha, mostrou-se mais viva quando não conseguiu terminar o ato. Não, ele só pensava em sua modelo, no seu olhar, em seu cabelo, a curva do pescoço, os ombros estreitos, os seios morenos.
Voltou pra casa aturdido e deixou-se cair na bebedeira. Dormiu sobre o divã em que ela se deitava todos os dias e sentiu seu cheiro. Quem era o dono desse cheiro naquela noite? Quem se deitava sobre aquele seio, quem o beija, quem se embolava em seus cabelos e entrava em sua umidade – a mesma que ele pensou ver um dia – e guardava seu gozo...Quem? Ele dormiu sentindo seu cheiro e chorando.
No dia seguinte, a recebeu como de costume. Ela retomou sua última pose: sentada com as pernas abertas de frente para o encosto da cadeira. Ele a retratava de perfil. Mas nesta tarde ordenou: “Não, de perfil não, olhe pra mim. Quero você olhando para mim” Ela baixou os olhos, piscou e engoliu em seco. Ele pensou perceber uma estranha confusão em seu olhar. “Algum problema? Quero retratar o seu olhar.” “Não nenhum problema” ela disse baixo. Virou o rosto, e o encarou. Seu olhar era de pedra ao passo que o dele era água, a pura água do mar, que vinha em ondas e mais ondas lhe salgando os olhos. Concentrou-se no desenho, e trabalhou no rosto e no olhar dela com empenho vital. Terminado, ele ficou observando...Por um longo tempo, olhou-a se vestir de vagar, visivelmente cansada...Já passava e muito das cinco da tarde e o sol morria. “Você esta dispensada” disse, lacônico. “Na sexta, venho no mesmo horário?” “Não, quis dizer que não preciso mais do seu trabalho.” Ela parou de vestir o sobretudo e olhou para ele, e agora ela o via – sim, ele sabia que ela o via. Agora ele era alguém. Ela pareceu confusa, meio surpresa e logo baixou os olhos. “Bom, eu também ia dizer que já arranjei um emprego e não poderia continuar com o trabalho no próximo mês” Um emprego...que emprego seria esse? Ele pensou em perguntar mas não o fez. “Bom, então está tudo certo, o pagamento adiantado...Obrigada pelo serviço” “Por nada”. Apertaram as mãos. Ele sentiu as dela, trêmulas e as suas, suadas. Percebeu o olhar dela buscando algo nele, a expressão que ele tanto procurou no dela, nos últimos meses, e nunca encontrou. A reação que ele procurou durante aquela longa tarde e ela não teve, ou maldosamente dissimulou. E, agora, surpreendia-se por não ter reação nenhuma também, de não saber o que fazer e se fechar no silêncio. Sim, em todos esses meses ele se fechou no silêncio. Ela deu as costas e sumiu no corredor.
Da janela, ele a viu chegar à calçada, a viu olhar para o apartamento, um olhar que ele não entendeu, que parecia procurar algo. Por fim se foi a passos curtos, que lhe pareceram tristes. Ele não sabia...nunca saberia...
Nem ela saberia que ele chorou aquela noite inteira e muitas outras, ainda, choraria. Nunca saberia de uma paixão que surgiu e morreu silenciosa, apenas expressa em telas, papel, carvão, nanquim, óleo e aquarela, que se diluía e reconstituía em tiner e linhaça a cada dia, cada semana. Ele acompanhou, pela última vez, seu corpo até a esquina, onde sumiu, e nunca mais a viu.

26.9.06

O fim


* Conto publicado em 21/07/2006, na revista eletrônica ZeroHum. Aqui o conto aparece corrigido e revisado.
Olhava a parede nua. Tinha tirado o quadro e colocado embaixo do braço. Ao bater a porta, tudo estaria acabado, dizia a si mesma. Ficaria para trás não somente uma casa, mas um passado, uma vida... sua vida. Não compreendia como pôde acabar assim. Aquela casa não lhe dizia nada e lhe dizia tudo ao mesmo tempo. No local do quadro, ficou uma marca. A marca era o antes. O resto da parede, os vários depois. Olhava o lugar, que um dia foi seu, e via somente um vazio igual ao seu coração: oco. Engraçado, como duas criaturas que eram tão ligadas tornam-se tão estranhas de uma hora para outra. O paradoxo do amor é o seu término. Todas as juras são negadas, e grandes momentos esquecidos, como notícia de jornal, que no outro dia já não serve para nada, coisa descartável.
Era melhor não demorar mais. Finalmente fechou a porta. Foi deixando tudo: músicas, livros, plantas, fotografias, dias, noites, palavras, todas essas lembranças soltas...tudo. Era o certo? Não sabia, mas sabia que não tinha mais como continuar. Chegando à calçada, luz. Foi bom sentir um feixe de sol, quente, batendo em seu rosto, como se a acordasse para o mundo. Deu os primeiros passos fora de casa, como uma criança que dá os primeiro passos sozinha. Um misto de medo e ansiedade a dominou. Continuou andando e olhou para trás, tal qual as crianças que aprendem a andar – olham para os pais como se pedissem instruções. Da janela do apartamento, ninguém a olhava, somente a própria janela parecia lhe dirigir um último adeus, e parecia tão triste, agora. Engraçado, como é fácil reconhecer uma casa vazia.
Sentiu uma quentura no rosto, que não era o sol. A quentura foi descendo pela bochecha até tocar o canto da boca. Melhor não olhar! Virou-se pra frente, então, e viu, meio embaçados, carros passando continuamente, pessoas andando, conversando... Velhos, crianças voltando da escola, cachorro vira-lata fuçando o lixo... E o sol, que brilhava manso, como todo sol de inverno, e parecia lhe esperar. Respirou fundo e continuou andando, com o quadro embaixo do braço e as malas nas mãos. O mundo não parou. Ninguém parou para vê-la partir e nem ela própria o queria. O mundo não parou e nunca pararia, nem ela pararia. Fez sinal para um táxi, entrou batendo a porta e, por fim, partiu, para sempre.
Imagem: "Outros caminhos" - Ilha do Fundão, 1999. Viviane Mag

9.5.06

Garrafas ao mar...barcos de papel...

O que adianta amar quem não te ama? 
É Sonhar com barcos de papel 
E jogar garrafas no oceano 
Boiando sem destino, ao léu 
Esforço em vão 
Triste engano 
E só restam linhas tortas 
Tristes linhas do que não foi 
Do que não se disse 
Do que não se viveu... 
Palavras ao vento 
Como barcos 
Como garrafas ao mar.. 
Palavras ao mar 
Frases tristes ao vento... 
O vento que tudo leva 
O tempo que tudo apaga...