17.1.13

Algumas divagações sobre cenas de amor e um grande sucesso do cinema...

É tendência, há bastante tempo, que cenas de amor sejam explícitas. Explico: por explicitas quero dizer, cenas em que o desejo deve ficar bem claro para o espectador, o que se traduz em cenas de sexo, ou mesmo cenas sem sexo, mas quentes e explicitas pra não deixar a menor duvida que os personagens vão transar ou estão transando. É quase impossível ver um filme, sobretudo filmes norte-americanos, em que o desejo e o sexo estejam na cena sem estar explicitamente na cena. Porém, não estou falando de algo inexistente.

Há cerca de um mês revi, mais uma vez  O Caçador de Androides - 1982. Toda vez que vejo esse filme, percebo algo diferente. Alguma coisa nos ambientes, nos personagens, nos diálogos. Dessa vez percebi duas coisas: Rick Deckard, o protagonista, perde espaço para seu antagonista Roy (interpretado de maneira excelente por Hudger Hauer). E não é apenas pela antológica cena em que Roy está morrendo em meio a chuva, mas sim, porque Roy tem uma força absurda, é um personagem forte, aterrorizante em sua frieza e força descomunal, mas ao mesmo tempo fascinante e comovente em sua luta por mais algum tempo de vida. Através dele é que refletimos sobre o quanto a posição dos andróides é injusta na mundo criado por Philip K. Dick e reinventado para o cinema por Ridley Scott. Refletimos sobre o que é ser humano, ou não humano e tal. Mas essa reflexão não vem a tona apenas no fim do filme, ela o perpassa totalmente através da figura de Roy e os demais replicantes. É impossível não se identificar e se comover com a ânsia de vida deles.

A segunda observação tem a ver diretamente com a introdução deste texto. A cena em que Deckard e Rachel ficam juntos é uma das mais quentes do cinema, mais cheias de tesão, sem entretanto ter mais que uns dois beijos e o peito semi nu de Harrison Ford. O tensão sexual entre os personagens está insinuada na cena através da música, dos olhares, da forma como a câmera passeia lentamente de um personagem para o outro, no visual de Raquel que pouco a pouco vai se soltando e deixando o ar formal e austero para revelar feminilidade e ao mesmo tempo fragilidade - o medo de se envolve com aquele que pode ser seu algoz. Com todos esses elementos a cena vai crescendo e explode quando os dois finalmente se beijam e se tocam. É uma cena cheia de sensualidade e tesão e o mais interessante, sem ter nu nem aqueles beijos que mais parecem um desentupidor de pia. Uma prova de que não é necessário ter apelo sexual para uma cena ser altamente sensual e por isso ser uma cena bonita.

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O filme Caçador de Androides (Blade Huner) e uma obra baseada no livro homônimo do escritor norte-americano Philipe K. Dick. Filmado por Ridley Scott em 1982, conta a história de um caçador de recompensas que vive de caçar androides (seres humanos projetados em laboratórios, para servirem como trabalhadores, com tempo de vida determinado) num futuro onde a terra foi destruída por uma guerra mundial, quase todos os animais foram aniquilados e possuir um animal verdadeiro é um simbolo de status social. Ridley Scott encaixou essa historia num ambiente noir futurístico, o que ficou muito, muito bacana no cinema. Quem leu o livro, como eu, acha que o filme ficou muito aquém do esperado, tanto pelo retrato do ambiente, como pela própria adaptação da história. A terra descrita por Dick era mais destruída, mais decadente; a questão social de ter um animal verdadeiro é um dos eixos ao redor do qual a história se desenrola, é por essa razão que Deckard aceita caçar os quatro androides fugitivos, além de Deckard ser um personagem de maior peso que os androides.  Eu, ao contrário dos aficionados pelo livro, achei o filme ótimo. Talvez por ter visto primeiro o filme e só muitos anos depois ter lido o livro, por ele ser estrelado por um dos meus atores preferido à época, ou simplesmente pela originalidade do argumento e pelo ambiente criado por Scott. Entendo que mudanças tinham de ser feitas para o que o filme ficasse interessante do ponto de vista comercial, ou seja, tinha que vender. Scott fez isso mas sem perder a mão, sem perder de vista que um filme comercial também pode ser um filme autoral, original, arte.

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Filme: Caçador de Androides (Blade Runner)
Ano: 1982
Direção: Ridley Scott
Elenco: Harrison Ford (Rick Deckard); Hudger Hower (Roy Batty); Sean Yang (Rachel); Pris (Daryl Hannah).




Livro: Caçador de Androides (Do Androids dream of eletric ships?)
Ano: 1968
Autor: Philip K. Dick
Editora: Roco

3 comentários:

Sidnei Eduardo Vaz disse...

Excelente crítica e um filme maravilhoso!!!!

Romanzeira disse...

Valeu, Edu! Adoro esse filme, junto com Star Wars, são meus cults de ficção preferidos! Bj.

José María Souza Costa disse...

CONVITE
Passei por aqui lendo, e, em visita ao seu blog.
Eu também tenho um, só que muito simples.
Estou lhe convidando a visitar-me, e, se possível seguirmos juntos por eles, e, com eles. Sempre gostei de escrever, expor as minhas idéias e compartilhar com as pessoas, independente da classe Social, do Credo Religioso, da Opção Sexual, ou, da Etnia.
Para mim, o que vai interessar é o nosso intercâmbio de idéias, e, de pensamentos.
Estou lá, no meu Espaço Simplório, esperando por você.
E, eu, já estou Seguindo o seu blog.
Força, Paz, Amizade e Alegria
Para você, um abraço do Brasil.
www.josemariacosta.com