8.3.11

Eu odeio o dia dos namorados - (I hate the valentines day)

Passei o carnaval inteiro dentro de casa por conta de um problema no braço que me fez tomar antibióticos e ter de ficar sossegada sem mexer muito o esquerdo. Como ficar em casa para mim cheira a ler ou ver vídeos e ler numa casa onde moram mais de duas pessoas, em feriados, finais de semanas e dias de festa em geral, é meio para não dizer muito difícil, minha opção foram os filmes mesmo. Aproveitando o sossego forçado, pequei um filmezinho que há algum tempo eu estava querendo assistir: Eu odeio o dia dos namorados (I hate valentines day).
Em geral não gosto de comédias românticas e conto nos dedos aquelas que eu curti - Quatro casamentos e um funeral, Casamento Grego e Green Card - Passaporte para o amor (esse é meu preferido e nem considero comédia romântica). O que me atrai nesses filmes que citei, os quais revejo de vez em quanto, é o fato de tratarem o amor não como um espetáculo, como geralmente o cinema norte-americano faz e cineastas de outras nacionalidades, inclusive brasileiros, tentam imitar. Pelo contrário, eles tratam o amor como algo bonito, inesperado, vivido por pessoas comuns, como eu, você ou padeiro da esquina.
É por passar um mínimo de veracidade nas histórias contadas que me identifico com esses filmes. Quatro casamentos relativiza a idéia de que a felicidade de uma relação está no casamento, quando na verdade o casamento deveria vir da felicidade e da vontade de ficar junto e construir algo - ou não, porque não é preciso assinar papéis para construir família e tal. Casamento Grego, a história de uma mulher proveniente de uma família grega tradional - e quando digo tradicional digo paternalista onde as mulheres dependem dos homens e vivem na perspectiva de arranjar um casamento, e somente dentro da comunidade - que vive um relacionamento com um cara que não é grego e tem uma cultura completamente diferente do clã da garota. Green Card, meu favorito, os opostos se atraindo pelas coisas que têm em comum. Todos esses filmes, foram feitos com um pé na realidade, sem extravagâncias, sem exageros românticos e é por isso que gostei de cada um deles. Apesar de cinema ser fantasia e da gente já saber o final desses filmes, o par romântico fica junto, eles contam histórias com as quais as pessoas comuns podem se identificar, a começar por seus personagens interpretados por pessoas com cara de gente comum. Mesmo Hugh Grant e Andy Mcdowel sendo os namoradinhos da américa na época, são pessoas com cara de gente comum, muito diferentes de uma Julia Roberts, ou um Richard Geere (Uma linda mulher); e o que dizer de Gerard Depardié e Nia Vardalos (respectivamente Green Card e Casamento Grego), que esteticamente estão a kms de distância do padrão hollywoodiano de beleza.
Eu odeio o dia dos namorados, não é um filme tão sutil e delicado como Green Card ou Quatro Casamentos, ou uma comédia de costumes rasgada como Casamento Grego, pelo contrário, tem umas situações que deveriam ser engraçadas mas não são, na verdade a impressão que dá é de que a gente perdeu a piada, e Nia Vardalos (sim a mesma de Casamento Grego, que é também diretora do filme), sorri de mais. O primeiro terço do filme chega a ser chatinho - sim, "chatinho" no diminutivo mesmo, porque não chega a ser super chato, tipo "aff! Melhor ver tv!", mas não engrena e você fica "ãhn, tá legal, mas e aí?!". Entretanto, quando os protagonistas começam a sair vai ficando legal e o filme engrena. Mas o que me chamou mais atenção quando o filme começou a engrenar é exatamente o que me atraiu  nos outros - uma história feita por pessoas  com cara de gente comum, vivendo situações e neuroses de gente comum, e não aquelas caras engomadinhas. Não se vê, aqueles cabelos bem escovados, aqueles olhares típicos de romances Júlia e Sabrina, ah, nem as mulheres sempre jovens, magas, louras, com cara de comercial de shampoo ou pasta de dente, morando um super condomínio, sonho da classe media americana. Não, os protagonistas não são formados em Harvard, não desfilam em carros de luxo, nem trabalham num grande escritório de advocacia ou coisa parecida. O que se vê é o cidadão comum, que trabalha, tem amigos doidos e sem noção, e vai vivendo a vida - coisa bem distante do "sonho americano". É disso que gosto. Parte das boas piadas do filme se deve muito ao elenco de apoio, todo formado por atores com cara de gente comum, que vivem a vida das pessoas comuns.
Outro ponto legal é a própria Nia Vardalos, que do patinho feio de Casamento Grego, interpreta uma mulher "pegadora" (rsrsrs), como se diz hoje. Bonita, independente, inteligente, divertida, espontânea e sedutora, tem o homem que quer por no máximo cinco encontros - após esse tempo adeus (!), pois segundo a persongem, após o quinto encontro a coisa fica séria e o romance acaba. Uma solteira convicta! Vardalos interpreta a personagem sem no entanto enquadrá-la no padrão estético norte-americano caricato. Lembro que quando esse filme estreou no cinema, um dos críticos do Globo implicou exatemente com o fato da atriz principal ser Vardalos, porque segundo ele, Vadalos "não convencia" na pele de uma mulher sensual! Ai eu me perguntei: não convence por quê? Porque não é o modelinho estético norte-americano? Por que não é loura, magra, com uma carinha sensual? Por que tem a cara parecida com a das mulheres da platéia? Então quer dizer que uma mulher comum não pode, nem deve, se sentir bonita e sensual? Francamente! Nota zero para esse crítico e dez para Nia Vardalos e todas nós mulheres  comuns lindas, independentes, inteligentes e sensuais!
A fotografia do filme é outro deleite para os olhos, há passagens de cena em que as ruas de Nova York são mostradas, outras é o por do sol na cidade, mas o que se vê não é Manhatan, nem Wall Street, mas sim ruas desconhecidas, onde caminham pessoas comuns, onde a vida real se desenrola fora dos holofotes. É isso que dá ao filme veracidade, apesar de um roteiro com algumas situações "lugar comum" em comédias românticas, e do final previsível e doce (mas não ao extremo do açúcar de outros filmes).
Então, caro leitor, se você algum dia for obrigado a trocar a folia pelo sofá de casa, pode alugar (ou baixar) Eu odeio o dia dos namorados! sem medo de ser feliz! Não é o filme do século, mas dá pra passar o tempo.

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