13.4.11

Sobre o Realengo

Recebi esse email pelo GT Marxista da Anpuh e achei muito interessante, por isso estou postando. Acho importante a gente pensar no problema da doença mental. A pessoa com doença mental geralmente é discriminada dentro da própria familia, que insiste em não reconhecer que a pessoa precisa de ajuda. Fora do ambiente familiar é comum as pessoas zombarem de quem faz terapia, analise e para a aqueles que recorrem ao psiquiatra, geralmente, o afastamento é a reação mais comum.
Durante meus anos no fundamental sempre fui meio descriminada pelos colegas porque era muito quieta, porque gostava de ler jornais, revistas, porque gostava de estudar e porque sempre tinha opinião formada sobre assuntos que eles mão tinham conhecimento e também porque não era nenhuma beldade adolescente. Lembro que um colega de turma colocou-me o "gentil" apelido de "virgenzinha" e a sacangem so parou quando eu o peguei pela gola da camisa durante o recreio e quase o esmurrei. Meu maior sonho era sair daquela escola, meu maior sonho era conhecer o mundo que era muito maior que Magalhães Bastos e que a escola Guimarães Rosa.
Acompanhando o caso do Realengo não pude deixar de relembrar esses tempos e também de ter plena consciência de que só consegui superar essa fase da pré-adolescência e adolescência conturbada - tanto pela minha personalidade introspectiva quanto pela chacota dos colegas -, pelo fato de ter uma família que sempre me apoiou, por encontrar amigos de verdade, os quais estão na minha vida até hoje, por encontrar espaços onde meu jeito era respeitado, ou seja, espaços de tolerância - e eu me refiro direamente aos dois prés-vestibulares comunitários dos quais participei, o Educando, em Cascadura, e da AMOC, em Oswaldo Cruz - e por ter iniciado um tratamento psiquiátrico e psicológico quando cheguei ao momento mais profundo da depressão. Teve importancia fundamental na minha vida, principalmente, a terapia, que so terminou há pouco mais de um ano.
Agora, devo lembrar que de 1999 a 2006, eu peguei pelo atendimento. Procurei atendimento comunitário, que era um valor bem a baixo do mercado, mais ainda assim era pago. Nos dois últimos anos de tratamento, consegui acompanhamento em um posto de saúde porque minha psicologa trabalhava nele. No posto várias vezes vi gente chegando procurando atendimento psicológico e sendo encaminhados para outra unidade de saúde pois ali não tinha vaga. Ou seja, o atendimento nos postos públicos é muito limitado, não dando conta dos inumeros casos que aparecem.
As vezes, fico pensando que se não tivesse encontrado pessoas solidárias comigo, se não tivesse conseguido o atendimento psicologico comunitário - que como ja disse, eu pagava, mas era um valor praticamente simbolico se a gente for pensar no preço de uma sessão de terapia - se minha família não me apoiasse e me entendesse, talvez eu não estivesse aqui escrevendo esse texto, hoje.
O massacre do Realengo foi uma coisa horrivel - essa escola fica muito perto da minha casa - mas como o texto abaixo chama a atenção é hora de as pessoas pensarem, refletirem sobre os motivos mais profundos que podem ter levado a tal acontecimento.

Deixo vocês como o texto:
"O programa “Fantástico” transmitido pela Rede Globo na noite de ontem exibiu novas reportagens sobre a tragédia que se abateu sobre a Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. As reportagens devem ter suscitado novas preocupações nos espectadores atentos.




1) É legal e admissível que a polícia carioca repasse imagens e documentos da investigação para a Rede Globo com exclusividade, discriminando os outros veículos de comunicação?


2) Segundo as imagens transmitidas, as professoras das duas salas de aula invadidas pelo atirador foram as primeiras a fugir, deixando para trás as crianças e adolescentes pelos quais eram responsáveis. Por que a entrevistadora não questionou esse comportamento? Por que as autoridades educacionais do Rio de Janeiro não apuram, nem discutem com as famílias dos alunos, a conduta da direção, dos professores e dos funcionários da escola no episódio, até mesmo para estabelecer padrões de reação escolar na eventual repetição de ocorrências semelhantes? Segundo regra conhecida, o comandante de uma embarcação que naufraga, deve ser o último a abandoná-la.


3) Relatos de colegas de Wellington de Oliveira, reproduzidos pelo programa da Globo, confirmaram que o menino introspectivo e vulnerável costumava ser objeto de gozações e humilhações na escola. Grupos de alunas o cercavam, roçando seu corpo e simulando assediá-lo sexualmente, para o sádico divertimento de outros alunos e alunas que assistiam. Em uma ocasião pelo menos, colegas mais fortes o levantaram pelas pernas, enfiaram sua cabeça numa privada e acionaram a descarga, conforme os entrevistados admitiram. Contraditoriamente, uma das professoras que abandonou precipitadamente a sala de aula, abandonando para trás seus alunos, declarou enfaticamente no programa da Globo que nunca houve “histórico de violência” na Escola Municipal Tasso da Silveira. O que era feito com Wellington não configura violência e violência repetida? Como são supervisionados os banheiros, os horários de recreio e as saídas das escolas, que se têm revelado momentos e espaços críticos para a integridade e a segurança de alunas e alunos mais indefesos?


4) Conforme as declarações de um dos irmãos de criação de Wellington, a mãe deles foi chamada à escola, alertada para o comportamento discrepante do aluno e aconselhada a procurar um psicólogo ou psiquiatra para avaliá-lo. Isso foi feito? Em nossa sociedade capitalista, sobretudo na fase neoliberal e privatizante que atravessa há cerca de duas décadas, existe serviço público na região capaz de assegurar esse atendimento, tratamento e acompanhamento? Por que esses aspectos da tragédia não são pesquisados, nem discutidos?




5) Por que não têm sido ouvidos juristas competentes sobre os aspectos penais envolvidos em atos de jovens esquizofrênicos, mesmo que esses atos sejam chocantes, brutais e injustificáveis como os que abalaram a escola do Realengo? Se Wellington tivesse sobrevivido, ele poderia ser levado a júri e condenado à prisão? É correto tratá-lo raivosamente como “criminoso” e “assassino” como qualquer jovem normal e imputável, esquecendo seu prolongado e negligenciado sofrimento mental? A dor merecida pelas vítimas de sua insanidade e a solidariedade com os familiares dos alunos mortos e feridos devem impedir a solidariedade com os familiares do autor dos disparos e a compaixão pelo jovem que premeditou e executou o massacre e acabou sendo vítima de seus próprios atos tresloucados?




A tragédia do Realengo precisa ser debatida de forma séria e multilateral se a intenção for evitar a repetição de ocorrências semelhantes e não apenas disputar índices de audiência.


É preciso insistir: tudo que é humano é inseparavelmente individual e social. Inclusive a loucura e suas consequências. O capitalismo contemporâneo incentiva, mais do que nunca, o individualismo, a competição, a insensibilidade. Exalta os vencedores e despreza os derrotados. Pode queixar-se de colher os frutos de seu darwinismo social?"



Duarte Pereira



11/4/2011

Um comentário:

C. S. Muhammad disse...

Muito bom texto. Sempre bom repensar e refletir sobre o que nos empurram garganta a baixo pela mídia!
bjss