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25.3.15

O beijo



Começo a pensar que o problema do beijo gay entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timbert está no fato de serem mulheres e idosas. Esses dois pontos, por mais que a gente não perceba, são tabus. Mostrar duas mulheres em idade avançada que mantem um relacionamento afetivo sério, consolidado, uma união estável, ou seja, um casamento, foge do modelo de casal gay que a própria Globo popularizou.
O casal gay Felix e Nico, de Amor a vida, era jovem e afetado, bem diferente do comportamento masculino tido como "normal". Por mais que os personagens fossem carismáticos, eles caíram no estereótipo. Em Império, o casal gay era formado por um rapaz jovem (e lindo!!! rs) e José Maier. Por que esse casal foi aceito? Primeiro, sua condição foi dramatizada, houve ingredientes na historia que acabaram por desviar o foco da questão "são um casal gay". Segundo, o relacionamento do dois no inicio da trama era clandestino, o que se aproxima também do estereótipo de relacionamento gay aceito pela sociedade.
Já em Babilônia, o casal gay se aproxima mais de um casal formado por pessoas comuns, como seu colega de trabalho, como sua vizinha, como a mãe da amiguinha da sua filha, como um tia idosa. Ou seja, não há estereótipos, não há afetação, mas há personagens que se assemelham a pessoas próximas a cada um de nós. Além disso, a idade das personagens além de demonstrar a longevidade da relação, o que leva a um choque de realidade - sim, relacionamentos homoafetivos podem ser duradouros; sim, gays tem comportamento monogâmico assim como os heterossexuais (os quais também tem comportamento dito promiscuo).
Mas há ainda dois pontos importantes aqui: são mulheres e são idosas. A imagem do homossexual está associada a libido ao desejo. Ora, a libido, o desejo, no imaginário social, só é permitido e aceito em relação a pessoas jovens, belas, e aos homens. No casal homossexual de Império, o personagem de Maier era um homem já passando da meia idade, que tinha um namorado da idade de seu filho. Ele era o provedor, ou seja, ele era o “homem” da relação. E o homem “tem direito” a ter uma vida sexual plena, cheia de libido, desejo e sexo, em qualquer idade. O desejo homossexual acaba sendo “tolerado” como se fosse um pequeno desvio de seu papel na sociedade (o personagem de Maier era casado, pai de dois filhos e bem sucedido profissionalmente).
Quando a relação homoafetiva é mostrada na televisão entre duas mulheres de idade avançada, aí a coisa vira um problema, pois no imaginário social de nossa sociedade, e talvez em todas as sociedades do mundo, seja ela ocidental, oriental, tribal, rural, urbana e etc, etc, etc..., a mulher só tem direito a exercer sua sexualidade, a gostar de sexo, com homem ou mulheres, ou com os dois, quando é jovem. Ao envelhecer deve se resignar e esquecer sua sexualidade, seus desejos, sua libido. Um casal homossexual na terceira idade, por mais que essa não tenha sido a intenção da produção da novela, diz ao publico que mulheres idosas tem desejo, tem sexualidade, e isso ficou demonstrado num simples selinho (sim, gente, o tal beijo, foi um selinho!)

15.3.11

O Câncer e a vida...

Hoje a tarde li uma matéria na Época muito interessante. Era sobre um livro escrito por uma joralista norte-americana sobre uma mulher, Henrieta Lacks, cujas celulas cancerosas colhidas há sessenta anos no hospital John Hoppikins, se multiplicam até os dias atuais. Henrieta tinha câncer no útero, procurou o hospital John Hoppikins pois era o único em 1951 que atendia negros - em uma ala específica para "pessoas de cor". Lá diagnosticaram câncer, colheram algumas células e deixaram que elas crescessem em laboratório - há tempos os cientistas daquele hospital tentavam cultivar células humanas mas elas morriam em alguns dias. As células cancerosas de Henrieta eram diferentes, não so resistiram como crescerem com todo vigor e tornaram materia prima para uma infinidade de estudos.
Já Henrieta não teve a mesma sorte que suas células cancerosas, muito pelo contrário, nos meses seguintes a descoberta ela só piorou e sofreu uma metastase, morrendo em novembro de 1951. Seu câncer era tão agressivo que nem os mais fortes analgégicos, aqueles produzidos a base de ópio conseguiram evitar a dor. Durante a autópsia, mais células foram retiradas do corpo de Henrieta,  mas estas não sobreviveram - especulei, ao ler a materia, que provavelmente estavam sofrendo o efeito da radioterapia aplica.
A história de Henrieta não acaba ai. Ela não era apenas um numero ou dado. Ela tinha 31 anos, cinco filhos e o destino dessa família não foi dos melhores. Em 1973, quando foi revelado a comunidade cientifica a identidade da dona das celulas cancerosas, vários cientistas foram procurar seus descendentes, para colher amostras de sangue. Eles viviam na mais profunda miséria. A própria autora do livro demorou cerca de dez anos para obter a confiança dos familiares de Henrieta. Apesar das células provenientes do tumor que matou Henrieth serem usadas até hoje em estudos até mesmo sobre a aids, e pelo fato de terem proliferado de maneira super agressiva, o que desperta a curiosidade e o assombro até mesmo de uma pessoa leiga como eu, sua família nunca recebeu nenhum apoio financeiro, nada, absolutamente nada.
Varias coisas me passaram pela cabeça quando li esse artigo. Primeiro: quero ler esse livro. Segundo: pesquisa interessante! Terceiro: nada nessa vida é natural, a não ser o câncer.
Henrieth vivia em Baltimore mas nascera em Lacks Town (Cidade Lacks), uma cidadezinha do sul norte-americano, onde vários descendentes de escravos pertencentes a familia Lacks, viviam. Seu marido era um primo. O destino de Henrieta e sua familia estava marcado pelo passado escravista, pela descriminção racial, pela violência e intolerancia, que se traduziram ao longos dos anos em poucas oportunidades e sedimentação da idéia de que os negros não podem e nem devem tentar ter ou mesmo almejar uma vida no minimo digna. Os Lacks brancos tiveram amplas oportunidades, seus filhos frequentaram bons colegios e sua descendencia tem pelo menos uma vida decente. O mesmo não se pode dizer da descendencia de Henrieta.
No Brasil, embora o preconceito racial não seja violento, a maior parte da população pobre é negra e/ou mestiça. A maior parte desta população pobre trabalha em serviços braçais ou que não exigem alto grau de escolaridade. A idéia de melhoria de vida através da educação que abriria a porta para um emprego melhor, muitas vezes, nem passa pela cabeça dessas pessoas, pois frequentar uma universidade não é coisa de pobre, ainda mais pobre preto, é coisa de gente rica e branca. E assim, sob essa mentalidade, tão preconceituosa como a dos norte-americanos, gerações e geraçoes vão se formando.
Essa mentalidade excludente que permeia todas as esferas sociais é mais cruel do que a própria violência física, porque ela disciplina, direcionada e condena as pessoas a ocuparem eternamente um único espaço na sociedade porque elas próprias não se vêm fora daquele espaço pré-determinado. É uma prisão dentro de si mesmo e não termina em uma so pessoa, alcança gerações e gerações.
Só o câncer na vida de Henrietah foi algo natural, não provocado, algo estúpido, monstruoso que apareceu expontaneamente em seu corpo e a matou. Mas a miséria de sua familia, o fato de ter sido esquecida pela história e pela sociedade, a monstruosidade e a agressividade a que foram submetidos física e psicologimente por serem negros, não,  nada disso é natural.




A vida imortal de Henrieta Lacks
Cia das Letras, Rio de Janeiro
2011

14.9.10

Anais... Anais...

"Me nego a viver num mundo ordinário como uma mulher ordinária. A estabelecer relações ordinárias. Necessito o êxtase. Não me adaptarei ao mundo. Me adapto a mim mesma."


Anais Nin

18.10.09

Aborto e escolhas...

A vida é feita de escolhas. Sim, a gente escolhe qual roupa vai vestir, que profissão vai seguir, quem vai namorar, com quem vai casar, se vai ou não ter filhos e etc... As unicas coisas que escolhem para a gente é se vamos realmente nascer e qual será nosso nome. Andei pensando nisso porque tenho lido alguns textos de blogueiras (a maior parte que escreve é mulheres, por motivos óbvios) sobre o aborto. Há algum tempo eu era terminantemente contra, hoje já não sou, penso que é uma decisão íntima, pessoal e cabe a mulher tomá-la. Entretanto algumas colocações e argumentações me incomodam muito por conta do radicalismo e da aparente frieza e individualismo com que tratam o tema. Quando se discute o aborto se está falando de pessoas, de gente. Eu fico muito, mas muito puta mesmo, quando leio textos em que o autor se refere ao feto como "coisa" ou "aquilo", espera aí, a "coisa" é uma pessoa, que querendo ou não, está em formação. Um aborto não envolve somente o corpo da mulher, envolve também uma vida que já existe e que vive do corpo dela. Só estou colocando isso porque acho muito leviano so discutir o problema do ponto de vista da mulher, evocando somente o seu direito e esquecendo-se de que está em jogo uma vida, O que me incomoda é a argumetação, o discurso.
Sou favorável a discriminalização do aborto porque ele já é praticado ilegamente por um número enorme de mulheres pelos mais variados motivos e porque é uma decisão de cunho pessoal. Sou favorável porque enquanto mulheres de classe média são bem atendidas em clinicas clandestinas bem equipadas as mulheres pobres acabam fazendo aborto em verdadeiros açougues.
Entretanto, algumas questões surgem daí:
1. no caso do aborto ser legalizado, o SUS fara abortos também? Se vai fazer penso que deveria então ser agilizado o processo para a cirurgia de laqueadura de trompas, pois para fazer essa cirurgia é uma ciranda burocrática e, acreditem, há uma centena de mulheres tentanto fazê-la pelo SUS.
2. como fica o Estado nisso tudo? Oras, no nosso pais não há pena de morte e institucionalmente o Estado prioriza a manutenção da vida.
3. será que o aborto não se transformará em mais um métod anticonepsional? Muitas mulheres ficam grávidas por desconhecerem os metodos anticoncepcionais, ou não terem acesso a ele, ou seja, se isso não mudar o aborto pode se transformar em um metodo anticoncepcional.
4.muitas mulheres ficam grávidas por inconsequencia, então eu me pergunto: ela tem consciência do direito sobre seu corpo? ela tem consciência que um vacilo pode resultar numa gravidez e uma gravidez ou um aborto não é brincadeira, não são coisas esquecíveis?

Tratar uma gravidez, como a "coisa" ou "aquilo" é de uma insensibilidade absurda e acaba por desurmanizar a questão do aborto que é infinitamente humana, complexa, contraditória, meche com os sentimentos. Me deixa muito incomodada essa racionalização extrema a respeito de um assuntos que não é inteiramente racional.

Acho importante as pessoas pensarem nas conseqüências de seus atos e suas escolhas. A escolha entre ser mãe ou não, deve ser feita no momento em que a mulher inicia a vida sexual e isso só acontece se houver informação, educação sexual e a conscientização de que com a vida, seja a sua ou a do outro, que nem nasceu ainda, não se brinca. Isso sim é ser consciente não somente sobre seu corpo e seus direitos, mas ser consciente sobre a propria vida.

23.9.09

Piaf


Non, je ne regrette rien (Michel Vaucaire e Charles Dumont)

Non, rien de rien

Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal
Tout ça m'est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux
Balayés mes amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro

Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal
Tout ça m'est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie
Car mes joies
Aujourd'hui
Ça commence avec toi...

Habitualmente eu não gosto de filmes biográficos. Não, não gosto mesmo. A tendencia a romantizar de mais a vida das pessoas é insuportavel. Entretanto, ontem, mudei minhas convicções a respeito de biografias, ou pelo menos abri uma exceção para Piaf - Um hino ao amor. Sem brincadeira, estou sem palavras.
O que o diretor e o roteiristas fizeram tornou mais um biografia de artista em "a biografia de uma artista". Ao invés de seguir uma sequencia linear de acontecimentos, o optaram por uma narrativa em que o presente e o passado se alternam em cenas muito bem trabalhadas. Ao contrário de confundir o publico, faz com que tenhamos uma visão da vida dela como flashes de memória da personagem, ou como um recorte dos principais momentos, os momentos mais importantes da vida de Piaf para ela mesma. Essa é a impressão que temos também com o entra a sei de persongens que não sabemos com apareceram na vida dela. Ora, não é necessário esse tipo de explicação para o dono das memórias.
A fotografia é alucinante. Impossivel não lembrar das bailarinas de Degás, ou da boemia e submundo Parisience expressos em telas impressionistas do século XIX e início do XX. Um ponto interessante é a mudança da temática das canções de Piaf antes de tornar-se uma estrela e depois - as primeiras eram conções que falavam do cotidiano das personagens a margem da sociedade francesa como prostitutas, mulheres sozinhas abandonadas pelo marido e tal. E por fim, Marion Cotillard, que eu já tinha visto fazendo pontas em alguns outros filmes, inclusive americanos, deu um show de interpretação, ao encarnar Edith Piaf.
O roteirista não abriu mão de acrescentar romântismo e tragicidade a vida de Piaf, mas não errou a mão. As cenas da primeira apresentação de Piaf num teatro e a cena final, sua ultima apresentação, são emocionantes. Não preciso dizer que encharquei a almofada e ainda não consigo escrever todas as minhas impressões sobre esse filme. Só posso dizer que foi um filme fantástico, bonito, poético, triste e feito com uma sensibilidade que arrepia.

19.5.09

Algumas reflexões sobre ser mulher...


O que é ser mulher e mãe no mundo atual? Essa é uma pergunta para a qual não há resposta, há crenças pessoais, há escolhas, há a forma de viver mais conveniente para cada um, mas uma respostas fechada, absoluta, não há. Por isso eu fiquei profundamente indignada com a entrevista que Maria Mariana deu à revista Época do dia 11 de maio, dia das mães.
Para quem não lembra de Maria Mariana é atriz, roteirista, filha de Domingos de Oliveira, consagrado diretor de teatro, e ficou conhecida nos anos 90 porque publicou o livro Confissões de Adolescente, autobiográfico, narrando algumas de suas experiências adolescentes, o qual virou febre entre as meninas daquela geração (a minha geração). Na tal entrevista, a “escritora” (foi assim que a revista se referiu a ela, apesar de só ter escrito dois livros, o já citado, e o atual Confissões de mãe, lançado há pouco tempo) fala sobre ser mulher e mãe, proferindo verdadeiras pérolas, não somente do machismo, mas de extrema imbecilidade. Imbecilidade, não por ela optar por ser dona de casa e cuidar dos quatro filhos (o que acho algo de muito respeito, pois minha mãe e avó fizeram isso também) mas porque reafirmou uma série de generalizações e uma visão completamente antiquada e machista, sobre o casamento, sobre o lugar da mulher na sociedade e sobre a maternidade, algumas afirmações inclusive de extrema insensibilidade, como quando ela se refere por exemplo ao motivo de tantas mulheres terem depressão pós-parto.
Segundo MM, depressão pós-parto é coisa daquela mulher que não pariu com dor, parto normal, que não amamentou, mal sabe ela que muitas mulheres programam um parto normal durante toda a gravidez, mas por problemas de pressão alta, por não haver passagem para o bebe, na ultima hora precisam fazer uma cesariana. Muitas mulheres querem amamentar, mas o leite seca antes do tempo, e isso não tem nada a ver com querer ou não amamentar. Então essas nunca serão boas mães, porque não tiveram esse contato direto com seus rebentos? E as mães adotivas, elas são menos mães de seus filhos porque não pariram e não amamentaram? E o que dizer de mulheres que deram a luz de forma natural e mataram seus filhos por espancamento, ou por motivos frívolos? Ou aquelas que abandonam as filhas quando descobrem que o companheiro abusou delas e alucinadas pelo homem renegam a própria cria. Mãe é quem cria, que cuida, quem se preocupa; ser mãe é se comprometer, é ter espaço na sua vida para aos filhos, e não entregar sua vida aos filho, nem eles querem isso d’a gente! Só uma criatura muito burra e insensível para fazer tal afirmação tão leviana!
As mesmas bobagens se repetem, agora agora recheadas pelo machismo, sobre o casamento e o lugar da mulher na sociedade. Segundo MM o casamento é mais tolerância que amor. Ok, pode até ser, se bem que acho meio difícil ter tolerância se não houver amor entre duas pessoas, mas o problema de sua afirmação é que a moça confunde tolerância com subserviência. Para ela é coisa natural apanhar cuecas sujas do chão quando o moço não conseguiu acertar o alvo e deixou lá onde caiu mesmo? Não sou casada, nem sei se vou casar um dia, e acho sim que em qualquer relacionamento é fundamental a tolerância, agora, uma coisa intolerável é a mulher se comportar como uma empregada ou segunda mãe (tem de reeducar o marmanjo!)!
Agora, a pérola maior é quando ela diz que a mulher não foi feita para liderar, para estar no “leme”, isso é tarefa para os homens, a mulher tem o poder de influenciar, o homem tem raciocínio mais frio. Como é que é? Ou ela andou lendo o Corão, ou isso faz parte de uma estratégia para conseguir um papel no núcleo muçulmano, ou indiano, ou japonês, ou mórmon, ou ultra direita católica, ou protestante (ah, o discurso protestante também é machista pacas, falo porque convivo com isso diariamente!), na próxima novela da Glória Perez! Como assim a mulher não foi feita para liderar, para tomar decisões? Então, a decisão de se dedicar a família não foi de quem? Não foi dela? Foi o pai que decidiu? Ou o marido que impôs? Como é que ela pode trabalhar como diretora e roteirista de teatro se não tem capacidade de pensar, de tomar decisões?! Sim, pois foi isso que ela insinuou, que na sociedade o lugar da mulher é eternamente a sombra do homem. Essa história de que a mulher tem maior poder de observação e tal é um eufemismo para dizer que não temos capacidade.
Sabe o que me deixa abismada? Essa ameba só tem espaço para publicar seus livros meia boca e dizer essas besteiras na imprensa por causa de décadas de luta do movimento feminista, por muita porrada que as mulheres já levaram tanto fisicamente, quanto simbolicamente. Gente, ainda na década de 50 minha avó só pode assumir um emprego numa fábrica levando a autorização do pai (ela era divorciada e estava vivendo na casa dos pais, então o pai era o “responsável” por ela). Isso nem tem tanto tempo assim! Como é que essa imbecil em meia hora de entrevista consegue avacalhar com décadas de luta, luta que não se resume a liberdade sexual não, décadas de luta por direitos políticos, pelo direito de votar, pelo direito de estudar, pelo direito a liberdade de escolher seu próprio destino! É por causa da luta feminista que ela pôde publicar seu livro nos anos 90, contanto suas vivencias na adolescência, sem ser tirada como uma garota perdida, ou uma puta, pois há 50 anos atrás, ou até menos seu livro teria sido recusado, ou se fosse aceito ela seria vista pela sociedade dessa forma.
MM diz essas coisas, porque está na moda entre as atrizes pseudo-intelecutalizadas e vanguardistas. Provavelmente tem babá e empregada para “ajudá-la” nos afazeres domésticos. É típico de gente que não vive no mundo real, mas em seu mundinho perfeitinho e fechado e individualista, sem a menor percepção do que acontece para além de sua janela. Se realmente tivesse que lutar pela sobrevivência, se realmente pensasse minimamente sobre a vida, sobre o mundo que a cerca e não somente sobre seu próprio umbigo, sobre suas experiências tão profundas como um copo d’água, saberia um pouco mais da vida real, das lutas sociais e políticas que as mulheres têm travado diariamente há décadas e que a relativa liberdade da qual gozamos hoje é fruto dessa luta, e não abriria a boca para falar tanta besteira.

É isso!

1ª imagem: Mulher adormecida. Pablo Picasso
2ª imagem: http://ideias.blog.dada.net/tag/luta
Mais sobre esse assunto: Corra Lola, Corra

5.3.09

Estupro, ignorância, excomunhão...


Nunca fui entusiasta do aborto. Em tempos anteriores, era terminantemente contra, hoje minha posição quanto ao assunto já é mais flexível: faz quem quer, mas acho deplorável. Acho, acho mesmo, até porque o discurso pró aborto se baseia no direito que a mulher tem sobre seu corpo, entretanto se ela tem tanta consciência desse direito (que é legítimo e eu concordo!), por que terminou com uma gravidez indesejável? Métodos anticoncepcionais existem aos montes, o mais popular e barato de todos é a boa e velha camisinha, vendida em qualquer farmácia por módicos R$ 3,00 o pacote com três, o preço de uma cerveja, vejam só! O que não se pode perder de vista nesta discussão é que, alem do direito da mulher sobre seu corpor, há uma vida em jogo, e quando um casal faz sexo sem proteção está fazendo uma escolha, e deve arcar com as responsabilidades e conseqüências dessa escolha. Mas como não é certo que o Estado se meta em questões de cunho pessoal, e cada um sabe de seus limites, e criança não é brinquedo para vir ao mundo é ficar jogado por aí, e principalmente porque não sou ninguém pra botar o dedo na cara dos outros, acho que o aborto deveria ser descriminalizado sim, e cada um que se entenda com a sua consciência.


Agora, o que não se pode suportar é que a Igreja venha condenar o abordo de uma menina de nove anos que foi estuprada pelo padrasto desde os seis! Antes de qualquer coisa, os filhos que ela esperava eram fruto de uma das piores violências que se pode cometer contra uma mulher, e nem mulher ela era ainda quando começou a ser usada pelo filho-da-mãe! Não houve uma escolha, ela foi violentada. Como é que crianças geradas a partir de um estupro, podem vir ao mundo? Nessa história horrível e triste soma-se o fato de a vítima ser uma criança!


O que o arcebispo de Pernambuco pensa da vida? Que as pessoas são os bonequinhos de Deus! Que há um motivo divino para a vinda dessas crianças e uma recompensa divina depois da morte para a garota (sim porque ela poderia morrer já que o corpo de uma menina de 9 anos não está preparado para suportar uma gravidez de gêmeos), como se ela fosse uma espécie de Maria? O que ele sabe sobre humanidade e desumanidade para além dos manuais que ele leu no seminário há mais de 40 anos? As pessoas são de carne e osso, elas sofrem, e se curam, mas há limites para tudo!


O referido arcebispo excomungou os médicos que fizeram o aborto e ameaça excomungar a mãe que o permitiu. Eu pergunto: o arcebispo também excomungou o estuprador? Não! Na verdade, isso nem é discutido! É como se aquelas crianças tivessem sido geradas pela providencia divina e não por um ato violento, como o estupro. Isso é que é mais assombroso. O que a igreja diz sobre a violência contra a mulher e a criança? Existem pastorais mobilizadas e atuantes quando a esses assuntos, assim como existe uma pastoral para os assuntos referentes a reforma agrária?


Nunca vou esperar que um padre ou qualquer autoridade religiosa, de qualquer religião, se manifeste a favor do aborto, mas eles poderiam, no mínimo, não dizer nada, não pedir resignação quando o momento é de indignação e revolta, não culpar a vítima e, principalmente fazer alguma coisa de fato para que casos como esse não mais aconteçam, ao invés de ficar apenas no discurso surrealista e quiçá machista, de que a vocação da mulher é ser mãe, independente de como essa “maternidade” aconteceu, desprovido de qualquer pé na realidade e bom senso.

29.1.09

Mulheres I - Leila


Há mais ou menos um ano, eu li “O livreiro de Kabul”. O livro é baseado na experiência real de uma jornalista dinamarquesa que viveu durante três meses com a família do livreiro do título do livro. O livro é composto de diversas crônicas sobre a cultura, a política, e a sociedade afegã e os talibans. Esse livro mexeu muito comigo no que diz respeito a condição feminina no Afeganistão e em outros paises do oriente com uma cultura tradicionalista onde a mulher está totalmente subordinada ao homem, seja ele seu pai, seu irmão, seu filho ou seu marido, uma subordinação que extrapola os limites da vida privada e chega até a vida pública através do direito e da legalidade. Para estudar ou trabalhar, por exemplo, a mulher tem de ter a permissão do pai ou do marido. Fiquei muito sensibilizada quando li o livro, porque doía pensar em pessoas levando uma vida tão sem perspectiva – sim, meu olhar é ocidental, mas se todos lá levassem numa boa, não haveria mulheres ateando fogo em si mesmas por não suportar mais viver sob a opressão e violência de toda uma sociedade.

Lembrei desse livro essa semana por conta de uma situação um pouco parecida. Minha mãe é professora de um grupo de alfabetização de jovens e adultos no nosso bairro. Uma das alunas deixou de freqüentar o grupo e minha mãe foi até a casa dela saber se tinha acontecido alguma coisa. Quem a atendeu foi o marido da senhora. Ele nem a deixou conversar com a aluna, simplesmente disse que aquilo não era pra a esposa dele, que ela não precisava aprender a ler, que aprender a ler só lhe traria problemas. Essa foi uma conversar levada entre as grades do portão, pois o sujeito nem se dignou a abri-lo e conversar de maneira decente e educada.

Quando minha mãe contou esse episódio eu lembrei na hora de “O livreiro de Kabul”, mais especificamente da história de Leila, a irmã mais nova do livreiro. Leila cresceu durante o regime Talibã, ou seja, durante o período que os radicais islâmicos dominavam a política e a sociedade. A vida durante o período em que o Talibã controlava a política me pareceu muito com a idéia equivocada que se tinha, até pouco tempo, sobre a Idade Média, então chamada Idade das Trevas. Se existiu uma “idade das trevas” sem dúvida ela aconteceu no Afeganistão entre o final do século XX e o início do século XIX, pasmem! O domínio do Talibã, significou a destruição da cultura afegã, séculos e séculos de cultural, caídos por terra, a negação total da influência ocidental, o radicalismo religioso que negava a própria imagem do ser humano (representações da figura humana em livros, revistas e até em frascos de cosméticos eram riscadas com caneta ou tinta).

O que acontece com uma menina que cresceu sob uma burca, sob a sombra do Talibã, sob a sombra do corrupção eminente em tudo e em todos? Leila, tentou estudar, mas não teve forças para continuar porque julgava indecente assistir aulas de inglês na presença de outros rapazes. Leila tentou arranjar um emprego, mas não pôde, pois não tinha a autorização do irmão mais velho, e sua mãe não se esforçou muito para pedí-la, até porque ele não a daria. Leila tentou namorar um amigo de seu irmão moço, universitário que demonstrou interesse por ela, mas o irmão conseguiu azedar as coisas entre ela e o pretendente, afastando-o do convívio com sua família e se distanciando do amigo. Mesmo sabendo do interesse da filha por tal rapaz a mãe propôs a ela o casamento com o filho de um conhecido da família, que não tinha emprego, que não tinha perspectiva alguma. E Leila acabou aceitando pois não tinha perspectiva alguma também, porque seu destino nunca esteve em suas mãos mas sim nas mãos dos outros: nas mãos do pai, que tinha uma segunda esposa mais nova que ela; do irmão mais novo, que sempre a humilhava e espancava; e até mesmo nas mãos do tal pretendente, que ela julgava ser sua libertação daquela vida sem sentido, o passaporte para uma vida decente.

Tive pena de Leila, pois ela não tinha referências, ela não tinha ninguém em quem se espelhar, ela não tinha apoio nem das outras mulheres de sua família, para as quais o destino de uma mulher é casar e ter muitos filhos. Leila não sabe que eu conheço parte de sua vida, que chorei lendo sua historia, e que de tempos em tempos eu a relembro, nem mesmo sabe que eu estou aqui escrevendo sobre ela, agora. Leila talvez esteja no seu quarto filho, ou talvez tenha se ateado fogo – vai saber.

* * * * *

O que Leila e as várias mulheres brasileiras têm em comum? Aparentemente nada, mas se olharmos com mais atenção, para além da nossa minúscula janela, perceberemos que ainda existem várias e várias mulheres que colocam seu destino nas mãos dos outros, que continuam sendo espancadas e violentadas por seus parceiros, ou pala própria família sem tomar uma atitude. A diferença entre elas é que Leila, legalmente estava subordinada a figura masculina, aqui no Brasil há muitos e muitos anos a mulher legalmente é dona de sua vida. Então, por que se subordinam? Por que não reagir? Existem milhares de motivos que essas mulheres, e até mesmo minha mãe, dariam para essas minhas perguntas, mas ainda que esses motivos sejam legítimos há que se reagir, tomar as rédeas da própria vida e dar sentido a ela, porque para viver sem sentido é realmente preferível se atear fogo, e aquelas mulheres que tomam essa atitude, longe de estarem desistindo, longe de serem vítimas, estão, na verdade, pela primeira e última vez tomando as rédeas de seu destino, mesmo que este seja trágico.


* A opressão e controle sob os quais as mulheres vivem no Afeganistão não foi criado pelos Talibãs, pelo contrário, é uma característica cultural daquela sociedade, uma sociedade tradicionalista e patriarcal, onde a mulher ainda é moeda de troca. Mas antes de 1996, quando os talibãs tomaram o poder depois de anos recebendo apoio bélico dos EUA, interessados em manter uma guerrilha e minar a influência da União Soviética na região (que invadiu o Afeganistão em 1979), as mulheres já tinham o direito de trabalhar e estudar (em escolas para meninas é claro). O fundamentalismo religioso dos talibans, apenas exacerbou um traço cultural daquela sociedade e jogou uma pá de cal nos progressos em relação aos direitos da mulher que vinham sendo obtidos com muita luta e algumas mortes.




Imagem: Duas mulheres correndo - Pablo Picasso; postei uma obra de Picasso porque para mim na pintura ele está para Chico Buarque na literatura, no que diz respeito a retratar a alma feminina. Um faz isso na poesia, o outro faz isso nas artes plasticas.

16.11.08

Sentidos...


"Eu vi tudo

Eu vi a escuridão

Eu vi a luminosidade

De uma faísca

Eu vi o que escolhi ver

Vi o que precisava

E isso basta

Querer mais seria avidez"




Não estou com muito tempo para escrever, mas no início da semana que passou assisti um filme que estava a fim de assisti há algum tempo, na verdade há alguns anos. Chama-se Dançando no Escuro, foi lançado em 2000, dirigido por Lars von Trier. Eu achava que era apenas um drama e me surpreendi ao descobrir que era um musical – pra variar não gosto muito de musicais. Mais surpresa, ainda, fiquei ao me depara com uma história sensível que vai tomando um rumo trágico e com a atuação comovente de Björk.

O filme conta a história de Selma, imigrante da extinta Tchecoeslovárquia (a ação se passa nos EUA, anos 60), que trabalha numa fábrica e fazendo outros pequenos serviços com o objetivo de juntar dinheiro para a operação do filho, quando ele fizer 13 anos. O motivo da operação é que o menino tem a mesma doença hereditária da mãe, uma espécie de cegueira progressiva. Não há salvação para o estado de Selma, e ele fatalmente ficará completamente cega um dia, mas uma operação pode salvar seu filho do mesmo destino. Selma mora de aluguel num trayler no jardim de uma família e as coisas se complicam para ela, quando seu senhorio, que passa por problemas financeiros, descobre que ela tem mais de dois mil dólares guardados.


Há cenas lindíssimas e é uma exaltação dos sentidos. As cenas musicais, iniciam-se quase todas com a percepção da cadência do ruído no ambiente. Uma das tomadas geniais nesse sentido, a primeira tomada musical do filme, acontece na fábrica e a ação se inicia partindo do barulho e do trabalho mecânico no galpão onde Selma (Björk) e Kath (Catherine Deneuve) – sua amiga – trabalham fabricando pias de aço. Bacana mesmo, bonito de se ver. Mas a seqüência musical que eu mais gostei foi o momento em que Selma está voltando pra casa seguida por Jeff, pretendente da moça. Eles estão caminhando pelos trilhos do trem numa ponte, a conversa entre os dois é sobre a visão - esse é o momento em que Jeff percebe a cegueira de Selma. Todo diálogo entre eles é cantado e tanto e gira em torno do sentido da visão. É emocionante quando Jeff questiona sobre tudo que Selma não verá porque ela está quase cega, e ela responde cantando: Eu vi tudo/Vi a escuridão/E a luminosidade de uma faísca/Eu vi o que escolhi/vi o que precisava/E isso basta/Querer mais seria avidez.


Björk começa meio mal, pelo menos foi o que eu achei, mas no decorrer do filme cresce muito dando um show de interpretação dramática. Também me surpreendeu muito ver Catherine Deneuve atuando. Eu estava acostumada com a clássica imagem de A bela da tarde e outros filmes que ela fez em que seus personagens sempre possuem uma certa sensualidade. Neste filme ela é coadjuvante, interpreta Kath, amiga de Selma, uma operária, forte, determinada, meio rabugenta e extremamente humana - dá pra acreditar: a "bela da tarde" na pele de uma operária?! Mas esteve e foi perfeita. Sua personagem cria um equilíbrio na história, é como se ela fosse o lado racional de Selma, aquela que a puxa pra a realidade para o lado prático da vida.


A percepção do mundo através dos sentidos é o fio condutor do roteiro e principal argumento para as ações de Selma, para quem mais importante que salvar a própria vida, é salvar o filho de uma vida como a sua, salvá-lo da cegueira, permitir que ele tenha um futuro melhor, cheio de luz. Ao mesmo tempo há uma crítica sutil ao american way of life, onde só tem voz e vez quem tem grana, posição e aparência; onde pobres, mulheres, negros e estrangeiros são marginalizados e apesar do discurso da igualdade perante a lei, do qual os americanos se gabam, quem vacila não tem uma segunda chance.

Nesse sentido o filme lembra muito o sucesso recente do mesmo diretor Lars von Trier, Dog Ville, sendo que neste o foco do roteiro é a crítica à sociedade americana. Já em Dançando... o roteiro pende para o existencialismo.

É um filme comovente, bonito, com cenas tocantes e extremamente fortes, um bom roteiro que deixa o espectador ansioso e preso do início ao fim, muito bem amarrado, onde as ações e as motivações dos personagens fazem todo o sentido. Com uma dupla de atrizes fantástica. Um lindo filme triste, sobre pessoas simples, com uma vida simples e por vezes trágica.


* * * *


Lembrei do meu avô. Meu avô ficou cego com mais ou menos 61 anos, eu acho. Ele era uma pessoa super ativa e progressivamente foi perdendo a vontade de viver, passou por problemas sérios, ficou anoréxico, quase morreu, mas se recuperou. Entretanto nunca mais voltou a enxergar. Um dia eu estava conversando com ele e então me veio a cabeça fechar os olhos para ficar como ele, para entender o que ele via, o que ele sentia. Coitado do meu avô... Naquele instante eu entendi porque, um dia, ele perdeu a vontade de viver.

Dançando no Escuro/Dancer in the dark
ano: 2000
direção: Lars von Trier
Atrizes: Björk e Catherine Deneuve
Prêmios: Palma de Ouro de melhor filme no Festival de Cannes


2.11.08

Almoço, macacos e hienas africanas...


Almoços de família são ocasiões lindas e sentimentais somente em filmes americanos, ou em seriados tipo Brothers and Sisters. De maneira geral, os almoços de família são sempre uma boa oportunidade para se lavar a roupa suja, para jogar farpas, para fofocar da vida dos outros ou expor os infindáveis planos futuros para os filhos ou os seus próprios. Naquela tarde de domingo, não poderia ser diferente. Helena engoliu em seco e entrou em casa, já estavam todos esperando por ela. Ela se sentia um peixe fora d’agua. Ah, água doce, ela ansiava sim era por estar de molho em sua piscina Tone de 2 mil litros no quintal de sua casa, ou em uma banheira de hidro, mas essa há algum tempo não curtia. ‘Vacas magras’, o marido dizia. Esperava o aniversário de casamento, esperava o dia dos namorados, mas as vacas estavam sempre magras... "Quando elas finalmente estiverem como ele quer, eu é que terei esquecido como é trepar!", pensava. "Trepar mesmo, e não aquela rapidinha antes de ir pro trabalho, ou aquela transa cansada quando a gente vai dormir".

Bom, mas Helena engoliu em seco e entrou na casa da mãe, a coitada estava na cozinha, mais de sessenta anos e ainda estava pilotando o fogão. Por que não contratava uma cozinheira, uma diarista, uma empregada, qualquer coisa? Não era a falta de dinheiro, mas sim a arraigada idéia de que era ela quem tinha que preparar o almoço, mesmo que fosse resmungando e pedindo ajuda a quem se aproximasse para as mais pequenas coisa como acender o fogo do fogão.

O pai com o rabo pregado na poltrona da sala, cerveja numa mão, controle na outra, e na tv um filme de “pau-puro” com um brucutu austro-americano dando porrada e explodindo Deus e o mundo. Ah, aquele seria um grande domingo!

Entou carregando Lia no colo e Rodrigo pela mão. "Cadê seu maridão?!" Foi a primeira pergunta. "Hum, levou trabalho pra casa, vai passar o domingo trabalhando". Que nada, Elton tinha era arranjado uns relatórios atrasados para terminar, algo que ele faria em menos de uma hora, como desculpa para ficar em casa e se livrar da ocasião familiar. Ele poderia ter ido pelo menos para ajudar com as crianças, mas nem o apelo a responsabilidade paternal o fez mudar de idéia: "Ah, não Lena, dá muito bem pra levar os dois, e eu tenho muito, muito trabalho... Além do mais eles precisam visitar os avós, tem quanto tempo que eles vão la, hei...?" "Uma semana." "Tá vendo, ó, muita coisa! Eu fui criado vendo meus avós quase todos os dias...” Ela não deu mais atenção ao discurso, pegou as crianças amarrou nas cadeirinhas e foi embora.

Nessas horas tinha uma vontade louca de fumar um baseado, um daqueles que ela consumia avidamente na época da faculdade... Bom, pelo menos pensar no baseado a fazia relaxar um pouco, pelo menos nos meandros de sua cabeça, bem lá no fundo ela ainda se dava o luxo de sonhar com um baseado.

Mas nem tudo no almoço de família eram lamurias. A parte boa era o bate papo com irmãs, tias a cunhada, pelo menos quando o assunto era homem e sacanagem, mas quando a coisa deslanchava para o lado das feminices, começava a ficar chato. "Eu gosto de passar", "eu gosto de conzinhar", "ah, roupa lavada na máquina não está limpa" – "essas mulheres so sabem ser donas de casa, não sabem ser mulheres" pensava e saia de fininho, ia para a área fumar um cigarro comum mesmo, e apensa no baseado...

Mas o ápice do acontecimento, o clímax ainda estava por vir. Era a hora do almoço, a hora da comilaça, o momento em que todos se encaram e põem as vísceras para fora. Ela jurou pra si mesma que dessa vez se comportaria, que não afrontaria ninguém com seu sarcasmo agridoce, que não retrucaria de língua afiada nenhuma afronta, que se comportaria como uma boa e educada mulher de quase quarenta anos e com dois filhos no colo – afinal tinha que dar o exemplo, afinal a proposta da ocasião era a harmonia e união familiar, afinal ela não queria estragar o resto do domingo que já era enfadonho, com gritos, grosserias e verdades atiradas nas caras uns dos outros feito nacos de carne a leões de circo. Sim, todos se pareciam leões de circos ou hienas da savana africana.

Helena sentou-se à mesa e escutou pacientemente as alfinetadas dos pais (meus Deus, como ainda estavam casados?!), as fofocas das tias, a gritaria das irmãs e seus filhos que não queriam comer, ou pelo menos não queriam comer como ‘gente civilizada’, preferindo jogar comida uns nos outros. Escutou com desdém as colocações políticas quase nazi-fascistas do pai a respeito da política econômica brasileira, dos índios que deveriam ser obrigados a prestar serviço militar, sobre a Colômbia e a Bolívia e que o país tinha que fechar as portas e viver da terra e do petróleo – “O Brasil é auto-suficiente”, “O Brasil é o país do futuro!!!”

Ignorou até mesmo quando o papo voltou-se para ela e o fato de ganhar pouco , de fazer serviço comunitário, e morar de aluguel ao invés de entrar num financiamento, de não ser casada de papel passado. Foi então que percebeu que estava na quinta caneca de vinho, entendeu o motivo de sua indiferença quase altista e entendeu porquê estava vendo todos feito macacos, perturbando uns aos outros e posando de oradores. “AH, MACACOS DE CIRCO, MACACOS ORADORES!!!!” Falou, elevando a voz e caindo na gargalhada. Ninguém entendeu nada e ficaram entreolhando-se meio perplexos enquando ela continuava a repetir enquanto gargalhava “MACACOS DE CIRCO, OS DOZE MACACOS, MACACOS ORADORES...”

Alguém a tirou da mesa, ou ela própria saiu andando. Quando acordou estava na rede da varanda dos fundos. A voz de Elton ao longe a deixou na dúvida se estava sonhando. Não estava, ele tinha ido buscá-la e as crianças.

Depois das despedidas, as piadas dos sobrinhos e o olhar preocupado da mãe, foi embora. No carro, Elton ainda fez troça dela e de sua dor de cabeça, sim porre de vinho dá dor de cabeça, e enquanto ele a sacaneava fazendo os trocadilhos e piadas mais infames que de tanto faze-la rir a deixavam com mais dor de cabeça, ela pensava ‘eu preciso é andar com uns baseado na bolsa, para ocasiões como essa. Pelo menos baseado não dá dor de cabeça’.

1.12.07

Barbarie...

Faz hoje uma semana que saiu no Globo o caso da menina acusada de roubo no Pará que ficou trancada por 45 dias numa cela junto com vários homens. A, diga-se de passagem menor (15 anos), contou que foi estuprada e obrigada a manter relações sexuais com os presos, em troca de comida.
Primeiro, independente de ser menor, é um absurdo trancar uma mulher com vinte homens, numa cela. Ninguém sabia de nada? Ninguém podia fazer nada? Não há autoridade jurídica que possa dar jeito no caso? Os responsáveis se omitem dizendo que não havia outra cela, que não sabiam que era menor. Então se não é menor pode? quando a moça foi solta mandram que ela sumisse, o caso so tomou as proporções que tomou porque a probre coitada ao inve´s de fugir, denunciou o caso. Fico pensando se essa não é uma prática comum no Pará, e quem sabe, até aqui no nosso Rio.
Acho que essa história, passada essa semana e mais outra, acabará em nada. Os responsáveis, e as responsáveis, serão apenas afastados, talvez expulsos da corporação policial, mas eles têm seus contatos. Ninguém vai em cana. Que algume tempo depois essa pratica desumana e ediconda será retomada sem que nada aconteça. Não admira que de repente alguém resolva o caso por seus próprios meios, sabe, aqueles meios que imperam em regiões onde não há lei e por isso cada um resolve seus problemas da forma que lhe é mais conveniente. Não os culpo. Quem foi humilhada, não apenas por ser estuprada por um monte de homens durante mais de um mês, mas por que o fato foi banalizado e no fim das contas a culpa e da vítima, só quem passa por isso é que sabe o que é.
Hoje estava lendo o artigo a respeito, escrito pelo Zuenir Ventura, no Glogo. Ele se pergunta se casos hediondos como esse só acontece no Pará. Não, acontece bem de baixo do nosso nariz. Há algum tempo aconteceu um caso igualmente hediondo aqui no Rio, na baixada. Uma garota de 14 foi obrigada a manter relações sexuais com outros 4 rapazes, todos menores, enquanto era espancada e tudo isso foi filmado por um celular e distribuído para toda a escola onde a garota e os rapazes estudavam. Eram colegas, conhecidos.
Quando mais o tempo passa percebo que as pessoas estão mais barbaras. Houve punição para esse caso? Haverá punição para o do Pará? Duvido, duvido muito. Duvido de todo o sistema jurídico. Não adianta existir leis quando ninguém as leva a sério, é do tipo, para inglês ver. Não adianta existirem leis que os responsáveis por cumpri-las simplesmente se omitem, ou eles proproios estão comentendo crimes. Não adianta existir leis enquanto toda uma sociedade mantiver uma postura de panos quentes, de abafa o caso, quando houver condescendencia com estupradores e principalmente com as autoridades que se omitem.

11.9.07

Aos trinta...


"Velho de mais para se sentir jovem, jovem de mais para se sentir velho..."



Não sei quem disse isso, mas um amigo meu me falou dessa frase quando conversávamos sobre a chegada dos trinta anos. Ele está com 32 e eu estava a pouco mais de um mês para entrar nos 30. Quando ouvi a frase, senti um frio na espinha, como se uma gota gelada tivesse caído em minhas costas, me tirando de um momento de distração. Era exatamente o que eu sentia.
Tem coisas que a gente pensa e até diz, mas não sente, ou pensa que sente, e só percebe que nunca acreditou quando finalmente se olha no espelho e se vê, sem fantasias. Talvez os trinta anos sejam esse momento, o momento em que nos vemos sem fantasias, o momento em que estamos maduros para refletir sobre a vida, sobre nós mesmos. Talvez represente o último sinal para sair da juventude e finalmente entrar na idade adulta. Como anuncia o título do único livro que li de Sartre, a casa dos trinta é "A idade da razão", e essa "razão", não vem sem provocar incomodo, sem provocar um mínimo de contradição, medo, assombro, perplexidade.
Naquele dia, o dia da conversa, me senti menos só. Talvez por finalmente alguém entender o que eu sentia porque também sentiu igual, ou parecido, ou simplesmente porque sentiu algo.

* Completei trinta anos em agosto, sem muitas comemorações, a não ser o bolo em casa com a família - pai, mãe, avó e sobrinho. A comemoração com os amigos esbarrou num resfriado, ou crise alérgica – até agora eu não sei o que tive – e acabou não acontecendo.

30.3.07

A filha do mar


Todos diziam que era estranha e por isso muitos a viam com desconfianças. Ela adorava a água, principalmente o mar. Talvez porque nasceu num regato. Sim, a mãe, já com nove meses bem vividos, pariu num regatinho quando voltava da lavagem de roupas. Não deu tempo de chamar ninguém, embora algumas mulheres, que lhe acompanhavam, os outros filhos tivessem corrido à aldeia para pedir ajuda. A mãe disse que a criança já nasceu nadando, e nem chorou. Todos acharam isso muito estranho e pensaram logo em mal agouro. O fato foi que nada aconteceu nos dias e meses após o nascimento da pequena e toda a aldeia respirou aliviada, concluindo que fora apenas uma cisma.
A menina foi crescendo, e sua ligação com a água se estreitava. Era capaz de ficar horas no mar ou nos rios e sua pele permanecia a mesma. Entre todos dos colegas, era a que tinha mais fôlego, e conseguia mergulhar mais fundo. Nadava a noite, à lua cheia, brincava na água. Conhecia todos os peixes e podia vê-los a luz da lua. Cardumes azuis, verdes, prateados, estrelas do mar, navios naufragados...Sua própria beleza se misturava a do oceano e de seus habitantes. Costumava sentar-se nos corais e de lá observar o trabalho dos pescadores na praia, a preparação das redes, os barcos entrando no mar prontos para abrí-lo, sangrá-lo...No que ela pensava? Ninguém sabia, só se sabia que nadava a lua cheia, sentava-se no banco de corais a observar a praia e andava pela cidade com um colar de conchas no pescoço e outro no tornozelo, das mais variadas que pegava na profundidade do oceano.
Era chamada "a filha do mar", para desgosto dos pais que já pressentiam problemas com a menina. Era provável que por conta de seu comportamento tão indolente e amalucado nunca arranjasse marido. Nenhum pescador pensava em aproximação com ela, embora todos a achassem muito bonita. Ela também não se interessava por esses assuntos, pois ainda era muito menina a pesar de sua beleza e de seu corpo que já começava a se formar. O que noutra situação deixaria os pais tranqüilos, despertava, agora, de maneira contrária, preocupação. Se não arranjasse marido seria um peso morto na família.
Até que passou por aquelas banda um desconhecido, um homem velho e mal pousou os olhos na menina a desejou. A desejou ferozmente, como um lobo deseja uma gazela, queria possuí-la, de tê-la, de deflorá-la. Demorou-se na aldeia mais tempo do que se podia esperar de um forasteiro rico. Em geral eles não só passavam, levavam um peixe ou tomavam uma pinga na venda. Ele andava pelas ruelas espreitando a menina, observando-a com olhos famintos e mãos nervosas. Todos na aldeia perceberam que havia algo errado naquela permanência tão longa, todos sabiam que tinha a ver com a "filha do mar", mas nada fizeram a respeito, na verdade observavam como espectadores ansiosos pelo próximo passo, pelo próximo capítulo, conjecturando por entre olhares e risos maliciosos. Olhares desejosos por trás da observação, como voyeres se deliciavam com aquela perseguição silenciosa, aguardando o espetáculo do desfecho. Outros, principalmente a mulheres diziam que era o que ela, com seu comportamento voluntariosamente diferente, queria. Os pais, fizeram vista grossa, finalmente havia a perspectiva da filha arranjar finalmente um casamento, ou talvez de alguma forma o forasteiro a levasse e sustentasse. Estariam livres de uma responsabilidade.
Até que numa tarde quando voltava para casa da lavagem de roupa, numa tarde amarela e quente de verão seus colares foram arrancados e suas conchas esmagadas, num casebre velho nas proximidades da aldeia. Ninguém a ouviu gritar, e chorar, e talvez se ouvissem fizessem ouvidos moucos. Sentiu dor da defloração, o medo e a humilhação de quem é agredida e estuprada sem chance de defesa.
O forasteiro sumiu sem deixar rastro e a noticia correu como um raio. Os olhares maliciosos rodavam de um para outro no bar, as línguas faiscavam de vivacidade, delirantes como chicotes açoitando a vitima, sorridentes entre uma lambada e outra. Sim quase toda a aldeia entre murmúrios e silêncios especulava, agora, qual seria a sorte da menina, qual seria a sorte de sua família, e sentiam um prazer extremamente humano com a desgraça alheia.
Ao chegar em casa, suja de sangue e com as roupas rasgadas, os pais lhe deram uma boa surra – por andar feito uma "puta", solta pela cidade, na certa isso provocou o homem. Rezavam a Deus que ela não pegasse barriga, pois seria mais uma boa a comer.
Ela não entendeu os motivos dos pais lhe surrarem, nem por que seu comportamento teria motivado o abuso, mas percebeu o quanto as pessoas podem ser cruéis e intolerantes. Então, a dor física passou a ser dor na alma, uma dor profunda e aguda para alguém tão jovem. E olhando o mar que cantava se batendo na areia ainda mais bonito em ondas mansas, de um azul profundo, teve vontade entrar. Ele era seu mundo, seu lugar. E foi assim que no fim daquela tarde causticante, em que entendeu muito da vida, mais, que se tivesse vivido uma vida inteira, ela desapareceu no meio do mar.
Os pais se arrependeram e choraram a morte da filha, foram consolados pelos outros aldeões que lhes diziam, "ela era mesmo filha do mar". A aldeia continuou existindo, prosperou, definhou e morreu, consumida pela especulação imobiliária, pelas grandes companhias de pesca e pela poluição. A menina nunca mais foi vista, seu corpo nunca foi encontrados, mas dizem alguns marinheiros que caíram ao mar, e náufragos, que puderam ver em algum momento de submersão, uma linda garota, ornada de colares e pulseira de conchas e coroada de estrelas do mar das mais variadas cores, brincando em meio a cardumes de peixes cintilantes.

7.1.07

"Por que temos que ver tia Vera?"

Ia dirigindo calmamente. A filha no banco de trás brincava de boneca, de repente fez a pergunta bombástica. “Por que temos que ver a tia Vera? Eu queria brincar na pracinha”. Ela não respondeu. Continuou no volante. Sim, por que tinham que ir ver tia Vera? “Porque é uma ocasião familiar!” Respondeu sua mãe, no dia anterior, quando ela fez a mesma pergunta que a poucos instantes a filha tinha feito.
“Você já esta tão distante...Nessas ocasiões pelo menos tem de aparecer!” A mãe era assim, dramática. Ela tinha se distanciado. É claro, se distanciou desde que começaram a falar mal dela quando ficou grávida. Sabia que a tia Vera, iniciaria o interrogatório de sempre: “Como esta o seu marido...como é mesmo o nome dele...Marcos, não é?” “Não é meu marido tia, a gente não se casou...” “Ah, claro é mesmo..Lembro que ele era músico, não é isso...E o negócio, engrenou? A Juliana, termina esse ano odontologia e já tem consultório montado.”
Seu estomago começou a doer, provavelmente não comeria nada nesse almoço. Teria que aturar os comentários e o olhar da tia, recheado com uma suposta piedade (o que não deixava de ser detestavel!), mas que na verdade guardava uma satisfação terrivelmente humana e cruel, de ver alguém se dando mal, de tirar alguém por fracassado. No fundo, bem no fundo, tia Vera se deliciava com a brincadeirinha de encurralar a sobrinha com tais indagações – sobre as quais, já sabia muito bem as respostas –, como um gato perseguindo um rato.
Por que tinha que ir nesse raio de almoço, então? Porque a mãe lhe pediu. Porque não fugiria das investidas infernais de tia Vera. Porque queria mostrar, que apesar de ser mãe solteira, do pai de sua filha ser um idiota que não dava notícias a mais de um mês, e ela ter de sustentar a filha e a si mesma sozinha, como tradutora e fazendo outros mil bicos, apesar de tudo isso ela não estava nem aí para o que a merda da família pensava! Não, não era por nada disso - nem pela mãe, nem por seu próprio orgulho. Era porque ainda mantinha o velho grilhão imaginário que a prendia a esse resto de família.
Se fosse por orgulho, o que a impediria de dar uma boa resposta a tia, quando esta a jogasse no beco sem saída de suas perguntas mordazes? O que a impediria de dizer: “pois é tia, é uma pena que eu tenha me formado em letras, não é? Mas nunca tive vocação pra ficar olhando a boca podre de dondocas fumantes e muito menos vocação pra puta, como a Juliana, que deu pra todos os coroas ricos da zona sul. Só assim ela conseguiu montar o consultório e sustentar essa cobertura no Leblon, porque seu salariozinha de merda de aposentada da prefeitura não dá pra tanto, não é?!” Sim, várias vezes pensou em dizer isso à tia, mas não podia. E por que não podia? Porque essa lógica familiar, que faz as pessoas perdoarem até o imperdoável, estava enraizada nela.
Antes de pensar na humilhação que faria a tia, uma sexagenária, passar, antes da certeza de que essa lavada de roupa suja não mudaria sua vida, nem mudaria a forma de pensar de sua tia, ou faria dela uma pessoa melhor, em resumo, antes de concluir que não faria a menor diferença na vida de ninguém, falava mais alto uma obrigação familiar. Uma cumplicidade muda, que permeava os relacionamentos, que segurava uma família. Romper com isso era desestruturar a instituição, por abaixo o castelo de cartas, e desestruturar sua própria vida, que se apoiava, em algum grau, na dependência psicológica desses laços já puídos. Percebia, claramente, que era tão hipócrita participando do teatro, quantos seus atores mais antigos. Quando é que esqueceria isso, quando é que se libertaria?
O carro parou na frente do prédio. Olhou para a filha, no banco traseiro. Ela ainda brincava distraída com a boneca. Um flanelinha já lhe fazia sinal para ocupar uma vaga. Ela olhou o prédio, se inclinou mais e mirou a cobertura. Piscou, rápido. Só tinha uma coisas a fazer: ficar ou sair. “É mãe, dessa vez não vai dar. Fico te devendo essa.” Deu marcha-ré, manobrou a Fiat e saiu pelo mesmo caminho que chegou. Desligou o celular, tinha certeza que a mãe ligaria. “Ah, não, amanhã a gente se entende.”
Dirigiu até chegar ao Leme e parou para beber água de coco. O barulho do mar, das ondas arrebentando na praia, a deixava mais calma, mais serena. Sentia-se leve agora. Olhou para filha, que tomava água no canudo com um ar solene. Passou os dedos nas bochechas da garota que lhe sorriu um sorriso banguela, largando o canudo. Aquele sorriso era tudo. “Não, ela não viverá essa hipocrisia, a menos que queira”, pensou. “Vamos à pracinha, filha?!” Seguiram felizes para o carro, era uma viagem longa até o Meyer. Atrás delas o mar, infinito, enorme, ainda se batia na areia.

20.11.06

Existências


Quando chegamos em casa, voltando da escola, tinha um mundo de gente no quintal, um carro de polícia e outro dos bombeiros na frente. Mamãe tinha metido um balaço na cabeça. A vizinhança toda estava la. Eu e minha irmã, no início não entendemos nada, mas senti meu sangue gelar, eu não queria chorar, queria saber o que estava acontecendo, queria na verdade ver que estava tudo bem, que ela só tinha passado mal, mas estava legal. Não, não foi isso. Ela tinha se matado. Meu pai falava com o policial no meio da sala. Ele tinha chegado minutos antes de nós. Estava muito sério, uma seriedade de medo, quando a gente tem medo e para espantá-lo ficamos sérios fechamos a cara. Papai estava assim e eu também. Eu só vi minha mãe no fim do dia seguinte, no enterro. Essa foi a ultima vez que a vi.
Aquela manhã, fora estranha. Mamãe estava feliz de mais, radiante como nunca estava. Muito diferente das habituais manhãs, quando ela sempre estava com olheiras, arrastava-se até a mesa, tomava café com o olhar perdido no nada. Nos é que a beijávamos e íamos para a escola. Quando chegávamos ela estava no sofá da sala ou em seu quarto deitada fumando. Era assim desde que me entendia por gente. Sempre voando, às vezes chorava convulsivamente. Tomava uns remédios, que hoje sei do que se tratava: antidepressivos. Nunca fizeram efeito nenhum. Até que um dia ela resolveu parar. Parar com tudo. A imagem que fui construindo através dos anos é que minha mãe estava feliz naquele dia porque finalmente tomou uma decisão em sua vida: decidiu deixar de viver. E estava feliz porque pelo menos isso ela faria direito. Estava feliz porque conseguiria dar uma resolução para seus problemas. Por isso estava arrumada, nos serviu o café, nos levou até o portão, nos beijou e mandou-nos para a escola. Por isso ela olhou pra gente com uma felicidade desesperada nos olhos. Nunca esqueci aquele olhar, e por muito tempo ainda me senti culpada por não perceber a loucura nele.
Os dias que se passaram foram pesados. Ficamos um tempo na casa de minha avó, ela não falava o nome de minha mãe, só dizia “a falecida”, revirava os olhos e batia na boca, como se dissesse algo que não devia. Eu e minha irmã, não falamos sobre o assunto, até que, uma semana depois, quando fomos dormir, minha irmã perguntou: “o que vai acontecer com a gente agora?” “O que vamos fazer?” “Ora, nada, continuaremos vivendo”, respondi. Eu não sabia o que dizer porque eu mesma me fazia essa pergunta ha dias. Naquela noite eu demorei a dormir. Sentia falta de mamãe e não entendia porque ela fez aquilo.
Por muito tempo eu senti raiva de dela. Era raiva, saudade, culpa, medo ...tudo junto. Minha irmã, eu não sei, talvez sentisse só saudade. Nessas horas eu queria ser como ela. Sentir saudade e só. Chorar até não ter mais forças e assim expulsar todo o sentimento ruim, toda mágoa, toda a dor, tristeza, desespero, tudo...E poder sentir só saudade de mamãe. Mas eu não era como minha irmã, eu era dura e queria ser forte, não queria ser vítima de nada, e para isso eu me distanciava das situações de dor.
Quando voltamos para casa, tudo estava diferente. A casa tinha sido pintada, cortinas e moveis trocados e o mais intrigante, não havia um retrato de minha mãe em lugar algum da casa. Era como se quisessem apagar a lembrança dela. Aquilo foi tão estranho, apagar a existência de alguém. Por que? Talvez quisessem nos poupar das lembranças, ma isso só vez aumentar mais minha angústia. Eu também comecei a temer falar o nome dela e ate pensar nela. Passei alguns dias com medo de dormir no meu quarto, era como se não fosse a minha casa. Nas horas que estava la dentro eu andava de um cômodo para outro, como se procurasse algo, ou fugisse de algo, por fim ia para o quintal e ficava la até anoitecer. E então voltava pro quarto que não era o meu, para um monte de lembranças e angustias que só eu sabia e não podia falar com ninguém.
Dois meses depois, papai nos apresentou sua “nova” namorada. Uma loura, alta bonita, colega da repartição, muito simpática e muito intima de papai para alguém que se acabou de conhecer. Eu e minha irmã nos entre olhamos e eu encarei meu pai o resto do jantar, ele ficou tão incomodado que logo levou a moça pra casa. Nunca conversamos sobre isso, ou qualquer outra coisa e a partir desse dia fui me afastando dele e só restou entre nos uma relação de obrigação entre dois indivíduos que são pai e filha e uma fina magoa que nós dois sabíamos o motivo. Alguns meses depois ele se casou com a loura, vovó não se cansa de exclamar que estávamos superando muito bem a tragédia e que seria ótimo uma mulher em nossa casa. Devia mesmo estar feliz pelo filho ver-se livre da maldita depressiva, reconstruindo sua vida.
O tempo passou... Passou rápido pra mim. Quando se tem 16 anos e a mãe se suicida tão, ou a gente pira, ou amadurece, ou segue vivendo esperando que um dia as coisas melhorem – minha irmã fez essa última escolha, eu na concepção do meu pai pirei. Fui estudar engenharia, numa época em que mulher não estudava isso, saí de casa e fui morar numa república, onde rolava de tudo e eu provei de tudo. Nesse tempo abandonei minha família, só tinha contado com minha irmã, que sempre foi meu porto seguro. Acho que somente ela eu considerava família, os outros, incluindo meu pai, eram parentes distantes e as vezes dispensáveis. Virei a vergonha deles e eles me esqueceram. Participei de tudo quanto foi ato contra a ditadura militar e quase fui presa uma dezena de vezes, só não participei de organização porque sabia que aquilo acabaria mal. No meio da faculdade mudei de curso e fui fazer jornalismo.
Dez anos depois de ter ido embora eu voltei a minha antiga casa. Era aniversário de 50 anos de meu pai e ele faria um jantar, eu não fui ao jantar, apareci na tarde do dia seguinte. A casa tinha passado por algumas obras eu só não sabia ao certo o que tinha mudado. A mulher de meu pai já não era tão linda e viçosa, engordara e na cabeça tinha cabelos brancos junto com a lourisse, me recebeu como sempre – sorriso de boneca de uma orelha a outra. Eu fiquei sentada na sala, enquanto ela ia chamá-lo. Existia um ar de decadência no ambiente, as paredes estavam mofadas e tudo cheirava a mofo, cheguei a ficar feliz por não ter ido ao jantar de aniversário, imagina, comer com um cheiro daqueles no nariz. Meu pai entrou em minutos, apoiado numa bengala – alguns dias antes tinha levado um tombo. Conversamos sobre a vida, ele me perguntou como eu estava, o que fazia e tal.
Por fim eu falei.
“Pai, eu vim ver como você estava, tem tempo que não apareço nem você aparece...” “E eu queria te pedir uma coisa. Quero as fotos da minha mãe.”
Meu pai pareceu engasgar, baixou os olhos, olhou para os lados, senti que ele diminuía. Ah...a velha magoa entre nós...Silêncio...
“Pois é pai, desde que ela morreu eu não vi nenhum retrato dela, imagino que você tenha recolhido e guardado, então ...”
“É só isso? Estão aqui.” Levantou, foi ao bufet que ficava na sala puxou uma gaveta e pegou um envelope gordo, pardo, muito velho e oxidado. Eu não acreditei que estivessem ali.
“Aqui esta.”
“Obrigada.” Eu não abri o envelope, não tinha coragem de abrí-lo. Na verdade estava em choque. Achei que ele me enrolaria, me daria uma lição de moral e tal...mas nada ele me entregou as fotos como quem entrega uma revista. Eu fiquei sem jeito, sem graça. Levantei apertei a mão dele e fui embora, sem dizer se voltaria e ele sem me pedir para voltar.
O pacote foi queimando na minha mão e eu não conseguia pensar em mais nada. Chegando em casa liguei pra minha irmã e pedi a Mirian que fosse no meu apartamento para abrirmos juntas o pacote.
Ela chegou duas horas depois e nessas duas horas eu recordei em flashes minha vida desde a morte de mamãe. Eu tinha 33 anos e não tinha superado aquilo. Fiz de tudo na vida, tentando fugir da dor, mas ela esteve presente em cada minuto de minha existência desde aquele fato. Eu via isso claramente agora.
Mirian e eu abrimos o pacote juntas e o que vimos foi uma sucessão de fotos de família e não só mamãe estava nelas, mas sim todos nós. Eram fotos de aniversários, festa de parentes, tios, amigos...Fotos de mamãe quando era muito mocinha....Nessas, ela parecia feliz, em outras já estava com o mesmo ar perdido de sempre. A cada foto que víamos, íamos recordando acontecimentos, recordando um tempo sem sombras, um tempo em que tudo era mais leve, um tempo em que éramos crianças e ainda não sabíamos muita coisa do mundo dos adultos, da vida.
Naquela noite, rimos e choramos muito, mas soubemos que uma página arrancada, e esquecida numa gaveta, estava sendo remendada e posta no lugar. Não havia mais lacunas no passado, pelo menos para mim. Eu procurei um terapeuta, o que já queria fazer a muito tempo, mas não tinha coragem, e assumi meu relacionamento com Cláudio, que sempre me pediu, mas eu negava com medo de me envolver com alguém.
Não sei onde mamãe esta, agora que a libertei. Sim ela sempre esteve comigo, durante quase vinte anos. Acho que agora ela realmente esta em paz. Eu ainda lembro do olhar dela, o último olhar. Não mais o interpreto como um olhar louco, ou me sinto culpada. Vejo-o como um olhar de despedida, de alguém que acha que será mais feliz morrendo. Eu ainda não entendo por quê ela pensou assim. Eu ainda sinto sua falta.
Obs.: minha mãe esta muito viva e é uma pessoa cheia de vida e otimismo. rs... É uma das pessoas que mais amo e admiro neste mundo.

12.11.06

A Caneta



Tinha acabado de receber a encomenda. Vinha de outro estado, de São Paulo. Uma caixa com as coisas de sua avó paterna. Não a tinha conhecido. A avó e seu pai haviam sido separados quando ele era uma criança. Então, não sabia quem tinha sido aquela avó. Há algumas semanas, recebera uma ligação, que na verdade era para seu pai. A partir de então, soube que tinha outra família, que vivia no interior de São Paulo e queria comunicar o falecimento de dona Olga. Foi uma tia quem ligou, comunicando, também, que enviaria alguns pertences, que dona Olga queria que fossem entregues ao filho perdido.
Achou aquilo tudo muito estranho. Uma avó que surgia do nada, de quem seu pai nunca havia falado. Enfim, já que seu pai tinha falecido, sua mãe, desde a separação, não se envolvia nos negócios dele e por ser filha única, ela assumiu a responsabilidade de receber a encomenda. Não pensou mais no assunto, mas, naquele instante, quando recebeu o pacote, pensou: o que será que tem dento?!
Deixou a caixa sobre a mesa. Tentou não dar muita importância, afinal o que poderia ter ali dentro? Velhos pertences de um velho fantasma. Sim, aquela avó era um fantasma. Era provável que fosse um fantasma até para seu pai, se este ainda fosse vivo. Por que ele nunca falou nada? Nunca comentou que tinha mãe? E se ele nem soubesse? Se tivesse sido abandonado? Não, isso não podia ser, ele tinha pai, ela viu as fotos do avô. Fazia todas essas especulações enquanto lavava a louça e percebeu que não sabia nada da vida de seu pai. Sentiu um respingo frio na perna, a pia entupira e transbordara, molhando o chão. "Merda de pacote!", pensou.

Passou a tarde na cozinha, limpando, lavando, arrumando, cozinhando, então, quando anoiteceu, e não havia mais nada o que fazer lá, foi até a sala. O pacote sobre a mesa parecia esperar por ela. Pensou: "não seja idiota, abra logo!". E pegou o pacote rasgando todo o papel, como se tivesse medo que ele escapasse de suas mãos. Arrancou o papel que cobria a caixa, quase com raiva e, por fim, abriu-a.

Uma caneta, apenas uma caneta. "Que porra de brincadeira é essa?" Olhou atentamente. Era uma caneta de metal, preta, pesada, lisa, velha, gorda, bonita, boa de pegar. Observou-a. Era tão lustrada, que podia ver seu reflexo. Dentro da caixa, só a caneta, nenhum papel. “Eu, hein! Velha louca! Nunca deu as caras e manda um presente póstumo ao meu pai: uma caneta velha!” De repente, a caneta desencaixou e de dentro dela caiu um papel amarelo. "Ai, meu Deus, o que será agora?"
Tinha uma inscrição:
"Meu filho, não te conheço, nunca vi teu rosto. Você era muito pequeno quando foi levado de mim. Hoje é teu aniversário e eu te comprei essa caneta. Ela ficará guardada, como todos os outros presentes que te comprei nesta data: brinquedos, roupas, camisa de time de futebol. Mas esse é um presente especial, pois, na idade que você tem hoje, é provável que já tenha se formado, que seja um advogado, um médico ou um professor. Feliz aniversário, filho! Te amo muito!”

Leu o pequeno bilhete com dificuldade. As letras eram pequenas e quase apagadas pelo tempo. Deveria ter, mais ou menos, uns 30 anos. Ficou olhando para ele, revirando, vendo se tinha alguma outra informação. Nada, não tinha nada. Ficou imóvel, calada, sem saber o que fazer. O que significava tudo aquilo? Por que seu pai e sua avó tinham sido separados, quando ele era tão pequeno? Ele não tinha ninguém, a não ser uma meia dúzia de amigos tão bêbados quanto ele. Diferente do que imaginou a avó, ele não se formou em nada, mal terminou o secundário, empregou-se numa repartição pública, na base da “peixada”, e foi tocando a vida. Conheceu sua mãe na repartição, casaram-se, tiveram uma filha e sete anos depois se separaram. Durante os sete anos de casamento, foram parar na delegacia mais de dez vezes, por conta das brigas entre eles. Após a separação, viram-se muito pouco, somente no fórum para acertar a pensão – que ele nunca pagou direito – e nos aniversários da filha. Foi consumido por uma cirrose, que o matou aos 55 anos. Mesmo assim, não tinha mágoa do pai.
Ele era divertido. Tinha paciência com ela, nunca lhe bateu, sempre ia às festas de aniversário. É claro que, na maioria das vezes, já tinha entornado umas pelo caminho, ou chegava no fim da festa.
Sorriu pensando nele. Nos últimos meses, não tinha sorrido muito. Tudo estava muito difícil e ela sentia-se sem eira nem beira, como um “João bobo” balançando sem direção. Por mais que não soubesse nada do passado de seu pai, ela o sentia mais próximo que sua mãe. Era como se tivesse perdido o melhor amigo. Percebeu que chorava. Nunca tinha chorado por ele, nem quando estava sozinha. Ficou imaginando: e se ele tivesse sido como a avó pensou? Será que sua vida seria diferente? Provavelmente, quem abriria esse pacote seria ele mesmo.
Mas e se ele não fosse o filho perdido de Olga? Como a família dela o tinha encontrado? Pelo bilhete, Olga não conhecia o filho e não possuía informações sobre ele. Por que, somente agora, depois da morte dos dois, ocorreu essa espécie de reencontro? E se tudo isso fosse um engano? Subitamente, teve medo de que alguém ligasse dizendo que tudo não passou de um equivoco. Então, quem seria seu pai? Novamente, cairia no abismo de um passado vazio. Ouviu um barulho. Era a mãe, rodando a chave na porta. Limpou a mesa, jogando os restos do pacote fora e guardando a caneta, com o bilhete, no bolso.
”Olá! Ai, meu dia foi um inferno! Fica cada vez mais difícil voltar pra casa. Ah, e a encomenda?! Chegou? O que era?”
”Só uma caneta, mãe, mais nada”. Caminhou para a cozinha e, antes que a mãe pudesse dar continuidade ao assunto, gritou: “Fiz panqueca e está quente, vamos jantar!”


Sim, elas ainda conversariam sobre o insólito presente durante o jantar, mas sua mãe logo esqueceria aquele episódio, como esquece tudo o que vê indo ao trabalho ou voltando para casa – os detalhes do cotidiano. Aquela história faria parte da rotina, que se apaga de minuto a minuto. Mas ela jamais esqueceria, guardaria aquela caneta e não contaria sobre o bilhete. Agora, conhecia uma parte da trajetória de seu pai, ironicamente uma parte que nem ele conheceu. Talvez esse passado, tornasse o presente menos áspero e apaziguasse a falta e a saudade que lhe era tão difícil deixar fluir. Aceitou a caneta como uma verdade. Sim, era melhor essa verdade que nenhuma outra, que o silêncio de um passado sem identidade, sem história.



Viviane Magalhães
Niterói, fevereiro/2006