Dois assuntos mobilizaram muito a comunidade blogueira (pelo menos os blogs que eu costumo ler) durante a última semana - a expulção da aluna Geise, agredida por colegas de faculdade na UNIBAN e as asneiras proferidas por Caetano Veloso sobre nosso presidente. O que os dois episódios tem em comum? Em ambos os casos o preconceito e a discriminação foram o motor dos acontecimentos.
O preconceito reside no estranhamento em relação ao outro. Onde há diferenças há preconceitos. Por isso é uma tremenda hipocrisia afirmar o contrário. Um bom exemplo é a palavra "barbaro" que significava "não grego" e foi atribuido aos germânicos por Heródoto, historiador grego, por possuirem cultura distinta da cultura grega, o que provocava estranheza entre os gregos. Isso não mudou e nunca mudará. Você pode não ter preconceito racial, mas certamente tem outros e talvez nem perceba. Porém há uma diferença grande entre reconhecer que todos nós humanos temos um lado preconceituoso e ficar cultivando e alimentando preconceito, deixando que ele guiem nossas vidas.
O que causou mais estranhamento nos dois casos foi o fato de o primeiro ter ocorrido numa universidade e o segundo, ter saido da boca de um artista reconhecido tanto por sua genialidade quanto por sua postura critica em relação a sociedade.
A universidade, que independente de ser pública ou particular, é um lugar de pensamento e reflexão - não, universidade não é escola técnica onde o objetivo é aprender uma profissão -, onde, inclusive os inúmeros preconceitos deveriam ser pensados e relativizados. Por isso espanta tanto a atitudes de colegas de Gleyse e, mais ainda, a atitude da institução que não cumpriu sem papel - e talvez por isso os alunos de lá não se sentiram nem um pouco inibidos em agredir e ameçar a colega. Estudo não muda a cabeça de ninguém, a menos que as pessoas estejam abertas a mudança, entretanto uma universidade deve manter um nivel, deve assumir determinados parâmetros de conduta institucional no sentido de promover a reflexão, a crítica e assim uma atitude politica e social progressista, ao invés de cair na mesmice do conservadorismo.
O mesmo podemos dizer de Caetano Veloso. É certo que a imprensa hiperboliza a figura do cantor, que parte de seus fãs (como os de qualquer outro artista) levam o que ele fala muito a sério, que ele é visto pela mídia como um "intelectual" não somente pela sua genialidade como artista, mas principalmente por seu envolvimento no tropicalismo. Apesar de sabermos que ele não é o "intelectual", impressiona o fato de alguém que tem a arte como ofício, que já escreveu tantas canções contendo críticas sociais, no momento de expressar sua opinião sobre o presidente, apele para o mais baixo preconceito.
Penso que atualmente vivemos uma situação limite e de radicalização. Quanto mais se discute o lugar das classes populares na sociedade - seu direito a cidadania, a qual existe sá na lei, pois de fato lhes é negada diariamente e há décadas* - a liberdade da mulher, os direitos dos homossexuais, o negro na sociedade brasileira e tantas outras importantes questões sociais, culturais e políticas, mais percebemos a forte reação conservadora dentro da sociedade. Esta posição não tem nada a ver com o tradicionalismo de determinadas classes sociais, tem a ver com uma disputa por poder, dentro dessa sociedade, um poder simbólico se materializa nas instituições, na interpretação das leis, nas atitudes que tomamos em relação ao outro. Por isso, ter um homem de origem humilde, proveniente das classes populares, no principal cargo do poder executivo de um país democrático, a presidencia da república, dá engulhos. O problema não apenas seu programa de governo, mas também e principalmente sua presença no poder, e uma atuação bem sucedida, apesar de não ter a delicadesa de um PHD. No caso de Geyse, dá engulhos ver uma mulher fora de seu "lugar", de submissa, recatada e reservada, passa a ativa, que assume sua sensualidade. Uma mulher que se expõe so pode ser uma "puta", assim como a mulher que trabalha é aquela que está "disponível" sexualmente, ou a divorciada uma devoradora de homens, "ameaça" aos lares e as "moças de boa família". O fato é que uma mulher independente, ainda hoje, meche com os alicerces conservadores da sociedade porque ela subverte a órdem patriarcal de nossa sociedade. Gleisy só estava trajando um mini-vestido, entretanto foi idenficada com a subversão.
Tanto a arte quantos as instituições de ensino são produtos da história, de seu tempo, ou seja, em diferentes momentos da história, arte e ensino tiveram sentidos diferentes. No tempo em que vivemos, tabus e preconceitos são denunciados e discutidos no sentido de seus efeitos serem minimizados e de que, se não a aceitação, mas, pelo menos, a tolerância**, seja difundida por toda a sociedade e em todas as esferas sociais, e que todos vivamos de maneira civilizada. A arte (por mais que os artistas insistam em dizer que ela não tem compromisso algum com nada, que ela é livre) e as instituções de ensino (embora os empresários e neo-tecnocratas de plantão isistam em dizer que a educação tem como meta a inclusão no mercado como mão de obra e como consumidores), são veículos onde tabus e preconceitos podem ser relativizados e novos valores podem ser difundidos. A arte porque mexe com os sentidos, com o lúdico, com o prazer, a alegria, e a criatividade e assim com o inconsciente e o pensamento. A escola ou universidade porque congrega uma diversidade imensa de pessoas e grupos sociais, e somente através da experiência coletiva é possivel reconhcer o outro, o diferente, relativizar os valores, quebrar preconceitos e derrubar tabus. Espera-se apenas que os agentes tanto da arte quanto da educação levem a sério essa faceta de seus ofícios e trabalhem para uma sociedade mais justa, mas igualitaria e plural.
Como disse no início, preconceitos existem e sempre vão existir, os atuais, no futuro, serão substituidos por outros, e assim sucessivamente. Entretanto, o que não deve nunca morrer, é a luta contra eles.
*Aqui estou me referindo às classes populares no contexto republicano, e não às classes populares durantes o período colonial do do Império, pois isso envolve uma discussão extença e detalhada a cerca do conceito de cidadania, o que não é o objetivo deste texto. Por isso coloquei "décadas" e não "séculos".
** Aceitação e tolerância, para mim, são coisas distintas. A aceitação passa pela compreenção, percepção do outro, reconhecimento de outro modo de vida distinto do seu, ao passo que a tolerância é algo meio forçado, tolera-se aquilo com o qual não se pode lutar e estinguir. Penso que um comportamento tolerante é o nimimo para se viver de forma harmônica em sociedade, e um passo em direção a aceitação.
ÁLVARO DIAS QUER CPI DO PINTO
2 horas atrás

2 comentários:
O que mais me surpreende no caso Gleyce foi o machismo encrustado na formação de certas estudantes da Uniban. Quanto ao Caê, bem, ele anda falando merda já faz teeeeeeeeeeempo. Aliás, eu acho que ele sempre abriu aquela matraca para falar besteiras a torto e a direito. O que me surpreende é que ele já foi retirante, láááááá nos 60 do séc. passado.
Klamber, o que mais me surpreendeu no caso da UNIBAN foi a violência e a impunidade. As pessoas até poderiam julgá-la como uma "puta" - eu não estou dizendo que isso é certo, na verdade acho muito errado, mas sabemos que acontece - entretanto, nunca poderiam agredí-la, xingá-la, ameaçá-la isso é, além de machismo, uma falta de cidadania muito grande, uma falta de respeito a pessoa. Aí que é mora o perigo. Preconceito sempre vai existir, mas não somos animais, vivemos em sociedade, ninguém pode sair por aí agredindo os outros. Isso é um absurdo! Mais absurda ainda foi a postura da universidade, caramba, é um estabelecimento de ensino, deveria ser o primeiro lugar a rechaçar o pensamento e o comportamento preconceituoso e agressivo. Entretanto, expulsando a aluna, apenas legitimou a postura dos alunos, os quais tiveram uma punição muito leve. Aí é que eu pergunto: que tipo de Universidade é essa?
Quanto ao Caetano, sim ele só fala merda - por isso eu aderi ao "Vai a merda..." rsrs... - mas, não deixa de causar espanto porque foi uma postura nitidamente elitista a qual revela a postura de boa parte da classe média. Existem milhares de motivos para ele não gostar do Lula, mas esse argumento, de que ele fala feio, ou é analfabeto redundam para o pensamento elitista de que ele, por ter origem humilde e em momento algum esconder isso, não poderia estar onde esta.
Mas de onde vc tirou que Caetano foi retirante, Klamber?! Foi nada. O pai era funcionário público, e ele frequentou a faculdade de filosofia da Baia, numa época em que ir para a faculdade era muito, muito mais difícil que hoje - praticamente so frenquentava a universidade quem era de classe média.
O fato dele ter origem na classe média ou retirante não é critério para identificação ou discriminação em relação ao Lula. Tem um monte de gente que é de classe média, universitários, profissionais liberais e não pensam como ele. A questão aí é de identifiação com a ideologia burguesa.
Os desenhos lá no Parafuso estão muito bacanas e engraçados.
Bj.
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