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17.1.13

Algumas divagações sobre cenas de amor e um grande sucesso do cinema...

É tendência, há bastante tempo, que cenas de amor sejam explícitas. Explico: por explicitas quero dizer, cenas em que o desejo deve ficar bem claro para o espectador, o que se traduz em cenas de sexo, ou mesmo cenas sem sexo, mas quentes e explicitas pra não deixar a menor duvida que os personagens vão transar ou estão transando. É quase impossível ver um filme, sobretudo filmes norte-americanos, em que o desejo e o sexo estejam na cena sem estar explicitamente na cena. Porém, não estou falando de algo inexistente.

Há cerca de um mês revi, mais uma vez  O Caçador de Androides - 1982. Toda vez que vejo esse filme, percebo algo diferente. Alguma coisa nos ambientes, nos personagens, nos diálogos. Dessa vez percebi duas coisas: Rick Deckard, o protagonista, perde espaço para seu antagonista Roy (interpretado de maneira excelente por Hudger Hauer). E não é apenas pela antológica cena em que Roy está morrendo em meio a chuva, mas sim, porque Roy tem uma força absurda, é um personagem forte, aterrorizante em sua frieza e força descomunal, mas ao mesmo tempo fascinante e comovente em sua luta por mais algum tempo de vida. Através dele é que refletimos sobre o quanto a posição dos andróides é injusta na mundo criado por Philip K. Dick e reinventado para o cinema por Ridley Scott. Refletimos sobre o que é ser humano, ou não humano e tal. Mas essa reflexão não vem a tona apenas no fim do filme, ela o perpassa totalmente através da figura de Roy e os demais replicantes. É impossível não se identificar e se comover com a ânsia de vida deles.

A segunda observação tem a ver diretamente com a introdução deste texto. A cena em que Deckard e Rachel ficam juntos é uma das mais quentes do cinema, mais cheias de tesão, sem entretanto ter mais que uns dois beijos e o peito semi nu de Harrison Ford. O tensão sexual entre os personagens está insinuada na cena através da música, dos olhares, da forma como a câmera passeia lentamente de um personagem para o outro, no visual de Raquel que pouco a pouco vai se soltando e deixando o ar formal e austero para revelar feminilidade e ao mesmo tempo fragilidade - o medo de se envolve com aquele que pode ser seu algoz. Com todos esses elementos a cena vai crescendo e explode quando os dois finalmente se beijam e se tocam. É uma cena cheia de sensualidade e tesão e o mais interessante, sem ter nu nem aqueles beijos que mais parecem um desentupidor de pia. Uma prova de que não é necessário ter apelo sexual para uma cena ser altamente sensual e por isso ser uma cena bonita.

*  *  *

O filme Caçador de Androides (Blade Huner) e uma obra baseada no livro homônimo do escritor norte-americano Philipe K. Dick. Filmado por Ridley Scott em 1982, conta a história de um caçador de recompensas que vive de caçar androides (seres humanos projetados em laboratórios, para servirem como trabalhadores, com tempo de vida determinado) num futuro onde a terra foi destruída por uma guerra mundial, quase todos os animais foram aniquilados e possuir um animal verdadeiro é um simbolo de status social. Ridley Scott encaixou essa historia num ambiente noir futurístico, o que ficou muito, muito bacana no cinema. Quem leu o livro, como eu, acha que o filme ficou muito aquém do esperado, tanto pelo retrato do ambiente, como pela própria adaptação da história. A terra descrita por Dick era mais destruída, mais decadente; a questão social de ter um animal verdadeiro é um dos eixos ao redor do qual a história se desenrola, é por essa razão que Deckard aceita caçar os quatro androides fugitivos, além de Deckard ser um personagem de maior peso que os androides.  Eu, ao contrário dos aficionados pelo livro, achei o filme ótimo. Talvez por ter visto primeiro o filme e só muitos anos depois ter lido o livro, por ele ser estrelado por um dos meus atores preferido à época, ou simplesmente pela originalidade do argumento e pelo ambiente criado por Scott. Entendo que mudanças tinham de ser feitas para o que o filme ficasse interessante do ponto de vista comercial, ou seja, tinha que vender. Scott fez isso mas sem perder a mão, sem perder de vista que um filme comercial também pode ser um filme autoral, original, arte.

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Filme: Caçador de Androides (Blade Runner)
Ano: 1982
Direção: Ridley Scott
Elenco: Harrison Ford (Rick Deckard); Hudger Hower (Roy Batty); Sean Yang (Rachel); Pris (Daryl Hannah).




Livro: Caçador de Androides (Do Androids dream of eletric ships?)
Ano: 1968
Autor: Philip K. Dick
Editora: Roco

15.3.11

O Câncer e a vida...

Hoje a tarde li uma matéria na Época muito interessante. Era sobre um livro escrito por uma joralista norte-americana sobre uma mulher, Henrieta Lacks, cujas celulas cancerosas colhidas há sessenta anos no hospital John Hoppikins, se multiplicam até os dias atuais. Henrieta tinha câncer no útero, procurou o hospital John Hoppikins pois era o único em 1951 que atendia negros - em uma ala específica para "pessoas de cor". Lá diagnosticaram câncer, colheram algumas células e deixaram que elas crescessem em laboratório - há tempos os cientistas daquele hospital tentavam cultivar células humanas mas elas morriam em alguns dias. As células cancerosas de Henrieta eram diferentes, não so resistiram como crescerem com todo vigor e tornaram materia prima para uma infinidade de estudos.
Já Henrieta não teve a mesma sorte que suas células cancerosas, muito pelo contrário, nos meses seguintes a descoberta ela só piorou e sofreu uma metastase, morrendo em novembro de 1951. Seu câncer era tão agressivo que nem os mais fortes analgégicos, aqueles produzidos a base de ópio conseguiram evitar a dor. Durante a autópsia, mais células foram retiradas do corpo de Henrieta,  mas estas não sobreviveram - especulei, ao ler a materia, que provavelmente estavam sofrendo o efeito da radioterapia aplica.
A história de Henrieta não acaba ai. Ela não era apenas um numero ou dado. Ela tinha 31 anos, cinco filhos e o destino dessa família não foi dos melhores. Em 1973, quando foi revelado a comunidade cientifica a identidade da dona das celulas cancerosas, vários cientistas foram procurar seus descendentes, para colher amostras de sangue. Eles viviam na mais profunda miséria. A própria autora do livro demorou cerca de dez anos para obter a confiança dos familiares de Henrieta. Apesar das células provenientes do tumor que matou Henrieth serem usadas até hoje em estudos até mesmo sobre a aids, e pelo fato de terem proliferado de maneira super agressiva, o que desperta a curiosidade e o assombro até mesmo de uma pessoa leiga como eu, sua família nunca recebeu nenhum apoio financeiro, nada, absolutamente nada.
Varias coisas me passaram pela cabeça quando li esse artigo. Primeiro: quero ler esse livro. Segundo: pesquisa interessante! Terceiro: nada nessa vida é natural, a não ser o câncer.
Henrieth vivia em Baltimore mas nascera em Lacks Town (Cidade Lacks), uma cidadezinha do sul norte-americano, onde vários descendentes de escravos pertencentes a familia Lacks, viviam. Seu marido era um primo. O destino de Henrieta e sua familia estava marcado pelo passado escravista, pela descriminção racial, pela violência e intolerancia, que se traduziram ao longos dos anos em poucas oportunidades e sedimentação da idéia de que os negros não podem e nem devem tentar ter ou mesmo almejar uma vida no minimo digna. Os Lacks brancos tiveram amplas oportunidades, seus filhos frequentaram bons colegios e sua descendencia tem pelo menos uma vida decente. O mesmo não se pode dizer da descendencia de Henrieta.
No Brasil, embora o preconceito racial não seja violento, a maior parte da população pobre é negra e/ou mestiça. A maior parte desta população pobre trabalha em serviços braçais ou que não exigem alto grau de escolaridade. A idéia de melhoria de vida através da educação que abriria a porta para um emprego melhor, muitas vezes, nem passa pela cabeça dessas pessoas, pois frequentar uma universidade não é coisa de pobre, ainda mais pobre preto, é coisa de gente rica e branca. E assim, sob essa mentalidade, tão preconceituosa como a dos norte-americanos, gerações e geraçoes vão se formando.
Essa mentalidade excludente que permeia todas as esferas sociais é mais cruel do que a própria violência física, porque ela disciplina, direcionada e condena as pessoas a ocuparem eternamente um único espaço na sociedade porque elas próprias não se vêm fora daquele espaço pré-determinado. É uma prisão dentro de si mesmo e não termina em uma so pessoa, alcança gerações e gerações.
Só o câncer na vida de Henrietah foi algo natural, não provocado, algo estúpido, monstruoso que apareceu expontaneamente em seu corpo e a matou. Mas a miséria de sua familia, o fato de ter sido esquecida pela história e pela sociedade, a monstruosidade e a agressividade a que foram submetidos física e psicologimente por serem negros, não,  nada disso é natural.




A vida imortal de Henrieta Lacks
Cia das Letras, Rio de Janeiro
2011

20.11.10

Eu, Robo

Há cerca de um mês terminei de ler Eu Robô. Eu Robô é um clássico da ficção cientifica escrito há mais de cinqüenta anos por Isaac Asimov. O livro é composto de uma série de contos sobre robôs, o fio condutor é Susan Calvin, robopsicanalista, uma psicóloga especialista em robôs. Através das entrevistas e histórias contadas por Susan a um jornalista, que deseja escrever sobre o passado dos robôs, suas origens antes deles dirigirem a terra, conhecemos o universo imaginado por Asimov. 
Sim, leitores, o livro parte de um futuro onde a terra é completamente dirigida por robôs e faz uma viagem inversa, através das histórias narradas por Susan, entendemos como os robôs começaram a se relacionar com os humanos, como os humanos foram deixando cada vez mais a responsabilidade sobre os rumos da humanidade nas mãos dos robôs. Isso só foi possível através do desenvolvimento de um cérebro que nada tem de rudimentar, um cérebro que dá a cada robô uma determinada personalidade. 
O livro é maravilhoso e o universo criado por Asimov é perfeitamente crível. Não, os robôs dominam o mundo mas não através de uma grande guerra, como em “O exterminador do futuro”. O ano de 2070, imaginado por Asimov, não tem nada de catastrófico, nada de feio, nada de destruição, mas há algo de trágico no ar. Talvez a percepção objetiva e clara de que a Terra está melhor nas mãos de robôs que dos próprios seres humanos.
A forma como Asimov escreve é simples, desprovida de muitos devaneios filosóficos sobre a humanidade, entretanto, é um convite à aventura e um tremendo quebra-cabeças de lógica. Em cada conto, com exceção do primeiro e dos dois últimos, Asimov nos apresenta verdadeiros problemas de lógica, jogando com três regras lógicas básicas: as três leis da robótica. Dentre os contos em que os problemas de lógica dão o tom do suspense, os dois melhores são Brincadeira de pegar e O mentiroso. 

Isso e mais o futuro imaginado por Asimov para a humanidade o diferencia de dois autores de ficção cientifica que eu gosto muito e que já escreveram clássicos: Ray Bradburry e Phillip K. Dicken. Bradburry, que também escreve livros sobre histórias fantásticas, utiliza a ficção científica como crônica de sua época e como crônica do comportamento humano. Dicken viu a Terra decadente e destruída pelas mãos do próprio homem. Asimov vê a terra resplandecente, calma e feliz sob a direção e domínio de robôs, para o bem dos seres humanos: pouco dramático, mas amargo e irônico. De maneira geral, o livro é fácil e rápido de ler. Dá uma vontade danada de ler os outros livros sobre robôs escritos pelo mesmo autor.

26.8.10

Uma jangada...




"Mas, não podendo o sempre durar
sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade
moderna, bastou que nestes dias, a centenas de quilómetros
de Cerbère, em um lugar de Portugal de cujo nome nos
lembraremos mais tarde, bastou que a mulher chamada
Joana Carda riscasse o chão com a vara de negrilho, para
que todos os cães de além saíssem à rua vociferantes, eles
que, repete-se, nunca tinham ladrado. Se a Joana Carda
alguém vier a perguntar que ideia fora aquela sua de riscar o
chão com um pau, gesto antes de adolescente lunática do
que de mulher cabal, se não pensara nas consequências de
um acto que parecia não ter sentido, e esses, recordai-vos,
são os que maior perigo comportam, talvez ela responda,
Não sei o que me aconteceu, o pau estava no chão, agarrei-o
e fiz o risco, Nem lhe passou pela ideia que poderia ser uma
varinha de condão, Para varinha de condão pareceu-me
grande, e as varinhas de condão sempre eu ouvi dizer que
são feitas de ouro e cristal, com um banho de luz e uma
estrela na ponta, Sabia que a vara era de negrilho, Eu de
árvores conheço pouco, disseram-me depois que negrilho é o
mesmo que ulmeiro, sendo ulmeiro o mesmo que olmo,
nenhum deles com poderes sobrenaturais, mesmo variando
os nomes, mas, para o caso, estou que um pau de fósforo
teria causado o mesmo efeito, Por que diz isso, O que tem
de ser, tem de ser, e tem muita força, não se pode resistir
-lhe, mil vezes o ouvi à gente mais velha, Acredita na
fatalidade, Acredito no que tem de ser."

Retirado de "A jangada de pedra". José Saramago.)

7.8.10

Lendas e Mistérios do Rio...


Terminei de ler há algumas semanas o livro Tesouros do Morro do Castelo - Mistério e história dos subterrâneos do Rio de Janeiro, de Carlos Kessel. Não preciso dizer que fiquei fascinada, pois tudo que se relaciona com o passado do Rio me atrai. “Tesouros...” é um livro pequeno e fininho se comparados a outras obras historiográficas. Versa sobre uma antiga lenda que povoou o imaginário dos cariocas, desde os tempos em que os jesuítas foram expulsos do Rio (1759): a de que os jesuítas teriam deixado para trás um grande tesouro no subsolo do Colégio dos Jesuítas, cede da Cia. de Jesus no Rio. O subterrâneo do Colégio abrigaria amplos salões e galerias as quais os ligariam entre si e que também funcionariam como saídas secretas que ligariam o Colégio a outros pontos da cidade. Nestes salões, os jesuitas teriam escondido o capital acumulado pela Ordem no Rio; com a repentina expulsão ordenada por Pombal, em 1759, esse tesouro teria ficado escondido e esquecido.
A viajem de Kessel pelo pelo imaginário do Rio Antigo, começa com um bilhete de Nominato José de Assis, um advogado mineiro, datado de 1863, solicitando ao marques de Olinda que interviesse junto às autoridades imperiais para que lhe fosse consedida permissão para levar adiante uma empreitada: escavar o subterrâneo do Morro do Castelo, com o objetivo de achar o tesouro deixado pelos padres jesuítas. A partir de então, o autor nos guia numa viagem que vai desde o século XVIII, quando os jesuítas são expulsos por Pombal, até a reforma urbana de Carlos Sampaio, em 1922, que terminou com todo o morro do Castelo. Nesse trajeto através do exame e cruzamento variados tipos de documento Kessel narra como tal lenda se construiu no imaginário coletivo dos cariocas entre o fim do século XIX e início do seculo XX.
É um livro delicioso, com uma escrita leve que instiga a imaginação do leitor comum – impossível não ficar intrigado com a história de uma lenda que, a medida que o autor vai apresentando as “pistas” de sua “investigação”, bem como os “personagens”, torna-se cada vez mais envolvente despertando a curiosidade do leitor levando-o a torcer para que ao menos uma moeda de ouro fosse encontrada, ou mesmo algum dos salões, ainda que desde o início fique claro que trata-se de uma lenda. Além disso, o livro é cheio de glosas que explicam ou esclarecem um pouco mais sobre personalidades políticas e intelectuais da época, lugares, acontecimentos, monumentos e publicações; ao optar pela glosa, o autor deixou o livro mais dinâmico pois o leitor não precisa consultar tantas notas de roda ao pé, nem no final do livro, ele pode ler o cometário ou explicação no momento em que leu sobre determinado assunto de que trata a glosa. A presença de imagens por todo o livro e não somente numa pequena parte ajuda dar uma dimensão material da época que está sendo investigada – os lugares dos quais o livro fala, documentos e personalidades ganham uma certa materialidade, ao tornarem-se visíveis, saindo assim do terreno da imaginação e da abstração. Esse conjunto de elementos faz com que a leitura seja mais fluida e evita o academicismo sem, no entanto, cair na velha armadilha de tentar romancear a escrita da história, o que muitas vezes resulta em arestas soltas e numa sensação de superficialidade. Ao mesmo tempo, o livro dialoga também com o público acadêmico ao expor o embasamento teórico que guiou a pesquisa e a maneira como o autor dialogou com as fontes, o próprio tema explorado, uma otima leitura principalmente para os alunos de graduação que estão dando os primeiros passos na pesquisa. Ou seja, é um livro fluido, leve, gostoso de ler, mas sem superficialidades, conseguindo comunicar os resultados de uma pesquisa muito bem feita, bem amarrada, de forma compreensivel ao público comum.
Para finalizar, o acabamento do livro é muito bonito. O projeto gráfico da capa mescla partes de fotos, mapas e imagens pintadas do Rio Antigo, o miolo é em papel couché, e a diagramação (distribuição dos elementos nas páginas), tanto da capa quando do miolo, é perfeita tornando a leitura bastante agradável.
Em fim, para os apaixonados pelo Rio e para aqueles que querem conhecer mais sobre a cidade, ou mesmo para aqueles que adoram contar ou escutar um conto, ou, ainda, para aqueles que curtem descobrir como surgem as idéias, Tesouros do Morro do Castelo é diversão garantida.

Tesouros do Morro do Castelo
103 paginas.
Carlos Kessel
Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro, 2008.

3.3.10



Li em dois dias o livro "O Seminarista" de Rubem Fonseca. Não curto esse tipo de literatura e nunca li nada do Rubem Fonseca, apenas assisti Bufo e Spalazani, que foi um filme bom, mas nada de espetacular. Então, quando minha irmã me emprestou o livro, foi uma nova experiência literária, e não foi ruim.
O livro trata de um assassino profissional que se aposenta (ou tenta se aposentar). O que torna a história interessante são os personagens, tipos comuns, com manias e paranóias; isso dá um tom cômico, um certo humor negro livro. O ritmo rápido da narrativa torna-o atrativo principalmente para aqueles que não gostam de ler - esse não é o meu caso, mas é o caso da minha irmã! - e Fonseca é muito bom em armar situações intrincada transformando a história num labirinto de suposições que, num certo momento, deixam o leitor tão perdido quanto o próprio personagem.
O texto flui muito bem a gente não tem vontade de para mais de ler. Apesar disso tudo O Seminarista tem um ponto fraco: algumas situações ficam mal explicadas, mas eu não vou contar quais porque se não estarei contando muito do livro e aí estraga a leitura para os que desejam fazê-la.
Ah, e foi facil notar a semelhança com o universo de Bufo, mesmo o filme, também cheio de personagens estranhos. Essa me parece ser a marca registrada de Rubem Fonseca.


O Seminarista
Ed.Agir
Rio de Janeiro, 2009.
181 paginas.

29.7.09

Saramago, Tweeter e "1984"



Esta semana, ao ler a entrevista de José Saramago ao Globo, falando sobre o livro com os artigos publicados em seu blog “Caderno de Saramago” (que eu costumo visitar), lembrei-me de “1984” de George Orwel. A história de Orwel se passa no ano de 1984, o mundo está dividido em dois pólos, que vivem em guerra um com o outro. Winston Smith, protagonista do romance vive no pólo oriental – clara referencia a guerra fria – que não é exatamente a ex-União Soviética, mas sim a região do mundo que compreende parte da Europa, domina pelo regime do "Grande Irmão", que a todos vigia através da super-tela, uma tela que existe em todas as residências dos membros do partido, para vigiá-los. Qualquer deslize é punido até mesmo com a morte. Smith, vive insatisfeito, imagina que existe uma resistência e vive um romance secreto com uma jovem também membro do partido, mas que odeia o sistema tanto ou mais que Winston e sempre burla as regras, entre as quais praticar sexo fora do casamento – Smith é casado, embora não viva com a mulher. No regime do grande irmão não é possível nenhuma expressão de individualidade, de existencialismo, nem mesmo é permitido escrever num diário, e existe até mesmo um novo idioma, a novilíngua, que se caracteriza pela supressão de palavras. Foi justamente quanto se fala da nova edição do dicionário da novilingua que compreendi que o significado das palavras é único e se configura como a própria identidade da palavra. A palavra mal, não é simplemente alguma coisa que não é boa, mal remete a uma série de significados e imagens, são esses ícones que dão identidade a palavra.



Por que a entrevista de Saramago me lembrou da novilingua? Porque em tal entrevista ele é perguntado se escrever em um blog modificou sua forma de escrita, visto que o veículo eletrônico exige textos mais enxutos, e também foi perguntado pelo Twitter, novo meio eletrônico de comunicação e publicação, que está virando febre entre os internautas. Sobre este último, Saramago é sucinto, afirma que o limite de 140 caracteres é impossível, e diz que estamos descendo ladeira abaixo, chegaremos ao ponto de apenas grunhir para se comunicar. Ora, não é novidade para ninguém que a Internet, e ferramentas para comunicação como o MSN estão transformando a forma de se comunicar, e a própria língua. É quase impossível entender o que um adolescente escreve numa conversa com colegas no MSN e até mesmo no orkut. Quanto ao Twitter, já entrei para ver como era, e não me atraiu. Me pareceu uma mistura de MSN, blog e orkut. A interface é feia e limitada, e a idéia de ter “seguidores” como se a pessoa fosse um guia, me incomodou bastante. É muito comum encontrar artistas e escritores no Tweeter, pessoas que rapidamente tem seu espaço “seguido” pro milhares de desconhecidos. Sei não, não gosto dessa idolatria, dessa necessidade de estar “in” o tempo inteiro, dessa super exposição do pensamento – as pessoas pensam que exposição é somente da imagem, mas expor suas idéias, dar opinão sobre tudo também é uma forma de super-exposição. E também não me agrada essa limitação de caracteres. Parecem que impõem um padrão de escrita, de como escrever e se comunicar, mas um padrão limitado que acaba por empobrecer a escrita e a propria língua.

Muito curioso foi o fato que na edição da revista digital na segunda feira, a reportagem de capa remetia ao Grande Irmão, de Orwel. Falava do poder de empresas como a Amazon tinham em deletar conteúdos que apesar de comprados pelo assinante de um Ipod, por exemplo, permaneciam na rede e poderiam ser deletados sempre que a empresa julgar necessário. Todos associam o “grande irmão” a restrição de liberdade e a cassação de direitos. Não percebem que o pior tipo de autoritarismo é a manipulação ideológica. A limitação da expressão pode ser imposta de maneira que não pareça uma imposição, que pareça apenas uma mudança de hábitos. O problema é que as pessoas não questionam essa mudança de hábito, simplesmente aceitam.


*Perdoem a superficialidade das informações sobre "1984". Eu tinha esse livro, mas emprestei e acabei perdendo-o, por isso escrevo sem ele em mãos para consultar e corrigir qualquer equivoco. Como estou com tempo muito curto para escrever, não quis procurar detalhes em qualquer resenhas na net, preferi trabalhar com a lembrança que tenho do livro - e eu o li, já faz um tempo.

4.7.09

Eu não sou cachorro, não

"O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses.

Não tinha pelo menos um cozinheiro com ele?

Filipe da Espanha chorou quando sua Armada naufragou.

Ninguém mais chorou?"


Bertolt Bretcht*



Nessa semana que passou, voltei a ler um livro que já tinha lido há uns cinco anos mais ou menos. Eu o li quando trabalhava com um amigo que é cego - eu era ledora - e talvez se não o lesse por esse motivo jamais teria a oportunidade de conhecer um trabalho historiográfico tão bem cuidado e bonito. O livro em questão chama-se "Eu não sou cachorro, não", numa clara referencia ao clássico rit de Waldick Soriano, cantor que fez muito sucesso na década de setenta cantando boleros e músicas conhecidas como de "dor de cotovelo" e trata exatamente dessa produção musical, e todo o processo que envolve sua marginalização e esquecimento pela sociedade e consequentemente pela historiografia.
Trabalhando com conceitos como memória e esquecimento e lugar social , Paulo César de Araújo, desvela todo o processo de marginalização da produção cultural cujo lugar social é o das classes populares.
Muito se fala da resistência a ditadura expressa em letras bem trabalhadas de cantores e compositores consagrados como Chico Buarque, Caetano Veloso, Taiguara e tantos outros. Paulo César de Araújo nos diz que esse tipo de música foi designada pela critica da época como Musica popular brasileira (MPB) e é proveniente de um lugar social muito específico, é produzida por uma classe média universitária intelectualizada e por vezes de esquerda. Por esta razão, expressam uma visão de mundo relacionada ao lugar social de sua produção. Tanto envolvendo a temática de protesto, quanto temática social, ou romântica os códigos contidos nessas canções remetem a forma de ver o mundo, a experiência de vida da classe média.
Da mesma forma a produção cultural tachada de "brega", "cafona", "musica de empregada", também possui um lugar social de produção, está associada ao universo da gente comum, das classes populares; os valores expressos em suas letras possuem elementos do universo cultural desse extrato social, difuso, composto por aquelas pessoas que não vivem no meio rural, mas na periferia das grandes cidades ou nos subúrbios. Esta produção cultural, longe de ser banal expressa sim código de valores, experiências cotidiana, percepção da realidade e formas de resistência dos setores populares.
Entretanto, essa produção cultural nunca é mencionada em estudos historiográficos, muito pelo contrário, a tendência da intelectualidade sempre foi vê-la com uma certa antipática e até ironia. Da mesma forma a sociedade lembra desses cantores pejorativamente - "musica de empregada".
Esse processo de esquecimento da música "brega", não é algo gratuito. Paulo César Araújo relaciona a marginalização da musica "brega" a todo um processo de profilaxia estética que envolvia a produção de uma imagem de um Brasil moderno, imagem essa afinada com os interesses políticos do regime de então - a ditadura militar. Estendendo sua análise aos programas televisivos, mas sempre enfocando a produção musical, o autor relaciona ao surgimento da Rede Globo - patrocinado pelo regime - à abertura de um espaço de divulgação entre as massas do trabalho de artistas provenientes da classe média, a imposição de um padrão estético "moderno", relacionado a sociedade urbana industrial. Nesse sentido aponta as novelas, veiculadas em três horários como a grande vitrine do padrão estético e meio de divulgação da produção musical da classe média. Não era interessante para o regime que a televisão - veículo de comunicação que se popularizava na época - mostrar as mazelas do Brasil, muito menos dar espaço para as manifestações culturais e políticas desse outro Brasil tão distante do modelo idealizado pelo regime.
Ao narrar e comparar o caso dos irmãos Dom e Ravel, que ao gravarem "Eu te amo meu Brasil" em pleno governo Médice, auge da repressão, e foram perseguidos e alijados do meio artístico, ao episódio da comemoração do sesquicentenário da independência do Brasil, onde Elis Regina gravou a chamada e participou de tal evento, patrocinado pelos militares, o autor sinaliza para um terreno espinhoso - a questão classista. Se Dom e Ravel foram execrados por uma crítica identificada como esquerdista que não podia tolerar manifestações de apoio à ditadura por parte dos artistas, o mesmo não se deu com Elis Regina, devidamente anistiada após enviar alguns cheques para o movimento sindical do ABC e gravar várias músicas de protesto contra a ditadura. A indulgência em relação a Elis, segundo o autor diz respeito a uma "solidariedade de classe", uma vez que Elis fazia parte da classe média, da qual também faziam parte seus críticos, ao passo que Dom e Ravel eram representantes autênticos do “populacho”.
Cruzando informações de uma variedade de fontes que vai desde documentos oficiais referentes a censura, até depoimento dos artistas da época, e sem poupar nenhum nome, o resultado é um trabalho conciso, inovador e que preenche uma lacuna historiográfica, gerando polêmica e até mesmo um mal estar, pois o livro questiona nossas atuais convicções e modo de vida.
Um outro ponto interessante é que os conceitos com os quais o autor trabalha ficam muito bem explicados e o livro é de fácil leitura, sendo atraente não somente para o público acadêmico, mas também (e isso é muito importante) para o público geral. Por fim, é uma ótima leitura.

* * * *

Confesso que a primeira vez que li esse livro, fiquei profundamente incomodada, e decidida a rebater todos os seus argumentos. Estava, isso sim, imersa em preconceito e arrogância. Mas depois de passado o estranhamento inicial e tendo percebido que ali estavam retratadas varias e varias pessoas que eu conhecia, de familiares meus, dei o braço a torcer e reconheci que é uma ode a musica popular de verdade, aquela feita pelas pessoas comuns que sustentam esse país e que nunca são lembradas, estão sempre em último lugar nas prioridades políticas e sociais. Na ultima quarta, quando voltei a lê-lo, lembrei de meu avô. Meu avô veio do interior do estado do Rio, da cidade de Madalena. Chegando na cidade grande fez de um tudo. Foi pedreiro, entregador de sorvete e por ultimo embalador em uma firma de mudanças. Tinha o sonho de comprar um sítio e voltar para o interior, quando se aposentasse. Nunca realizou seu sonho. Vitima de uma cegueira repentina, teve sua aposentadoria antecipada, não via mais gosto na vida. Recuperado da depressão e de uma anorexia nervosa, viveu até 2003, quando então partiu. Vários dos artistas citados no livro eu escutei na casa dos meus avós quando era criança e por isso, passado o estranhamento inicial, eu me toquei que quando negava o valor da produção musical dos "bregas" eu estava negando o valor do meu avô, justamente uma das duas pessoas mais simples e bacanas que eu ja conheci nessa vida. Foi impossível não chorar.
Esse texto é para o meu avô, meu querido avô...


*Citação contida no início do livro.

Eu não sou Cachorro, não. Música popular cafona e ditadura militar.
Paulo César de Araújo
Rio de janeiro: Record, 2002.

6.6.09

O livro mágico...

Habitualmente nunca leio a coluna de José Castello no Prosa e Verso. Já tentei algumas vezes, mas sempre paro antes do meio do texto. Apesar do título que chama atenção, os textos sempre se revelam insossos. Entretanto, hoje o li por completo. Falava de Cortazar e da fantasia que sua obra conserva se aproximando muito da janela aberta que é a imaginação das crianças. Sim, Cortazar tem disso em seus textos. De forma mais sutil que Gabriel Garcia Marques, talvez de uma forma mais triste e urgente ele direcionava suas histórias para o limiar entre o real e a fantasia, de maneira que o leitor é envolvido pelo texto caminhando confortável na própria imaginação. Essa é a sensação que tive ao ler Cortazar, autor que conheci a pouquíssimo tempo, mais por acidente. Uma colega minha de trabalho leu um pequeno texto que ela deu para seus alunos em um trabalho. Na primeira oportunidade comprei num sebo “Todos os fogos, o fogo”, livro clássico do autor. E a sensação que tive ao lê-lo foi de estar navegando num universo em que o real e o imaginário se confundem. Diferente de Gabo, que usa o fantástico como metáfora, Cortazar constrói suas histórias na própria fantasia e isso é que torna a leitura de seus contos, uma delícia.
Lembrei também de quando li Cem anos de Solidão. Tinha 13 anos. Não era uma criança, tampouco, era uma moça ou mulher, estava naquele momento de interseção – onde as fantasias da menina se misturam com as expectativas da mulher. Cem anos foi uma lufada de vento. Comecei a lê-lo de trás para frente – hábito que tenho até hoje, e que, com o tempo, só se intensificou; nunca começo a ler nada pelo início – e o devorei. O livro era mágico, assim como seus personagens, mágicos interpretes do real. Em Macondo vários sentimentos se misturavam, paixões avassaladoras, amores mal resolvidos, os laços que unem e separam as pessoas, as injustiças e os interesses, tudo isso mostrado através de personagens instigantes e inusitados. Depois daquela época nunca mais li Cem anos. Não quero que perca o encanto. A visão das coisas quando se tem 13 anos não é a mesma de quando se tem 31, e eu prefiro ler os outros romances de Gabo com aquela lembrança mágica que “Cem anos” me deixou.

10.5.09

"A fronteira da arte" - da fotografia e da humanidade...

Ha livros que não são exatamente para se ler inteiros, de uma vez só, como romances, mas ao contrário, são para abrir ao acaso e ver onde o acaso nos trás. Essa semana eu abri, ao acaso, O livro dos abraços, do Eduardo Galeano e a crônica que li era sobre a arte, mas especificamente das funções da arte. Me comoveu profundamente porque tocou num ponto que eu sempre penso: o retrato de pessoas e seu sofrimento.
Uma coisa que nunca fiz em fotografia é fotografar pessoas, rostos de pessoas, como alguns fotógrafos, sobretudo fotojornalistas, que curtem fotografar os rostos principalmente os rostos de pessoas que sofrem nas guerras, ou com a fome, rondadas pela morte, com a vida por um fio. Não sei... Eu acho que o rosto das pessoas é algo de muito respeito, assim como a dor alheia. Devem ser preservados, respeitados.
Por isso, quando li A fronteira da arte, essa questão voltou a minha cabeça. Qual o limite entre o sensacionalismo, a vontade de chocar por pura vaidade, pelo desejo do furo, pelo fascínio de ser a pessoa certa no lugar certo, e a sensibilidade humana, aquele alerta que pisca bem no fundo da mente para sinalizar que extrapolamos um limite? Lembrei de uma discussão que tive, por e-mail mesmo, sobre um "pseudo-artista" mexicano que numa bienal de arte, se não em engano, na República Dominicana, matou de forme e sede um cachorro que ele pegou na rua e deixou amarrado no espaço que lhe cabia no museu de arte onde ocorria o evento. Onde está a solidariedade e a sensibilidade? Virou conversa fiada? Utopia?
Existe um limite muito tênue entre o sensacionalismo, entre a espetacularização do sofrimento e da tragédia, e o desejo genuíno de denunciar. Se o desejo é denunciar, é mostrar ao mundo as injustiças da sociedade, a desumanidade da guerra, o fotografo não pode abdicar de sua própria humanidade, não deve se esquecer que ali na sua frente há uma pessoa, alguém que sofre, que sente dor física e na alma, que essa pessoa não é um modelo, que aquela dor é genuína e deve ser respeitada. É o respeito à vida, à dignidade humana, à capacidade de se solidarizar pela dor de outrem, que diferencia seres humanos de monstos; é a sensibilidade, a capacidade de observar o mundo, as pessoas, os sentimentos humanos que faz um artista.



“A Fronteira da Arte

Foi a batalha mais longa de todas que se seguiram em Tuscatlán ou em qualquer outra região de El Salvador. Começou à meia-noite, quando as primeiras granadas caíram das montanhas, e durou toda a noite e foi até a tarde do dia seguinte. Os militares diziam que Cinquera era inexpugnável. Os guerrilheiros tinham atacado quatro vezes, e quatro vezes tinham fracassado. Na quinta vez, quando foi erguida a bandeira branca no mastro do quartel-general, os tiros para o alto começaram os festejos.
Julio Ama, que lutava e fotografava a guerra, andava caminhando pelas ruas. Levava seu fuzil na mão e a câmera, também carregada e pronta para disparar, pendurada no pescoço. Andava Julio pelas ruas poeirentas, procurando dos irmãos gêmeos. Esses gêmeos eram os únicos sobreviventes de uma aldeia exterminada pelo exército. Tinham dezesseis anos. Gostavam de combater ao lado de Julio; e nas entre-guerras, ele os ensinava a ler e a fotografar. No turbilhão daquela batalha, Julio tinha perdido os gêmeos, e agora não os via entre os vivos ou entre os mortos.
Caminhou através do parque. Na esquina da igreja, se meteu-se numa viela. E então, finalmente, encontrou-os. Um dos gêmeos estava sentado no chão, de costas contra um muro. Sobre seus joelhos, jazia o outro, banhado em sangue; e aos pés, em cruz, estavam os dois fuzis.
Julio se aproximou, e talvez tenha dito alguma coisa. O gêmeo que vivia não disse nada, nem se moveu: estava lá, mas não estava. Seus olhos, que não pestanejavam, olhavam sem ver, perdidos em algum lugar, em nenhum lugar; e naquela cara sem lágrimas estavam a guerra inteira e a dor inteira.
Julio deixou seu fuzil no chão e empunhou a câmera. Rodou o filme, calculou num instante a luz e a distância, e colocou a imagem em foco. Os irmãos estavam no centro do visor, imóveis, perfeitamente enquadrados contra o muro recém-mordido pelas balas.
Julio ia fazer a foto de sua vida, mas o dedo não quis. Julio tentou, voltou a tentar, e o dedo não quis. Então baixou a câmera, sem apertar o botão, e se retirou em silêncio.
A câmera, uma Minolta, morreu em outra batalha, afogada pela chuva, um ano mais tarde."


*O livro dos abraços. Eduardo Galeano. Porto Alegre: LP&M editora, 2000. pag. 26.

4.5.09

Coincidências, coincidências...

Ontem, mandei um email onde postei como lembrança a alguém muito querido e especial, os versos que achei mais belos de um poema de Mário Benedetti, poeta uruguaio que eu admiro muito. Agora, há alguns minutos, dando uma volta pelos blogs e sites da lista ao lado, li no site do José Saramago que Mario Benedetti está muito doente. Ah, as coincidencias... Apesar de gostar de Mário Benedetti, meu coração é cativo de Neruda e de Drummond, mas ontem eu quis mandar uma outra poesia, um outro estilo de escrita, então escolhi Benedetti. Apesar de estar maluca de coisas para estudar e varias obrigações em cima, não pude deixar de escrever esse pequeno texto e postar, como José Saramago sugeriu, uma poesia de Mário Benedetti!

Te quero

Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois

Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro

Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois

E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero

E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só

Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.

5.1.09

Entre livros...


Estava lendo um texto do meu amigo Klamber, no Opa sobrou um parafuso!, sobre o hábito de ler, supostamente impopular entre nós brasileiros. Essa questão martela em minha cabeça por muito tempo e acho que ela tem vários lados e facetas, que vai do preço do livro, até a questão do tipo de literatura que as pessoas consomem. De quem é a culpa pela ausência do hábito de ler entre os brasileiros? Das condições socioeconômicas da sociedade ou das próprias pessoas?

Livro, assim como cultura de maneira geral, neste país é um bem, e não está acessível de maneira igualitária a todos. Hoje não se compra um romance por menos de trinta reais - sendo muito otimista é claro. O preço mínimo de um livro novo oscila entre 30 e 50 reais. Hora, qual assalariado que pode abrir mão de 10% de seu salário, todo mês para adquirir um livro? Até mesmo o livro de bolso (pocket book) uma invenção proveniente da terra do Tio Sam - edições mais baratas, de qualidade inferior aos livros normais - com o objetivo de deixar a literatura mais acessível a população, aqui foi capitalizada. Hoje editoras grandes como a Cia das Letras lançaram seus selos de bolso com o preço chegando a até 30 reais! Oras, mas o objetivo não é popularizar a leitura, difundir o hábito de ler?
Então será que é justo falar que as pessoas negligenciam o hábito da leitura, e desta forma a aquisição de conhecimento? Suponhamos que sim. Bom, penso que a maior parte da população brasileira pensa dessa forma por não reconhecer o hábito de ler como seu, como algo conveniente a sua condição social. O hábito da leitura é identificado como um hábito de elite - ora, eu mesma fui várias vezes sacaneada na escola, quando tinhas 14 ou 15 anos porque gostava de ler livros ao invés de ficar fixada na revista Querida!* (obrivamente, eu também lia Querida)Por que isso? Não é apenas a idade, é também uma questão de se identificar com o hábito. A maior parte das famílias brasileiras de baixa renda não reconhece o hábito de ler como conveniente a sua condição social, mas isso não está dito, fica apenas insinuado, subentendido. Isso ocorre por questões histórias que remontam a formação de nossa sociedade, talvez chagando mesmo a sociedade colonial, quando os primeiros colégios estavam nas mãos da igreja; a baixa circulação de publicações impressas, situação que só muda um pouco após a vinda da família real para o Brasil; o alto índice de analfabetismo da população.O hábito de ler é marca e livro é propriedade de uma classe social.
Talvez por isso seja comum vermos pessoas até mesmo de classe média baixa e média média gastando 30, 40, 50 reais num bar, ou comprando roupas, sapatos, celulares com mil utilidades, parcelando tudo no cartão de crédito, mas achando impensável comprar um livro nesse valor
ainda que tenha mesma facilidade de crédito. Ou seja, não existe a cultura da ler. Outrora, para essas classes ler era sinal de status, no mundo de hoje, onde impera o consumismo desenfreado existem outros símbolos de status mais atraentes. Entretanto o livro ainda conserva o fetiche do luxo.Então o preço elevado dos livros é consequência tanto de questões econômicas, como margem de lucro, alto investimento em títulos importados que têm de dar bons rendimentos, quanto do fato do livro ser um bem identificado com uma determinada classe social, que possui um bom poder aquisitivo. Ou seja, o público alvo dos produtos editoriais é um público que supostamente pode comprar e vai comprar aquele produto.
Atualmente as editoras descobriram que faz muito sucesso entre as massas livros de auto-ajuda e livros espíritas, resultado: no estande de livros do shopping de Bangu quase 90% dos títulos direcionados aos adultos é de auto-ajuda ou livros espíritas, talvez menos de 10% sejam de Best Sellers como o "Homem que rouba sonhos" ou "A menina que roubava livros" (caramba, os autores estão com uma fixação em roubos!) Deduz-se que, quem mora em Bangu, e tem o hábito de ler, vai ler esse tipo de livro.
No fim das contas, são as condições socioeconômicas que determinam como a banda vai tocar.
É um círculo vicioso. Qual é a saída para isso? Como quebrar o círculo? Eu acho que o livro tem de ser mais barato sim, afinal, os livros de auto-ajuda, espiritismo e o tal Paulo Coelho são vendidos a preço de banana e fazem muito sucesso. Além do mais é como eu disse no inicio: não dá pra um assalariado abrir mão de 40 reais, quase 10% do salário todo mês . Então outros livros de escritores brasileiros, principalmente, escritores de língua portuguesa e clássicos da literatura latino-americana deveriam ser alvo de uma politica de redução de preços. Não sei como isso seria feito pois envolve uma série de questões que vão desde direitos autorais até a liberdade de mercado, mas alguma atitude nesse sentido deveria ser tomada. E paralelamente, intensificar a política de incentivo a leitura em escolas, principalmente, e outros espaços como por exemplo as Lonas Culturais, ou a criação de espaços como bibliotecas públicas nos bairros.

* Revista
Querida era uma publicação voltada pra o público feminino adolescente muito popular durante os anos 90.
**
Há iniciativas da própria população no sentido de criar bibliotecas comunitárias em alguns bairros, como em Oswaldo Cruz por exemplo - imagino que isso ocorra em outros lugares - ou em igrejas, mas é um movimento muito tênue e muitas vezes acaba sucumbindo por falta de um espaço, falta de apoio financeiro, e apoio técnico.
*** Ainda estou pensando muito sobre essa questão e nenhuma dessa idéias está fechada para mim.

16.10.08

História...

No início de setembro, participei de um workshop sobre mediação em centros e museus de ciências, organizado pelo Museu da Vida, Fio-Cruz. Evento interessante onde muito se falou em educação, inclusão social, divulgação e difusão da ciência e cidadania.
Desde que comecei a trabalhar nesse meio – faço estágio na Casa da Ciência, centro de ciência da UFRJ (centros de ciência são instituições que organizam, promovem e recebem eventos, entre os quais exposições, de divulgação científica; a diferença entre um centro de ciência e um museu é que o museu possui acervo próprio e o centro de ciência não) – eu me pergunto: por que não há a mesma mobilização no meio historiográfico? Por que não há uma mobilização dentro da academia no sentido de divulgar o que é feito no meio acadêmico e dessa forma popularizar a história, estimular o interesse da população em saber sobre seu passado, o passado da sociedade em que vivemos, como ela foi construída?
A questão é importante. Há apenas uma revista respeitável de divulgação em história, acessível ao grande público, que é a Revista de História da Biblioteca Nacional. As demais são revistas que patinam na visão romanceada e permeada pelos mitos da história. Um bom “advogado do diabo” diria “Bom, mas nas ciências exatas e naturais também só há uma boa revista de divulgação cientifica, que é a Ciência Hoje, editada pela UFRJ”. Sim, é verdade, mas existem diversos centros e museus de ciência no Rio e pelo país divulgando ciência; há acadêmicos na área das exatas e ciências naturais pensando sobre formas de divulgar e popularizar a ciência.
Infelizmente o mesmo não acontece nas faculdades de história. O que é pesquisado chega para o público através das redes de ensino, ao adotarem esse ou aquele livro e, às vezes, quando o professor ainda mantém vínculo com a universidade. Mas isso acontece com defasagem de anos. Na verdade, não há uma preocupação no meio acadêmico em escrever para o grande público, e eu me refiro não somente a professores, mas falo dos graduandos também. Isso que é algo muito triste, porque não compreendo qual o sentido de estudar algo sobre a vida das pessoas, se pensarmos em termos de sociedade, e o que foi estudado nunca chegar a essas pessoas, nunca retornar a essa sociedade, ou alcançar apenas uma parte privilegiada dela. Esse conhecimento que foi produzido acaba circulando apenas num determinado espaço, o espaço dos especialistas ou dos eruditos, e com o tempo torna-se estéril pois não tem sentido social algum. Não estou dizendo que o conhecimento deve ter utilidade, não é isso, só estou dizendo que seriam muito mais gratificante se boa parte da sociedade pude compartilhar do conhecimento produzido com paixão – bom, tem que ter muito tesão para passar quatro anos da vida produzindo uma tese de doutorado – dentro dos meios acadêmicos.
Acredito no conhecimento e na história para a percepção de nós mesmos dentro da sociedade e no mundo e para a mudança – sim, está fora de moda pensar assim, mas eu sou fora de moda mesmo, e penso dessa forma – acredito que só nos conhecendo e tendo consciência de nosso lugar na sociedade podemos mudar essa sociedade para o que desejamos, para uma realidade mais justa. O conhecimento só poderá ser instrumento de mudança quando for democratizado, quando todos tiverem acesso a ele. Enquanto ficar trancado dentro das instituições, como livros que ninguém lê, esse conhecimento será apenas ferramenta para a manutenção das desigualdade sociais e para a manutenção do poder entre poucos.


* * * *


Um início de mudaças começa a ser percebido no laboratório de história antiga - LHIA - da UFRJ. O LHIA, sempre teve uma postura muito bacana no sentido de dar suporte ao estudante. Divulgando e promovendo eventos, cursos, inclusive cursos instrumental de linguas. A professora Regina Bustamante, organizou uma oficina com alunos da graduação, com o sentido de aproximar o "fazer história" do público estudantil. Como é uma idéia nova e experimental as atividades didáticas são aplicadas em grupo de alunos do CAP, da UFRJ. A primeira oficina foi sobre moedas, feita com a ajuda do Museu Historico Nacional, situado na praça XV, que possui uma fantástica coleção de moedas antigas. A segunda será sobre cerâmicas e contará com a parceria com o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, que possui em seu acervo a coleção de cerâmicas doada ao museu pela Impertriz Teresa Cristina, esposa de D. Pedro II. É um trabalho muito bonito, que, como já disse, está em fase experimental mas no futuro pode render bons frutos se for igualmente aplicado em outras escolas, com realidade diferente da do CAP.



*1a. imagem: capa do livro Apologia da Historia. Ou o ofício do Hitoriador, de Marc Bloch. Um dos meus livros preferidos.
*2a. imagem: folder do LHIA para sua segunda oficina, a qual tem como tema as cerâmicas antigas e conta com a parceria do Museu Naciona da Quinta da Boa Vista.

4.10.08

Revisitando Clássicos - Do Amor e Outros Demônios - Gabo


"A guardiã que entrou com a incumbência de prepará-la para a última sessão de exorcismos a encontrou morta de amor na cama, os olhos fulgurantes e pele de recém-nascida. Os fios de cabelo brotavam-lhe como borbulhas no crânio raspado, e era possível vê-los crescer"



Clássicos são clássicos, não importa quanto tempo passe, eles são inesquecíveis e se justificam por si só. Eles não devem ser adaptados, reescritos, eles apenas devem ser relidos pelo simples deleite de saciar a lembrança de uma ou outra passagem mais bonita ou que nos marcou.

Um dos livros mais belos e poéticos que já li, e que considero um clássico, foi Do Amor e Outros Demônios, de Gabriel Garcia Marques. Ele é simples e talvez o mais romântico do Gabo, cuja marca do romantismo transparece em paixões ardentes, por vezes absurdas e inusitadas.

Em Do Amor..., Gabo narra a história de Sierva Maria, adolescente, filha de um Marques decadente que é apanhada pelo tribunal do Santo Ofício - a história se passa no Colômbia, século XVIII. Padre Cayetano Delaura é incumbido de livrá-la do demônio e assim a tragédia está armada pois eles se apaixonam. Gabo narra de forma muito poética e sutil, tornando esse pequeno livro uma leitura muito especial.
O ambiente criado pelo autor, diferente de seu mais famoso livro - Cem anos de solidão - não é tão mágico, nem guarda o cheiro de velhice, um velho livro amarelado como o de Macondo, porêm Garcia Marques construiu uma atmosfera de opressão sob a aparente calma e exuberância colonial. E uma curiosidade, a história foi concebida quando ele, ainda jornalista, cobria a remoção do conteúdo das criptas do convento de Santa Clara, quando este seria demolido para a construção de um hotel, em 1949 na Colômbia. Vários dos personagens são inspirados nesses que habitavam as criptas, entre os quais Sierva Maria de Todos los Ángeles.

É um lindo livro, com uma linda e triste história de amor, como não se escreve mais hoje em dia. Um pequeno clássico que deve ser lido e relido várias e várias vezes.


18.9.08

Blecaute


Há algum tempo atrás, tive a oportunidade de ler Blecaute, do Marcelo Rubens Paiva – mais conhecido por seu livro autobiográfico Feliz Ano Velho. Blecaute estava na estante ficção científica, gênero que literário (e cinematográfico) que adoro. Comprei o livro, empolgada com o fato de ser um livro de ficção científica brasileiro e de autor conhecido e respeitado. Li e até escrevi minhas impressões sobre ele, mas não postei no blog. Bom, após esse último fim de semana (tedioso por sinal), em que assisti a dois dos mais novos lançamentos norte-americanos do gênero – Fim dos dias e O nevoeiro – e me decepcionei com o nível de previsibilidade com o qual as tramas foram narradas, lembrei desse livro e resolvi retomar o textinho sobre ele.
Blecaute narra a história de três jovens que, durante uma viagem de exploração em cavernas no interior paulista, ficam presos numa caverna devido a uma tempestade. No retorno a São Paulo, Rindu, Mário e Martina vão percebendo que algo há algo errado, os carros estão parados na rodovia como se estivessem abandonados e, então, se dão conta de que as pessoas estão, na verdade, paralisadas, como manequins. Um detalhe: o mal não recaiu sobre os animais, que estão muito bem vivos.
O livro tem alguns problemas como capítulos são muito longos que repetem a idéia contida em outros, com situação diferente, ou a repetição da pergunta “estamos mortos?” e da afirmação “estamos loucos!”, sucessivas vezes. Isso é meio cansativo e faz o leitor ter ímpetos de pular para a próxima página.
Mas Blecaute também tem muitas qualidades que superam esses pequenos deslizes. Uma dessas qualidades é a narração de cenas bonitas e perturbadoras como as que retratam a cidade tomada de animais selvagens, ou a entrada de Rindu na Catedral da Sé, abandonada. Foi impossível não lembrar de Os doze macacos, filme de 1996, cujo pano de fundo era a proliferação de um vírus que exterminou a raça humana da superfície, mas que não afetava os animais; ou mesmo a O planeta do Macacos, versão anos setenta. É perturbador se ver tão pequenos e frágil frente a um mundo que outrora a humanidade pensava ser somente seu; e perturbador vislumbrar um futuro fictício onde as cidades que nos acostumamos em ver sempre em movimento, no ritmo do homem, ou seja, um ritmo e um tempo ditado pela ação humana, agora esteja a mercê do tempo da natureza.
Outro ponto positivo é a evolução dos personagens, suas ações e reações, emoções e estratégias para viver num mundo em que aparentemente eles são os únicos seres humanos vivos. De uma hora para outra cidade de São Paulo, antes um grão de areia, se comparada ao mundo, torna-se o próprio mundo dos personagens. Esse é o pulo do gato, é a grande pegada existencialista do livro. Durante a leitura, nós acabamos nos questionando sobre nossas próprias atitudes e reações caso fôssemos os únicos seres humanos da face da Terra. Fica a questão: podemos viver num mundo sem sociedade, sem organismos de controle, sem leis? Em quê nos transformaríamos? E, por que isso nos perturba tanto?
Coincidentemente, no fim de semana seguinte ao término do livro fui ao Arteplex, em Botafogo, e no caminho passo pelo Centro. O Centro do Rio, numa tarde de sábado por volta das 16 horas, é bastante deserto, e neste dia não se via viva alma na Presidente Vargas, altura do camelódromo. Foi impossível não lembrar das passagens em que São Paulo está deserta.

Blecaute
Marcelo Rubens Paiva
São Paulo: Editora Brasiliense, 1986. 6a. Edição.

19.10.07

Soneto XLVI

"Eu quis para mim tua cabeleira.
E de todos os dons de minha pátria
só escolhi teu coração selvagem."




*Tive curiosidade de ler algo do Pablo Neruda desde que ouvi Trocando em Miudos do grande Chico. Finalmente tive Neruda nas mãos quando estive na casa de uma amiga minha e, dando uma olhada no que ela estava lendo, me deparei com o livrinho Cem Sonetos de Amor, da LP&M Pocket (série de bolso da LP&M). Comprei-o uma semana depois.
A poesia de Neruda é pura delicadeza.

22.4.07

O Homem Ilustrado (ou Uma sombra passou por aqui)

Eu só tinha lido um livro de ficção científica. Adoro esse gênero de filme e por conta disso comprei de um livreiro no centro do Rio O Caçador de Andróides, pois já tinha assistido o filme homônimo (que foi inclusive baseado no livro), e como todos devem saber, esse filme é um dos ícones da ficção cientifica dos anos oitenta. Fora esse livro, eu era uma ignorante em literatura de ficção cientifica. Até que um casal de amigos meus me emprestou O homem Ilustrado – aqui foi publicado como Uma sombra passou por aqui, mas neste artigo, preferi manter título em inglês, com uma tradução literal, primeiro porque me foi apresentado com esse nome, segundo porque acho que tem mais a ver com a história.
Livro de contos de ficção científica, tem como personagem principal, espécie de fio condutor, um sujeito cujo o corpo é todo ilustrado (não tatuado, ilustrado mesmo) e cada ilustração conta uma história diferente – os 18 contos do livro - que não necessariamente se passam em seu tempo. Várias mostram um planeta destruído, mostram o futuro que nem sempre é o que se espera. Por conta disso, ele não é bem quisto entre a pessoas e está vagando por uma estrada perdida dos EUA, até que arranja como companhia um jovem. 
A narrativa é fascinante e não deixa o leitor largar o livro, mas ao contrário do que vocês possam estar pensando, não é apenas um roteiro de aventura, onde o tema é um pretexto para a ação. Neste livro questões interessantes sobre o comportamento humano, existencialismo, relacionamento, medo, limites, questões sociais, são abordadas tendo como eixo inovações tecnológicas, viagens através do tempo, guerra atômica, viagens intergaláticas. A recorrência à guerra atômica e às viagens interplanetárias, é constante – Marte aparece como colônia da terra em três contos e em quase todos, onde a terra foi destruída, o motivo é a guerra atômica - o que demonstra o contexto histórico da produção dos contos: o mundo do pós-guerra, vivendo sob a sombra da guerra fria. 
Há momentos em que o autor nitidamente aborda questões sociais do seu tempo: o consumismo norte-americano da "idade de outro"* – os dez anos do pós guerra – em A betoneira; e a questão racial, em O outro pé. No curtíssimo A estrada, a problema é a diferença de realidades entre um sujeito que vive em sua terra a beira da estrada, plantando e colhendo, e se aproveitando de tudo o que a estrada lhe deixa, e os passantes, geralmente de classe média, ou média alta que nunca o percebem. 
Outros três contos especialmente me chamaram a atenção: Estepes Africanas, A grande Chuva e Os Expatriados. O primeiro, conta a história de uma família onde os filhos ganham de presente um quarto telepático, onde se reproduz, nas paredes, lugares imaginados pelo dono – neste caso, os filhos do casal. Só que a situação se complica quando a única imagem vista no quarto é de enormes leões africanos, se deliciando com uma carcaça. A mãe, começa a achar que os filhos, extremamente mimados, podem estar ficando psicóticos. Em A grande chuva, a história se passa em Vênus, planeta nada parecido com a terra, contendo apenas um continente (o qual já foi dominado pelos terráqueos), coberto por uma vegetação densa, onde chove o tempo inteiro. A umidade, a falta de comida e de senso de direção e, principalmente, a chuva constante, fina, gelada, vai enlouquecendo os três astronautas terráqueos, que estão perdidos na floresta a procura de uma das três bases existentes no planeta. Nesse conto a narrativa é fantástica, as metáforas para descrever o efeito da chuva caindo sobre os corpos, a angústia de se sentir completamente molhado por dias, andando as cegas dentro de uma floresta que lembra muito a amazônica, é de enlouquecer. 
O terceiro e, talvez, melhor conto, Os expatriados, conta a história de habitantes de Marte, que nada mais são que grandes autores da literatura ocidental – como Shakspeare, Charles Dickens, Edgar Alan Poe, e alguns mitos do ocidente. Exilaram-se lá porque a humanidade os baniu de sua imaginação e, portanto, de suas vidas, de sua história, devido ao avanço tecnológico, que não deixou espaço para a imaginação. O conflito se estabelece quando eles percebem uma nave terráquea se aproximando. Esse conto é fabuloso! Uma fantástica critica ao racionalismo, a busca pelo desvelamento do mundo através da ciência, a perda da imaginação, do medo do desconhecido, da emoção. 
Existem outros tantos contos igualmente fantásticos neste livro. Seja pela história, pela forma como ela é contada, pelas metáforas utilizadas, pelo desenvolvimento... Entretanto, acho que a grande questão que ele nos coloca é: a onde nos levará o desenvolvimento científico, as novidades tecnológicas? Poderão nos destruir (física e moralmente), ou nos tornar pessoas melhores? Nada mais atual em tempos tão frenéticos em termos de avanços científicos e mudanças no modo de vida e relacionamento humano, em decorrência de tais avanços. Reflexão e diversão garantidas.
Uma Sombra passou por aqui (The Ilustrated man). Ray Bradbury, 1951. São Paulo: Editora Edibolso, 1976. Disponível somente em sebos.
*"Idade de ouro", é o termo utilizado por Eric Hobsbawn, historiador marxista inglês, em A era dos extremos (cap. 09), para designar os trinta anos pós-2a. guerra (mais ou menos as décadas de 50, 60 e 70), período de grande desenvolvimento econômico vivido pelo ocidente europeu e pelos Estados Unidos.
P.S.: VALEU, Virgina e Mauro!!!!